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A evidente sub-representação das mulheres nas assembleias eletivas é um indício claro de que existe uma desigualdade estrutural de gênero. Um sistema político democrático deve permitir que todos os segmentos sociais sujeitos a condições de desigualdade –como mulheres, negros, indígenas, etc– possam se fazer representar igualitariamente nas arenas institucionais. Além disso, uma sociedade democrática justa deve assegurar que todas as cidadãs e cidadãos possam usufruir igualmente de seus direitos políticos, econômicos e sociais, sob a égide de um Estado de Direito que assegure a proteção contra a violência em todas as esferas do convívio social.
Um segundo motivo pelo qual é importante que as mulheres estejam presentes nos espaços de poder, em vez de marginalizadas e subalternizadas como estiveram ao longo de toda a história da sociedade brasileira, é permitir que elas manifestem suas perspectivas, ideias, demandas e necessidades nos espaços em que são tomadas as decisões vinculatórias a toda a sociedade. Argumenta-se, nos estudos sobre mulher e política, que as mulheres desenvolvem perspectivas próprias1 (i.e. formas específicas e situadas de ver o mundo) como resultado de sua inserção social marcada pela clivagem de gênero. Assegurar que essas perspectivas estejam presentes no sistema político contribuiria para torná-lo mais representativo e legítimo.
Argumentamos também que as cidadãs tenderão a sentir-se mais representadas ao perceberem um aumento do número de mulheres no poder. As mulheres tenderão a enxergar os espaços de poder como lugares em que a presença feminina é desejada e bem-vinda, o que também pode acarretar o aumento do seu interesse por política e do seu senso de representatividade. Nesse sentido, também há estudos2 que testaram e comprovaram a hipótese de que a presença de mulheres no Parlamento aumenta o envolvimento político das mulheres em geral. O inverso também é verdadeiro, ou seja, as mulheres parlamentares também tendem a julgar-se mais representantes de outras mulheres3.
Por último, um motivo alegado por determinadas correntes da literatura feminista para uma maior participação da mulher nas esferas do Poder consiste em que as mulheres teriam uma visão mais ética da política, derivada do exercício da maternagem -prática marcada pelo cuidado com a preservação da vida – e, de forma mais ampla, de papéis de gênero que lhes fazem mais propensas a prestar atenção às relações pessoais e necessidades alheias. Em decorrência de como são socializadas e das expectativas que a sociedade tem sobre seu comportamento, as mulheres se tornariam, assim, mais pacifistas e solidárias e poderiam difundir esses valores para a esfera pública.