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Nota à imprensa e à sociedade sobre o Projeto de Lei nº 849/2025 e a APA da Baleia Franca (SC)
A unidade foi criada com o objetivo de proteger não apenas uma espécie emblemática, mas também um sistema costeiro integrado - Foto: Divulgação/APA da Baleia Franca
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) acompanha o debate em curso no Congresso Nacional sobre o Projeto de Lei nº 849/2025, que propõe a retirada de mais de 30 mil hectares da porção terrestre da Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca, localizada no litoral sul de Santa Catarina.
Diante da relevância da unidade de conservação para o patrimônio ambiental brasileiro e para as populações que vivem e trabalham na região, o ICMBio considera importante esclarecer à sociedade e aos meios de comunicação os principais aspectos envolvidos na discussão e os possíveis efeitos associados à proposta.
A APA da Baleia Franca foi criada em 14 de setembro de 2000 com o objetivo de proteger não apenas uma espécie emblemática da biodiversidade brasileira — atualmente classificada como ameaçada de extinção no país —, mas também um sistema costeiro integrado que conecta ambientes marinhos e terrestres. Dunas, restingas, lagoas, banhados, estuários e demais ecossistemas costeiros desempenham papel essencial na manutenção do equilíbrio ambiental, na conservação da biodiversidade e na sustentação de atividades econômicas e culturais do território.
A proteção da baleia-franca depende desse equilíbrio ecológico. O ambiente marinho e o ambiente terrestre funcionam como partes de um mesmo sistema ambiental, razão pela qual a gestão integrada entre oceano e território costeiro constituiu um dos princípios que orientaram a criação da unidade de conservação.
Nesse contexto, é importante destacar que a proposta em discussão demanda avaliação cuidadosa quanto à sua capacidade de enfrentar os desafios que busca solucionar. As ocupações situadas em Áreas de Preservação Permanente (APPs) permanecem submetidas à legislação específica aplicável, independentemente da existência da APA da Baleia Franca. Dessa forma, a retirada da porção terrestre da unidade de conservação não implica, por si só, a regularização dessas ocupações, nem altera automaticamente processos judiciais em andamento ou elimina conflitos fundiários existentes. Ao mesmo tempo, a alteração pode reduzir instrumentos de gestão territorial atualmente disponíveis para apoiar a construção de soluções integradas.
Ao longo dos últimos anos, a APA da Baleia Franca ampliou sua atuação para além das ações voltadas exclusivamente à conservação ambiental, desenvolvendo iniciativas em articulação com municípios, órgãos públicos e comunidades locais. Em Jaguaruna, por exemplo, a unidade articulou recursos destinados à realização de estudos de Regularização Fundiária Urbana para dois bairros do município e trabalha para viabilizar iniciativa semelhante em Laguna. Essas ações buscam contribuir para soluções estruturantes voltadas à organização territorial e à ampliação da segurança jurídica para as populações locais.
Outra iniciativa em fase de implementação é o Programa Rancho de Pesca Legal, desenvolvido com o objetivo de aproximar o poder público dos pescadores artesanais, apoiar processos de regularização dos ranchos de pesca, casas de vigia e sarilhos, integrar a atuação institucional e simplificar procedimentos administrativos atualmente existentes.
O programa busca fortalecer a cooperação entre órgãos públicos e comunidades tradicionais, contribuindo para a valorização e permanência da pesca artesanal, atividade historicamente vinculada à identidade cultural do litoral sul catarinense. A execução de iniciativas dessa natureza está diretamente relacionada à capacidade de atuação territorial da unidade de conservação.
É importante reconhecer que os desafios fundiários e urbanísticos existentes na região são reais e demandam respostas consistentes do poder público. Nesse sentido, a discussão sobre alterações nos limites da unidade de conservação exige análise técnica cuidadosa quanto aos seus impactos e à manutenção de instrumentos capazes de apoiar soluções duradouras.
O debate sobre desenvolvimento territorial, moradia, segurança jurídica e conservação ambiental não deve ser tratado como uma escolha excludente. O desafio consiste em construir caminhos que conciliem proteção ambiental, desenvolvimento econômico e qualidade de vida para as populações locais.
Decisões relacionadas às unidades de conservação produzem efeitos de longo prazo e impactam não apenas o presente, mas também a capacidade futura de gestão do território e de conservação do patrimônio natural brasileiro.
O Instituto Chico Mendes reafirma seu compromisso com o diálogo institucional, com a produção e disponibilização de informações técnicas qualificadas e com a construção de soluções em conjunto com os diferentes atores sociais envolvidos.
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