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Tartaruga anciã, 37 anos a desovar no ES, reflete a importância de políticas públicas contínuas de conservação
Governos e instituições podem até mudar e passar, mas o trabalho de servidores públicos e pesquisadores segue incessante por mais de 40 anos. Assim tem sido com as ações de conservação de espécies ameaçadas de extinção, como a tartaruga cabeçuda (Caretta caretta) recentemente reencontrada na praia de povoação, litoral norte capixaba, em sua 8ª visita à Linhares-ES. A área integra a APA da Foz do rio Doce – a mais recente unidade de conservação federal criada em junho de 2025.
Esta cabeçuda vem sendo monitorada a 37 anos, ganhando o status de tartaruga mais velha a desovar no Brasil – popularmente chamada de vovó ou anciã. Isso seria um feito difícil de se alcançar sem o trabalho do governo federal, desde 1979, somado as dezenas de instituições parceiras que hoje conduzem o monitoramento reprodutivo e proteção destas espécies ao longo da costa brasileira, como é o caso da Fundação Projeto TAMAR – pioneira no Brasil.
A fêmea anciã teve uma marca inserida em sua nadadeira pela primeira no ano de 1988, tendo sido reencontrada agora em 2 de dezembro de 2025, 37 anos depois – consolidando este como o mais longo monitoramento já documentado no Brasil para uma tartaruga marinha em atividade reprodutiva.
Para o coordenador do Centro TAMAR/ICMBio, Joca Thomé, o feito só reforça as políticas públicas que vêm sendo implementadas a mais de 40 anos, e que atravessam a história ambiental, antes IBDF, depois Ibama (1990) e atualmente ICMBio (desde 2007), revelando que o trabalho árduo rende sim belos frutos desde que continuados.
“Quando pensamos que as ações para conservar as cinco espécies de tartarugas marinhas começaram em 79, é gratificante vermos esses resultados. Ou seja, dia após dia, equipes fazem a diferença em campo e em análises técnicas qualificadas e apoio das comunidades costeiras, visando mudar o cenário de pressão sobre esses indivíduos”, celebra Joca.
Joca reforça que a nova área protegida criada pela União em junho de 2025 auxiliará na proteção dessa espécie ameaçada de extinção, classificada atualmente como “vulnerável”, e já esteve como “Em perigo”. “Com certeza o Plano de Manejo da nova UC e Conselho Consultivo a serem criados definirão estratégias e ações continuadas de conservação”, explica Joca.
Segundo o biólogo, pesquisador e Coordenador de Pesquisa e Conservação da Fundação Projeto Tamar no ES, Alexsandro Santos, essa fêmea foi vista pela oitava vez agora (dez/2025), mas pode ter vindo até mais vezes, sem que se tenha o registro.Como o ciclo reprodutivo começa por volta dos 25 anos, somados aos 37 de monitoramento, estima-se que a fêmea tenha mais de 60 anos – o que indica que ela se caracteriza como uma avó intergeracional – ou seja, desova com suas filhas e até netas na mesma praia.
“Esse é o registro mais longo que a gente tem no Brasil de recapturas. Isso reforça como o trabalho de marcação e recaptura ao longo de décadas é fundamental para entender a longevidade reprodutiva, estimar sobrevivência e conhecer melhor o ciclo de vida desses animais”, explicou Alex.
A espécie, cabeçuda (Caretta caretta) pode atingir até 1,23 metro de comprimento de casco e pesar entre 150 e 200 quilos. Em cada temporada reprodutiva, a espécie faz de três a oito ninhos, com média de cinco desovas por animal.
Cada ninho recebe cerca de 120 ovos. A cada temporada, ela pode colocar em torno de 600 ovos no total. De cada mil filhotes que nascem, apenas um ou dois chegam à idade adulta, entre 25-30 anos. Saiba mais.
Ou seja, a cada fêmea que vem desovar por temporada, apenas um filhote se torna um adulto, por serem presas fáceis na luta pela vida. Estudos de telemetria indicam que as cabeçudas que se reproduzem no estado costumam migrar para áreas costeiras do Sudeste e do Sul do Brasil e até para águas da Argentina e do Uruguai, principalmente sobre a plataforma continental, em águas mais rasas.
Carnívora, a espécie se alimenta de camarões, lagostas, caranguejos e pequenos peixes. Mas pode se especializar dependendo da região onde vive.
"São generalistas, mas quando escolhem uma área de alimentação, podem virar especialistas. Uma cabeçuda que se alimenta no Rio Grande do Sul pode comer mais moluscos, enquanto outra, no Nordeste, pode focar em lagosta. É a mesma espécie, mas com dietas diferentes", explica Alex.
Fonte: Juirana Nobres, G1 ES – com edições Centro TAMAR/ICMBio
