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Fernando de Noronha vive temporada reprodutiva atípica em 2026
Voluntários apoiaram nas ações de monitoramento reprodutivo noturno e diurno
Se a temporada reprodutiva de tartarugas marinhas em Fernando de Noronha fosse como a anterior, de 2025, a comemoração seria garantida, com o marco histórico de 805 ninhos na ilha. Mas a atual temporada de 2026 tem surpreendido pela grande timidez nos números de desovas da tartaruga-verde (Chelonia mydas). Atualmente, (até o momento da publicação desta reportagem) a temporada reprodutiva de tartarugas marinhas no arquipélago revela o registro de apenas 22 ninhos, até então, sendo 19 na praia do Leão e três nas praias do mar de dentro.
Mas o que pode estar acontecendo? Algum fenômeno em particular? Para o Agente Ambiental Executor da Base Avançada do Centro TAMAR-ICMBio em Fernando de Noronha/PE, Renan Louzada, essa baixa histórica não é um fenômeno exclusivo de Fernando de Noronha e sim do Atlântico Sul.
“As ilhas brasileiras do Atlântico Sul, onde a tartaruga-verde desova, também apresentam sinais de uma temporada fraca. Atol das Rocas registrou até o momento nenhum ninho. A ilha da Trindade Maior área de reprodução dessa espécie no Brasil está na casa dos mil ninhos, onde já se esperava muito mais que isso. Também tivemos informações de pesquisadores que as demais ilhas do Atlântico Sul também estão em baixa nas desovas dessa espécie, como Santa Helena e Ascenção enfrentam temporada atípica.”, explica Renan.
As hipóteses para um fenômeno tão particular como esse são várias, como uma possível baixa na produtividade primária nas áreas de alimentação. Predominantemente herbívora quando adulta, a tartaruga-verde se alimenta de algas e gramíneas marinhas. Sem se alimentar robustamente, e possivelmente com baixos estoques - que são a base para alimentação e energia das tartarugas – a jornada de uma longa temporada reprodutiva pode ser comprometida.Outra possível hipótese se deve ao número recorde da temporada anterior que pode ser sido uma união de duas temporadas em apenas uma. “Outro ponto a se considerar são as mudanças climáticas, considerando que as tartarugas podem estar buscando 'atrasar' um pouco mais a atual temporada reprodutiva, pelo fato de a temperatura ser determinante na definição do sexo dos filhotes.”, frisa Renan.
Segundo informações contantes no Guia de Licenciamento Tartarugas Marinhas, publicado pelo Centro TAMAR-ICMBio, o sexo dos filhotes é determinado pela temperatura na qual os ovos são incubados, podendo sofrer forte influência de fatores externos.
A temperatura pivotal é aquela que gera 50% de fêmeas e 50% de machos em uma ninhada, que é aproximadamente 29ºC. Acima dessa temperatura, ou seja, quanto mais quente, maior a proporção de nascerem fêmeas. Variações locais da temperatura da areia, e consequentemente no tempo de incubação dos ovos, como o sombreamento provocado por estruturas na orla, bem como o possível aumento da temperatura em função das mudanças climáticas, podem influenciar e ameaçar o equilíbrio fêmeas/machos e populacional das espécies.
Outra tese são a dos fenômenos climáticos como El Niño e La Niña, que atrasaram o período de chuvas esse ano, que não podem ser descartados como influenciadores desse cenário curioso. “Descartamos qualquer ameaça natural, como a predação do tubarão tigre, como justificativa para a aparente temporada baixa de tartarugas marinhas. Mas seguimos investigando e monitorando”, reforça o Agente Ambiental Renan.
Voluntários arregaçam as mangas e vão a campo!
A temporada deste ano continuou o intercâmbio e troca de experiências entre bases avançadas do Centro TAMAR-ICMBio. Para a gestora ambiental do Centro TAMAR-ICMBio Chefia da Base Avançada de Salvador-BA, Patrícia Dittmar, foi muito importante conhecer a dinâmica de trabalho da Base Avançada do Centro TAMAR-ICMBio em Fernando de Noronha-PE, especialmente o monitoramento reprodutivo realizado pela equipe, muito diferente das ações no continente.
“Fui capacitada no protocolo do monitoramento promovido pela equipe da Base, os ATAs Renan Louzada e Flávia Soares, que possuem grande conhecimento e experiência, e aprendi bastante com os colegas. Além disso, a oportunidade de trocar experiências entre bases foi fundamental para pensar soluções conjuntas para as dificuldades enfrentadas no dia a dia, além da integração da equipe do Centro Tamar como um todo”, celebrou Patrícia.
“Percebemos em campo uma aproximação entre teoria e prática, com os conhecimentos executados em campo. É uma troca muito valiosa, que fortalece o alinhamento das atividades, a segurança da equipe, a integração e experiências entre todos das bases”, afirma a Agente Ambiental Temporária, Flávia Soares.
Já a mergulhadora colaboradora do Centro TAMAR-ICMBio, Hevelyn de Paula, poder trabalhar com a captura e recaptura de tartarugas no mergulho autônomo foi simplesmente uma das melhores experiências que ela teve. “Estar em contato com essa natureza na sua forma mais pura, no seu habitat, e a partir disso ter elementos para compreender sobre o processo de desenvolvimento e saúde das tartarugas, e como continuar criando estratégias de preservação. É um lindo trabalho realizado pelo Centro TAMAR-ICMBio, me sinto muito feliz e grata em fazer parte de tudo isso”, celebra Hevelyn.
Para o oceanógrafo que atua no Centro Tamar Sede, em Vitória-ES, Danilo Afonso Nogueira, desenvolver atividades variadas, desde o campo até atividades administrativas no escritório foi de grande aprendizado. Com dias intensos, conciliando monitoramento reprodutivo noturno e diurno, ele contribuiu ainda no levantamento de dados, coleta de material biológico, transferência de ninhos, mapeamento e levantamento das desovas nas praias do arquipélago.
“O que mais me marcou foi experienciar a vivência de uma pessoa residente da ilha, e não de um turista. Pude observar os desafios que enfrenta um morador comum, além claro das lutas travadas em prol da conservação, sensibilização ambiental das praias, trilhas e ecossistemas, cuja pressão existe a partir desse turismo mais massivo e do lixo proveniente de outros continentes e trazido por meio da circulação oceânica e correntes marítimas”.
O programa como um todo, segundo Danilo Afonso, oferece um vasto apoio no que se refere à execução do voluntariado, como reuniões prévias à chegada da ilha e materiais institucionais e infográficos disponibilizados no site. “Como sugestão fica a proposta de mini-reuniões de nivelamento, antes da saída a campo, entre o monitor da escala os voluntários atuantes nessa escala, considerando que nem sempre há especialistas no tema”.Outra pessoa a contribuir com o monitoramento reprodutivo de tartarugas marinhas na Base Avançada de Fernando de Noronha foi a ex-estagiária de design gráfico do Centro TAMAR-ICMBio, Ellen Alves Sant’Ana. Para ela, foi possível desenvolver atividades de monitoramento diurno nas praias do Sancho e noturno na praia do Leão.
“Foi algo muito gratificante, tanto do ponto de vista pessoal quanto profissional. Poder acompanhar de perto o momento da desova da tartaruga-verde foi uma experiência única e emocionante, que me fez perceber ainda mais a importância da conservação dessas espécies”, ressaltou Ellen.
Para Yasmin Nascente São José, que permaneceu uma semana em campo no mês fevereiro, apoiando no monitoramento das desovas da tartaruga-verde na praia do Leão e no monitoramento diurno na praia do Sancho a experiência foi transformadora. “E incrível, pois pude ver a desova de tartarugas em uma ilha oceânica tão preservada e auxiliar no processo. Como futura oceanógrafa, ter sido voluntária me motivou a seguir nesse caminho”, frisou Yasmin.
Heloísa Nadal, voluntária do Centro TAMAR-ICMBio e moradora de Fernando de Noronha, participa do monitoramento em sua segunda temporada. “Posso dizer que meu amor por tartarugas foi amor à primeira vista. Desde 2014, quando mergulhei e vi uma no mar, fiquei completamente encantada. Em 2025, vivi um dos dias mais marcantes da minha vida: fui pela primeira vez à Praia do Leão para participar do monitoramento de tartarugas marinhas. Nunca vou esquecer esse dia, e nenhum dos outros que vieram depois, cada ida à praia do Leão, cada desova, cada biometria, cada anilhamento, cada nascimento é como se fosse a primeira vez”, afirma Heloísa.
“Depois vieram mais noites trabalhando como voluntária. Foi uma experiência tão especial que me levou a me inscrever no voluntariado Centro TAMAR-ICMBio de Fernando de Noronha novamente. Poder participar de forma direta na preservação de uma espécie ameaçada de extinção é algo que ressignificou minha história. Renan, me ensinou muito, conseguiu transferir um pouquinho do seu vasto conhecimento pelas tartarugas que adquiriu em sua longa jornada dessa história linda da preservação delas, levo comigo muitos aprendizados que vão além do voluntariado. Sou muito grata por fazer parte disso”, descreve a voluntária Heloísa.
Sandra Tavares
Comunicação Centro TAMAR/ICMBio

