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Corais seguem resistindo às pressões e mudanças climáticas
Plano de Ação para conservá-los se consolida como ferramenta para a manutenção destas várias formas de vida
Os caminhos para seguir buscando um oceano mais equilibrado e com as formas de vida nele existentes se desenvolvendo, envolvem estratégias e políticas públicas de longo prazo e a atuação de uma série de instituições trabalhando juntas. Após a publicação da portaria (4.444/2025) regulamentando o Plano de Ação Nacional para Conservação dos Ambientes Coralíneos – 2º Ciclo – 2025-2030, muito está sendo feito, assim como há muito trabalho pela frente.
Para aprender um pouco mais sobre os corais entrevistamos nessa edição o oceanógrafo e pesquisador do Centro de Biologia Marinha da Universidade de São Paulo (CEBIMar/USP), Marcelo Visentini Kitahara para o qual, nos últimos anos, os corais sofrem com as mudanças climáticas mais fortes e duradouras no oceano, não apenas nas águas do litoral brasileiro, mas em diversas partes do planeta.
“Estas anomalias térmicas, usualmente associadas ao fenômeno El Niño, já desencadearam quatro eventos de branqueamento em massa de corais, sendo que no Brasil, as regiões Nordeste e Sudeste são as que vêm apresentando as mais significantes ondas de calor e, consequentemente, desse branqueamento”, contextualiza o pesquisador.
Diversos são os impactos relacionados a estas anomalias térmicas, segundo o pesquisador. “No caso dos corais da ordem Scleractinia, o aumento da temperatura do oceano faz com que o metabolismo de seus endossimbiontes (dinoflagelados fotossintetizantes da família Symbiodiniaceae) acelere. Como um dos produtos da fotossíntese, temos a produção de oxigênio que, quando liberado em maiores quantidades pelos endossimbiontes nos tecidos do coral-hospedeiro, torna-se tóxico e desencadeia uma série de respostas fisiológicas do coral, que culminam com a expulsão dos endossimbiontes e, consequentemente, com o branqueamento do coral”, traduz o especialista.
Mas o que é Branqueamento de corais?
Para compreender o fenômeno denominado “branqueamento dos corais”, é preciso contextualizá-lo. “É uma forma figurada para indicarmos que, devido a algum estresse, como por exemplo o aumento da temperatura do oceano, a relação de simbiose entre corais e dinoflagelados fotossintetizantes da família Symbiodiniaceae se quebra”.O especialista explica que cerca da metade de espécies de corais da ordem Scleractinia, considerados os principais arquitetos dos recifes de corais, mantem essa relação simbiótica quase que obrigatória com os dinoflagelados fotossintetizantes.
Como numa espécie de dança, “nesta relação o coral provê subprodutos de seu metabolismo aos dinoflagelados, como dióxido de carbono e compostos de nitrogênio e fósforo, como amônia e fosfatos - que são nutrientes para estes. Em contrapartida, os dinoflagelados transferem ao coral-hospedeiro diversos compostos orgânicos como glicose, glicerol e aminoácidos”, traduz Kitahara.
O aumento da temperatura e da luminosidade no oceano faz com que as taxas metabólicas desses dinoflagelados acelerem e, consequentemente, a fotossíntese ocorra de forma mais intensa.
São mais de 300 milhões de anos dessa dança e troca generosa, mas, com isso, a grande maioria dos corais simbióticos perdeu a capacidade de se nutrir plenamente de forma heterotrófica (quando um organismo se alimenta de outros organismos).
E uma vez branqueados, o tempo passa a contar de forma muito urgente. “Cada espécie de coral vai conseguir se manter vivo por um período. Nesses casos a heterotrofia
funciona apenas como um suplemento para a obtenção de energia, podendo assim voltar a ser estabelecida essa simbiose - caso a temperatura e/ou luminosidade voltem ao normal. Mas, caso o aquecimento da temperatura do mar se mantenha por tempo mais prolongado, o coral-hospedeiro pode morrer por inanição” explica Kitahara.
Entre as espécies contempladas no Plano de Ação estão o coral-cérebro-da-Bahia (Mussismilia braziliensis), o coral-vela (Mussismilia harttii) e o hidrocoral-de-fogo (Millepora braziliensis). Para ele, essas espécies, em conjunto com outras, como por exemplo Montastraea cavernosa, Porites spp., etc., são fundamentais para a estruturação dos ambientes recifais biogênicos – que tem origem na matéria biológica.
No caso de M. harttii e M. alcicornis, a forma de crescimento pode ser considerada como ramificante, o que aumenta significativamente a complexidade do substrato. Mussismilia braziliensis tem forma massiva e, assim como a maioria das outras espécies de corais escleractíneos simbióticos do Brasil, é importante para a taxa de crescimento (acresção) dos recifes. “Centenas de outras espécies de invertebrados, além de pequenos vertebrados, vivem intimamente associados aos corais escleractíneos”, frisa Marcelo.
Abundância em espécies
A área que os recifes de coral ocupam no oceano podem até não ser gigantesca. Mas os ecossistemas recifais são reconhecidos pela riqueza e abundância de espécies cujos estágios da vida estão associados, pelo menos um, a estes ecossistemas. Segundo o pesquisador Marcelo, cerca de 1/4 das espécies marinhas podem ser encontradas neste ecossistema, o tornando um dos mais biodiversos.“Eventos mais severos e duradouros de branqueamento se traduzem em diminuição da cobertura de corais escleractíneos o que, em último caso, faz com que os recifes parem de “crescer” e iniciem um processo de erosão (ou seja, diminuição) e, em alguns casos, mudem de fase – quando outras espécies como algas ou zoantários aumentam sua abundância”, explica Kitahara. Como consequência para mudanças de fase, temos a diminuição da riqueza de espécies nestes ecossistemas: “de invertebrados que conseguimos observar apenas com auxílio de equipamentos, a vertebrados como peixes.
De fato, centenas de milhões de pessoas dependem, direta ou indiretamente, dos ecossistemas recifais para suprir suas demandas, como por exemplo, proteína (recursos
pesqueiros). Sem contar que estes ecossistemas auxiliam na proteção de linha de costa contra fenômenos como a erosão. Todo o oceano é por si só uma verdadeira ‘biblioteca’ médica, no que se refere à descoberta de novas moléculas
Longe de desaparecerem
Os corais escleractíneos possuem história no planeta que remota a 460 milhões de anos. Kitahara é otimista, fundamentado na ciência e pesquisa de que, segundo estudos mais recentes, os corais não irão desaparecer por completo.“Os corais sobreviveram a todos os eventos de extinção em massa – sem contar outros eventos de mudanças que nosso planeta já experimentou. Mas uma coisa é fato. Os ecossistemas por eles construídos estão mudando e nãos serão os mesmos para as próximas gerações”, explica o pesquisador.
Entre as causas dessas mudanças estão o que ele denomina estressores de escala local – como a sobrepesca e a poluição - aliados a estressores globais - como o aquecimento global – que vêm impactando negativamente estes ecossistemas.
Espécie invasora coral-sol: mais uma ameaça
Segundo Marcelo Kitahara, as espécies de coral do gênero Tubastraea, denominados de corais-sol são originárias do Indo-Pacífico e chegaram na costa brasileira na décadade 1980 através de bioincrustação (aderindo) em plataformas de petróleo.
Nos anos 2000 presenciou-se a expansão da invasão de pelo menos duas espécies, ao longo da costa brasileira. E devido a algumas “habilidades reprodutivas” destas espécies, assim como outras questões ecológicas, como a ausência de predadores e/ou competidores, essa expansão se acelerou.
“Em algumas localidades estas espécies chegam a saturar o ambiente, recobrindo quase que 100% do substrato consolidado. Este aumento de distribuição e abundância preocupa, pois diminui a diversidade de invertebrados desses ambientes, o que também resulta numa mudança da ictiofauna”, explica o pesquisador.
Para conhecer mais sobre o nosso entrevistado clicando aqui.
Confira outras matérias no Boletim Eletrônico do Centro TAMAR/ICMBio No 08 - Junho de 2026.
Comunicação Centro TAMAR/ICMBio




