Notícias
Turismo sustentável: PAN Cavernas do Brasil testa metodologias para avaliar impactos do espeleoturismo
Coleta de invertebrados na caverna Furna Feia, em Baraúna/RN (Parque Nacional da Furna Feia) - Foto: Diego Bento
Com mais de 30 mil cavernas registradas e um potencial estimado de ultrapassar 300 mil, o Brasil tem despertado cada vez mais a curiosidade de turistas interessados em conhecer ambientes subterrâneos. Diante desse crescente interesse, pesquisadores vêm promovendo iniciativas voltadas à redução dos impactos da visitação. É o caso de um trabalho iniciado no Parque Nacional da Furna Feia, no Rio Grande do Norte, que integra o Plano de Ação Nacional para a Conservação do Patrimônio Espeleológico (PAN Cavernas do Brasil) e é conduzido por pesquisadores do Centro de Estudos em Biologia Subterrânea (CEBS), vinculado à Universidade Federal de Lavras (UFLA). Recentemente, a região recebeu uma expedição dedicada a testar metodologias de avaliação dos impactos da visitação. A proposta é que esses mesmos estudos sejam aplicados em Minas Gerais, estado que concentra o maior número de cavernas do país.
Sobre a metodologia
O analista ambiental e coordenador da Base Avançada do ICMBio/Cecav no Rio Grande do Norte, Diego Bento, explicou que os pesquisadores delimitaram vários pontos amostrais nas áreas visitáveis e em áreas adjacentes. Todos esses pontos foram amostrados antes e após quatro dias de visitações simuladas, quando foram observados a riqueza e abundância de espécies de invertebrados cavernícolas. Também foram coletados dados microclimáticos e outras informações relacionadas aos microhabitats presentes em cada ponto amostral.
As visitações foram realizadas com cerca de 45 pessoas por dia, que percorreram toda a extensão visitável da caverna e retornaram pelo mesmo trajeto - simulando o que seria o impacto de 90 pessoas entrado na caverna pela entrada principal e saindo por uma claraboia próxima ao final da caverna (situação que representaria a capacidade de carga máxima da caverna).
“A hipótese com que trabalhamos é que a visitação faça com que os animais saiam da área visitada e passem para áreas não visitadas, mesmo que esses espaços sejam próximos. Além disso, há a hipótese de que não haverá diminuição da riqueza geral da caverna nem da abundância. O que deve acontecer é uma migração da fauna”, explicou Diego Bento.
De acordo com o analista ambiental, a ideia é verificar se os impactos do turismo ficam dentro do que é considerado ‘aceitável’. “A Furna Feia é uma caverna que ainda não recebe visitação, então estamos conseguindo realizar todo esse trabalho antes da chegada dos turistas. Isso é algo que, na maioria das cavernas do Brasil, não é possível. Geralmente, elas primeiro passam a receber visitação e só depois vêm as pesquisas para tentar regularizar a situação”, explicou Diego.
Expedição também ampliou estudos com espécie ameaçada e inventariou áreas pouco pesquisadas
A expedição também realizou coletas na região de Felipe Guerra e Governador Dix-Sept Rosado, no Rio Grande do Norte. Essas coletas tiveram como foco principal a espécie de cigarrinha subterrânea Kinnapotiguara troglobia. Considerada amplamente distribuída, e mesmo assim oficialmemente ameaçada de extinção (na categoria Vulnerável), estudos recentes indicam que, na verdade, a espécie pode ser um complexo com até dez espécies crípticas (que não são facilmente identificadas por meio de taxonomia tradicional, por meio de carcaterísticas morfológicas).
O material coletado permitirá que pesquisadores do CEBS/UFLA e do ICMBio/Cecav verifiquem se essas linhagens descobertas realmente correspondem a espécies morfologicamente distintas e, a partir disso, descreverão formalmente. “A ideia é que, juntando informações de DNA, de ocorrência geográfica e de morfologia, a gente consiga fazer o que chamamos de taxonomia integrativa” e descrever essas novas espécies, disse Diego.
Já no Ceará, o trabalho foi realizado em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), e objetivou inventariar biologicamente cavernas com proposta de uso turístico nos municípios de Tejuçuoca e Madalena. A UFC já vem estudando essas cavernas, principalmente sua geologia, e a parceria com a UFLA visa complementar as informações necessárias para a elaboração dos planos de manejo espeleológico.
Hotspots da biodiversidade subterrânea
O Parque Nacional da Furna Feia e a região dos municípios de Felipe Guerra e Governador Dix-Sept Rosado vêm sendo pesquisadas há cerca de 20 anos. De acordo com Diego, a região já é bem conhecida, algumas áreas são consideradas hotspots de biodiversidade subterrânea, e há diversos trabalhos publicados por pesquisadores da UFLA, universidade pioneira nesses estudos na região, do ICMBio/Cecav e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Do ponto de vista bioespeleológico, é considerada uma das regiões mais importantes da América do Sul.
Já no Ceará, as cavernas ainda são muito pouco estudadas. Existem algumas avaliações prévias, mas nenhum estudo mais aprofundado como o que está sendo realizado agora. “O Ceará ainda é uma incógnita. Encontramos algumas espécies interessantes, mas ainda não dá para afirmar que sejam espécies troglóbias. Serão necessárias avaliações posteriores, porque tudo ainda está muito no começo”, concluiu o analista ambiental.

Sobre o PAN Cavernas do Brasil
O PAN Cavernas do Brasil possui 44 ações, distribuídas em quatro objetivos específicos, com o objetivo geral de prevenir, reduzir e mitigar impactos e danos antrópicos sobre o patrimônio espeleológico brasileiro, suas espécies e ambientes associados, no prazo de cinco anos.
O plano contempla ainda 168 táxons nacionalmente ameaçados de extinção e estabelece diretrizes como objetivos específicos, prazos de execução, formas de implementação, além de mecanismos de supervisão e revisão.

