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Risco de extinção: anfíbios da Serra do Espinhaço são avaliados
Bokermannohyla martinsi - Foto: Maurício Andrade
Com mais de 10 milhões de hectares, grande importância no abastecimento de água de diversas populações e das principais bacias hidrográficas brasileiras, a imensidão e diversidade da Serra do Espinhaço pode revelar muitas descobertas. Também conhecida como a Cordilheira do Espinhaço, o local é considerado a maior cadeia de montanhas do Brasil, possui vasta diversidade de fauna e flora, além de uma imponente beleza cênica que reafirma, a cada dia, todo o potencial para novos achados.
A região abriga três biomas brasileiros de grande relevância para a conservação da biodiversidade: Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica e se estende desde o centro-sul de Minas Gerais até a Chapada Diamantina, na Bahia. Diante de toda essa imensidão e riqueza natural, iniciativas de pesquisa, proteção e conservação se tornam fundamentais para que a área e toda sua singularidade sejam conhecidas e preservadas. Entre as ações que vêm sendo implementadas, uma oficina coordenada pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios (ICMBio/RAN) foi realizada no fim de março, com o objetivo de avaliar o risco de extinção de anfíbios da Serra do Espinhaço e adjacências. A reunião contou com a colaboração do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (ICMBio/Cecav), que recentemente registrou a presença de 18 espécies de anuros (sapos, rãs e pererecas) associadas a ambientes cavernícolas. A União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) e diversos pesquisadores estiveram presentes.
Na ocasião, 27 espécies de anuros foram avaliadas. Dessas, doze espécies foram classificadas em algum risco de extinção (“Criticamente”, “Em Perigo” ou “Vulnerável”), três classificadas na categoria “Quase Ameaçada” (NT), onze espécies classificadas como "Pouco Preocupante" (LC) e uma na categoria “Dados Insuficientes” (DD).
De acordo com o analista ambiental e coordenador da Base Avançada de Minas Gerais, Maurício Andrade, “entre as espécies avaliadas que possuem registros em cavernas, quatro foram avaliadas (Bokermannohyla martinsi, Hylodes uai, Ischnocnema karst e Physalaemus erythros). Bokermannohyla martinsi é endêmica do Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, e sofre intensas pressões antrópicas, sobretudo pela mineração, expansão urbana, malha rodoviária, queimadas, agropecuária e silvicultura.
“Considerando a baixa capacidade de dispersão dessa espécie, as subpopulações encontram-se efetivamente isoladas, com registro de extinções locais e populações severamente fragmentadas. Ischnocnema karst, por sua vez, é endêmica da região cárstica de Arços e Pains, no estado de Minas Gerais, sendo restrita a esse ambiente. A principal ameaça à espécie é a mineração de calcário e dolomita, que causa perda e fragmentação do habitat cárstico, com populações severamente fragmentadas”, explicou o analista ambiental.
Contribuição ecológica das espécies
Os anfíbios desempenham papel muito importante para manutenção do equilíbrio ecológico. Atuam como controladores biológicos de pragas e vetores de doenças como mosquitos transmissores da dengue, Zika, Chikungunya, além de escorpiões, caracóis e diversas pragas agrícolas. Como predadores e presas, sustentam a cadeia alimentar e, devido às suas características biológicas, servem como bioindicadores da qualidade ambiental, servindo como sentinelas para quando a situação de um local não vai bem.
Segundo o ICMBio/RAN, mais de 8,400 espécies de anfíbios são conhecidas no mundo e o Brasil é o país com a maior diversidade desse grupo. Um estudo publicado em 2023 pela Revista Nature, Ongoing declines for the world’s amphibians in the face of emerging threats, apontou que mais de 40% dos anfíbios do mundo estão ameaçados de extinção, sendo considerados os animais mais ameaçados do planeta.
Maurício Andrade diz que na Serra do Espinhaço, ainda existem diversas lacunas de dados sobre essas espécies. “A falta de informação sobre tamanhos populacionais, fluxo genético e endogamia são um grande entrave para a avaliação. Assim as informações mais utilizadas na avaliação do risco de extinção são a distribuição geográfica das espécies e a fragmentação, declínios ou flutuações das populações”, afirmou.
Os projetos “Ecologia de Vertebrados Associados a Cavernas do Espinhaço Meridional” (apoiado pelo TCCE Vale nº 1/2018), “Ecologia de Vertebrados Cavernícolas” e “Uso de cavidades naturais e entorno por vertebrados e interações ecológicas associadas “, desenvolvidos pelo ICMBio/Cecav, forneceram informações sobre a distribuição e ecologia dessas animais que utilizam as cavernas.
Caminhos para a continuidade do trabalho
Após a oficina, ocorrerá a validação dos resultados por meio de especialistas independentes, que verificarão se o método foi aplicado corretamente. Posteriormente, o resultado será publicado no Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade (SALVE). Paralelamente, o resultado será submetido ao Ministério do Meio Ambiente para avaliação e publicação da Portaria com a Lista Nacional Oficial de Espécies Ameaçadas de Extinção. A IUCN também irá utilizar os dados publicados no SALVE para atualizar as informações sobre o risco de extinção, principalmente das espécies endêmicas do Brasil, em sua Red List of Threatened Species, unificando assim suas as informações e classificações com as do ICMBio.
