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Pesquisa aponta que as cavernas contribuem com até 75% dos serviços essenciais à vida no planeta
Caverna da Toca da Barriguda (BA) - Foto: Rodrigo Lopes Ferreira
Fornecimento e tratamento da água potável, fonte de energia renovável geotérmica, abrigo para espécies essenciais à agricultura, depuração de compostos tóxicos, regulação climática, fonte de recursos para biotecnologia, moradia, lazer, além de local de orações, e até produção de alimentos, como cogumelos e maturação de queijos e vinhos. Estes são apenas alguns exemplos de serviços de ecossistema prestados pelas cavernas e ambientes subterrâneos, identificados por um grupo de pesquisadores de dez países em um estudo publicado na revista científica Biological Reviews. Entre os autores brasileiros estão especialistas que integram o Plano de Ação Nacional para Conservação do Patrimônio Espeleológico Brasileiro (PAN Cavernas do Brasil), coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (ICMBio/Cecav), reforçando a alta qualificação técnica do país e sua participação estratégica em ações de conservação em nível nacional.
No final dos anos 1990, o conceito de serviços de ecossistema ganhou força e maior visibilidade, mostrando que a vida humana depende fortemente dos demais seres vivos do planeta, e que biodiversidade e o mundo natural tinham um valor econômico gigantesco caso tivéssemos que pagar pelos serviços por eles prestados gratuitamente para nós, humanos. Desde então, centenas de estudos científicos se propuseram a identificar, quantificar e valorar os serviços de ecossistema na Terra. A ideia dos pesquisadores deste estudo era elaborar um inventário detalhado de todos os serviços de ecossistema associados às cavernas. “Queríamos organizar um conhecimento que já sabíamos, mas que ainda estava muito restrito ao meio espeleológico, isto é, ao universo de quem trabalha com cavernas”, afirma Rodrigo Lopes Ferreira, professor e pesquisador do Centro de Estudos em Biologia Subterrânea (CEBS), da Universidade Federal de Lavras (UFLA), em Minas Gerais, e coautor do trabalho. “Ainda assim, nós mesmos ficamos surpresos com a quantidade, a qualidade e a importância dos serviços identificados”, completa Ferreira.
Atualmente, são reconhecidos pelo menos 90 tipos de serviços de ecossistema, agrupados em três grandes grupos. O primeiro são os Serviços de Provisão, que são basicamente os bens e recursos que a humanidade obtém diretamente da natureza, tais como alimento, fibras e matéria-prima, recursos medicinais, ou água potável. O segundo grande grupo é o dos Serviços de Regulação e Manutenção, que incluem os processos e as condições ambientais necessárias para a manutenção da estabilidade, segurança e resiliência de toda a vida no planeta, incluindo a vida humana. Neste grupo estão, por exemplo, a manutenção dos ciclos da água e dos processos biogeoquímicos do carbono, nitrogênio, fósforo, enxofre e ferro, e também
os sistemas naturais que quebram, depuram e neutralizam compostos tóxicos, como esgoto doméstico e industrial não tratados. E no terceiro grande grupo estão os chamados Serviços Culturais, que englobam os benefícios não materiais fornecidos pelo mundo natural para a humanidade, incluindo, por exemplo, turismo e recreação, valores estéticos e artísticos, conhecimento científico, educação, e significado espiritual e religioso. O estudo recém-publicado mostrou que as cavernas e ambientes subterrâneos prestam pelo menos 68 dos 90 serviços de ecossistema reconhecidos, em todos os três grandes grupos, sendo 63% dos Serviços de Provisão, 82% dos de Regulação e Manutenção, e 100% dos Serviços Culturais.
“Este estudo não poderia ter saído em um momento mais oportuno”, afirma Marconi Souza Silva, também do CEBS da UFLA, e coautor da pesquisa. “No Brasil, estamos em um momento de descoberta de novas cavernas, crescente interesse no turismo em cavernas, e cada vez mais as pessoas estão tendo contato com estes fascinantes, mas ainda pouco reconhecidos e valorizados ambientes. Nosso estudo mostra que as cavernas são muito mais importantes do que as pessoas imaginam”, completa Marconi.
A pesquisa mostra usos e serviços bastante amplos: organismos cavernícolas e compostos por eles produzidos já foram identificados com potencial biotecnológico e farmacêutico, incluindo enzimas, biosulfactantes, antitumorais e imunoestimulatórios, e também como fonte de inspiração para novos polímeros. No turismo, cavernas estão entre os locais mais visitados de alguns países, como a gruta Postojna, na Eslovênia, que recebe centenas de milhares de visitantes todos os anos. Na agricultura, a caverna Bracken, nos Estados Unidos, abriga milhões de morcegos insetívoros, que toda noite consomem toneladas de insetos, incluindo pragas como a lagarta do cartucho do milho, economizando anualmente cerca de 3 bilhões de dólares por ano em agroquímicos e aplicações para os produtores norte-americanos. E os apreciadores de um bom queijo também devem um agradecimento às cavernas: o fungo Penicillium roqueforti, essencial na produção do famoso queijo Roquefort, foi inicialmente descoberto em cavernas na região de mesmo nome, na França.
A urgência de agir frente às mudanças ambientais
O estudo também serve como um alerta: vários dos serviços de ecossistema prestados pelas cavernas são vulneráveis às mudanças ambientais, e alguns já estão ameaçados. O desmatamento ao redor das cavernas, a contaminação dos lençóis freáticos por agrotóxicos, ou o uso de cavernas como depósitos de lixo são exemplos de atividades que comprometem ou destroem completamente os serviços por elas prestados. “Se consideramos que o Brasil tem mais de 30.000 cavernas conhecidas, e estima-se que este número represente cerca de 15% do total no país, então podemos ter uma dimensão do que está em jogo”, afirma Enrico Bernard, professor do Departamento de Ecologia e Conservação da UFLA, e coautor do estudo. “Alterações recentes nas regras de licenciamento ambiental no Brasil, por exemplo, certamente vão comprometer vários dos serviços que identificamos. Em um momento onde o planeta passa por fortes transformações, proteger as cavernas, e a quantidade e qualidade dos seus serviços, é uma excelente relação custo-benefício”, conclui Bernard.