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São Pedro e São Paulo é o arquipélago escolhido para início de projeto inovador de monitoramento simultâneo da vida marinha nas ilhas oceânicas
Instalação de equipamentos do proejto Rede BRISCA, no arquipélago de São Pedro e São Paulo. Foto: Danielle Viana. - Foto: Danielle Viana
De olho nos grandes animais marinhos que rondam e vivem no Arquipélago de São Pedro e São Paulo (ASPSP) - distante mais de 1.000 km da costa brasileira - pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco iniciaram no final de julho um projeto inovador: o rastreamento de várias espécies de animais pelágicos através de telemetria acústica em todas as ilhas oceânicas brasileiras (Atol das Rocas, SPSP, Fernando de Noronha e Trindade e Martim Vaz), em Abrolhos (ilha costeira) e em algumas áreas costeiras do Estado de Pernambuco.
A Rede BRISCA - Brazilian Islands and Coastal Areas vai além da observação isolada de cada ilha, mas pretende entender a conexão entre as diversas áreas que serão monitoradas. A tecnologia utilizada vem do Canadá. Os receptores são fabricados pela empresa Innovasea, que no Brasil é representada pela empresa Lunus.
A escolha de São Pedro e São Paulo para dar início ao projeto tem uma razão: além da localização geográfica privilegiada, o arquipélago também tem condições favoráveis ao monitoramento de tubarões: a captura desses animais pela pesca comercial está proibida desde maio de 2012. A bióloga Dra. Danielle Viana, idealizadora da rede BRISCA justifica: “De lá para cá as populações de espécies de tubarões que ocorrem no local se recuperaram de forma surpreendente, até para a gente que acompanha esses animais há muito tempo."
Um mundo a descobrir
Com o projeto, os pesquisadores querem entender o uso do habitat pelos tubarões e outros animais em todas as ilhas oceânicas brasileiras e em Abrolhos (que já é uma ilha costeira), e ainda estudarem a conectividade entre estes ambientes insulares.
Além de responder às questões científicas, a Rede BRISCA pretende apoiar os esforços de conservação e gestão por meio de uma ampla rede integrada de monitoramento acústico nacional, como a OTN (Ocean Tracking Network), para auxiliar na avaliação da importância e conectividade da biodiversidade em algumas Áreas Marinhas Protegidas que estão no estudo.
Aproveitando a mesma tecnologia, outras espécies também serão observadas: tartarugas, meros, grandes peixes pelágicos - como atuns e barracudas - além de espécies associadas a recifes, como garoupas e pargos. A possibilidade de fazer o mesmo trabalho com golfinhos, também está sendo estudada.
Os tubarões são o foco do projeto porque são predadores de topo de cadeia e por isso têm um papel fundamental no equilíbrio ecológico. Outra razão é o fato de que “os tubarões são espécies que podem ter uma interação negativa com os seres humanos - e isto é tudo que não queremos aqui num lugar tão distante como o ASPSP, onde o socorro mais próximo fica a dois dias de viagem, que seria Fernando de Noronha” - esclarece Danielle Viana.
As principais questões da pesquisa incluem: Quais são os padrões específicos de uso do habitat dessas espécies? Como fatores sazonais e ambientais influenciam suas rotas migratórias?
Sucesso na primeira expedição do projeto
A primeira expedição do projeto “Rede BRISCA”, que aconteceu entre os dias 21 de julho e 05 de agosto foi considerada um sucesso.O projeto é uma iniciativa de vários pesquisadores, apoiados pela Marinha do Brasil e pelo ICMBio. A ideia é pioneira: “Nós estamos muito empolgados com este trabalho; é uma estrutura gigantesca, com o apoio total da Marinha do Brasil - é por causa dela que a gente consegue ter essa inserção nas ilhas.” - destaca Danielle Viana.
A pesquisadora também comemorou os resultados da expedição, que atingiu tudo que estava planejado: “Conseguimos marcar dois tubarões e instalamos dois receptores na água. É um lugar bastante desafiador e foi a primeira vez que esta operação foi feita nestes locais: uma estaão receptora dentro da enseada, o lugar mais abrigado próximo as boias, e outra fora da enseada” - explica Danielle.
A previsão da equipe é concluir a instalação de todas as estações de receptores acústicos até o final de janeiro de 2026, incluindo outras ilhas oceânicas, como Trindade e Martim Vaz. Mesmo antes de concluir esta etapa, os primeiros resultados já devem começar a ser obtidos até dezembro deste ano, a partir das estações que já estiverem operando.
O projeto tem duração prevista de três anos, com a expectativa de se tornar uma iniciativa contínua, a depender dos resultados alcançados e do engajamento das instituições parceiras.
Saiba mais
O estudo pretende também contribuir para esforços mais amplos de observação oceânica, permitindo a detecção de mudanças e variações nos padrões ambientais associados à presença ou ausência dessas espécies.
Segundo os pesquisadores, compreender como esses organismos respondem a alterações nas condições oceanográficas, como temperatura, salinidade e padrões de corrente, permitirá avaliar os impactos das mudanças climáticas e de outras influências antrópicas em seus movimentos, seleção de habitat, e dinâmica populacional. Os dados poderão ser usados para fortalecer modelos preditivos para o monitoramento e gestão dos ecossistemas nessas regiões de grande importância ecológica.
A rede BRISCA está aberta para esclarecer dúvidas e firmar parcerias com mais estudiosos: “para os pesquisadores que tiverem interesse em conhecer mais sobre esta infraestrutura e tudo mais que a gente pretende atingir, é só entrar em contato conosco, pelo Instagram @ecotuba_oficial. Quanto mais pesquisadores utilizando esta infraestrutura, melhor.” - conclui Danielle Viana.
