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Rede BRISCA fortalece o Brasil no monitoramento de espécies marinhas migratórias no Atlântico Sul
Equipe que realizou a instalação das Estações de Receptores Acústicos na Ilha da Trindade - Foto: Acervo - Projeto Ecotuba
Na primeira quinzena de março deste ano, pesquisadoras da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), lideradas pela Dra. Danielle Viana, estiveram na Ilha de Trindade — a ilha oceânica mais ao sul do Brasil — para a instalação dos receptores da Rede BRISCA, por meio de colaboração com a Ocean Tracking Network (uma das principais iniciativas globais em telemetria de animais marinhos, sediada no Canadá) e em parceria com outras instituições do Brasil e do exterior.
A Rede BRISCA (Brazilian Islands and Coastal Areas) é uma iniciativa de monitoramento simultâneo da vida marinha em todas as ilhas oceânicas brasileiras e parte do continente. Atualmente, configura-se como uma das maiores áreas de monitoramento de animais marinhos por telemetria acústica no Brasil, em termos de extensão geográfica e abrangência em ilhas oceânicas, consolidando uma infra estrutura científica e estratégica para estudos de conectividade ecológica e conservação no Atlântico Sul.
Toda a operação exige atenção redobrada: desde a amarração cuidadosa dos cabos nas poitas ainda a bordo, durante a travessia rumo à ilha, até a delicada operação de lançamento das estações de receptores acústicos. Após a instalação, as estruturas e os equipamentos já ficam disponíveis para a detecção da presença das espécies monitoradas. A instalação das estações da Rede BRISCA é conduzida pela UFRPE, com apoio essencial da Marinha do Brasil e do ICMBio – Grandes Unidades Oceânicas, possibilitando a expansão do monitoramento por telemetria acústica em áreas remotas e estratégicas do Atlântico Sul.
As Estações de Receptores Acústicos instaladas na Ilha da Trindade somam-se às demais estações da rede, já presente nos arquipélagos de Fernando de Noronha e São Pedro e São Paulo. Os três arquipélagos e boa parte do mar em torno deles, são territórios protegidos por Unidades de Conservação (UCs) federais.
Monitoramento de espécies migratórias em destaque internacional
A expansão da Rede BRISCA ocorre em um momento estratégico para a conservação marinha global. O Brasil sedia atualmente a COP 15, com o tema “Conectando a natureza para sustentar a vida” reunindo lideranças internacionais, cientistas e tomadores de decisão para discutir a proteção de espécies migratórias, muitas das quais utilizam o Atlântico Sul e as ilhas oceânicas brasileiras como áreas chave de alimentação, reprodução e deslocamento. Além disso, a iniciativa está alinhada aos objetivos da Década do Oceano, que busca promover a geração de conhecimento científico para a conservação e uso sustentável dos oceanos.
"Nesse contexto, a Rede BRISCA se posiciona como uma infraestrutura científica essencial para atender às demandas da agenda internacional, permitindo gerar dados inéditos sobre conectividade ecológica, uso de habitats e rotas migratórias de espécies como tubarões, tartarugas marinhas e grandes peixes pelágicos.", destaca a pesquisadora Danielle Viana, doutora em Oceanografia, A escala geográfica da rede, cobrindo múltiplos arquipélagos oceânicos e áreas costeiras, coloca o Brasil em posição de destaque no monitoramento de espécies altamente móveis, com potencial direto de contribuição para acordos multilaterais de conservação.
Estrutura pronta, necessidade de expansão
Embora parte significativa da infraestrutura já esteja instalada e em operação, com receptores ativos em diferentes ilhas oceânicas, a ampliação do monitoramento depende diretamente da aquisição de novos transmissores (tags), fundamentais para rastrear os animais. Ou seja, a base tecnológica já está disponivel na água, mas sua plena capacidade científica depende agora do aumento do número de indivíduos monitorados.
A idealizadora da Rede BRISCA, Danielle Viana, destaca que este é um momento-chave para o fortalecimento da iniciativa: “Já dispomos de uma rede operacional em pontos estratégicos do Atlântico Sul, pronta para gerar dados em larga escala. O próximo passo é ampliar o número de animais monitorados, especialmente espécies migratórias de interesse global. Esse é um investimento essencial para que o Brasil contribua de forma efetiva com os compromissos internacionais de conservação”, explica.
“Além disso, trata-se de uma oportunidade única de potencializar uma infraestrutura já instalada e em pleno funcionamento, maximizando o retorno científico com investimentos relativamente modestos em transmissores que podem gerar dados por até 10 anos.”
Rede disponível para colaboração
Danielle Viana explica que a rede é colaborativa, e já está disponível para adesão de outras pesquisas: “Pesquisadores interessados podem e devem utilizar a rede para monitorar espécies ainda pouco estudadas ou sem acompanhamento", destaca e complementa: “É importante ressaltar que a rede não se limita às áreas onde os receptores estão instalados. Pesquisadores que atuam em outras regiões, como o sul do Brasil, também podem se beneficiar da Rede BRISCA, especialmente no caso de espécies migratórias. Animais marcados em diferentes localidades podem ser detectados pela rede ao longo de seus deslocamentos, ampliando significativamente o alcance dos estudos e promovendo a integração de dados em escala nacional e internacional”.
Paulo Oliveira, professor da UFRPE e co-coordenador da Rede BRISCA, complementa: "Cada etapa exige planejamento, precisão e trabalho em equipe, e é isso que garante a qualidade dos dados que serão coletados e o sucesso do monitoramento marinho. Seguimos ampliando a Rede BRISCA e desvendando os caminhos dos tubarões e de tantas outras espécies no oceano Atlântico!”.
Conheça a tecnologia envolvida
A telemetria é uma tecnologia de monitoramento remoto que permite coletar, medir e transmitir dados automaticamente por meio de transmissores instalados em animais ou dispositivos, enviando essas informações para receptores (como antenas, satélites ou centrais de processamento) onde são registradas e analisadas. O recurso muito utlizado para monitoramento de frotas de veículos, por exemplo, é aplicado também pela ciência biológica no monitoramento de animais marinhos. O que a Rede BRISCA vem fazendo, é ampliar a capacidade de recepção destes dados para a maior parte da Amazônia Azul, a partir de estações de receptores acústicos estrategicamente instalados nas ilhas oceânicas brasileiras.
A telemetria acústica é uma ferramenta fundamental para a conservação e estudo da vida marinha, pooi permite rastrear os movimentos e comportamentos de animais debaixo d'água, onde outros métodos visuais como satélites não funcionam. Ela envolve a transmissores (tags) que são fixados nos animais e emitem sinais sonoros recebidos por hidrofones (receptores instalados em locais estratégicos).
Os dados obtidos sobre a presença dos animais em unidades de conservação, podem ajudar na avaliação da eficácia das áreas protegidas, além de permitir estudos em larga escala sobre o comportamento animal, com monitoramento contínuo (24h por dia) durante longos períodos.
Alguns tubarões marcados em Fernando de Noronha, no Arquipélago de São Pedro e São Paulo e até em outros países, já são monitorados com sucesso, a partir dos receptores instalados pela rede. “Com menos de 6 meses de instalação, já temos detecções expressivas em São Pedro e São Paulo, tanto nacionais quanto internacionais também” - conclui Danielle Viana.
Esse primeiros resultados já incluem registros inéditos de deslocamentos de longa distância, incluindo potenciais migrações transoceânicas, evidenciando a importância estratégica da rede para o entendimento da conectividade populacional em larga escala. Esse tipo de informação, ainda raro para o Atlântico Sul, reforça o potencial da Rede BRISCA para a produção científica de alto impacto e para subsidiar politicas de conservação baseada em dados robustos.
No futuro, a Rede BRISCA pretende, com apoio do ICMBio, alcançar o quarto território oceânico brasileiro, a Reserva biológica Atol das Rocas, estendendo o monitoramento de tubarões e outros animais migratórios e consolidando uma rede integrada de observação da biodiversidade marinha em escala oceânica.

