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Sucesso da irrigação em Israel é resultado de extensão, tecnologia e pesquisa
Ferramentas tecnológicas e inovações de gestão agrícola usadas em Israel
foram o tema do Programa Tecnologia Agrícola e Irrigação, realizado nos dias 29
de maio a 12 de junho no Centro de Estudos no Kibutz Mizra, a 7 km de Nazaré,
com a participação da engenheira agrônoma Robeísia Holanda, assessora da
Diretoria Geral do DNOCS na área de Recursos Hídricos. O curso de duas semanas
foi promovido pelo Centro Internacional de Treinamento Agrícola do Instituto
Galilee para demonstrar as inovações tecnológicas desenvolvidas em Israel na
área da Agricultura para convidados, técnicos de instituições de diversos
países.
No esforço para vencer o deserto, Israel desenvolveu uma série de
tecnologias aplicadas à agricultura, que hoje exporta para o mundo. São exemplos
os dessalinizadores para aproveitamento da água do mar, gotejadores
pressurizados, despoluição e reuso da água, técnicas de pós-colheita que
aumentam a vida de prateleira das frutas com uso de nitrogênio e dessecação,
assinala Robeísia Holanda. Cinco convidados do Brasil participaram do curso,
entre eles dois do Ministério da Integração Nacional e uma do DNOCS, com outros
profissionais da Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Angola, Moçambique, Zâmbia,
Nigéria, Cabo Verdes, São Tomé e Príncipe, Portugal e Espanha.
Como principal aprendizado e que serve de exemplo para o Brasil, Robeísia
Holanda observou que em Israel os kibutz, comparáveis aos perímetros irrigados
do Nordeste brasileiro, trabalham de modo integrado com as universidades e
incorporam de modo permanente a atividade de extensão. O modelo, segundo ela,
integra sempre a extensão e a pesquisa na realidade da produção no campo.
Mas no Brasil a extensão acabou após a Empresa Brasileira de Assistência
Técnica e Extensão Rural (Embrater) ser extinta em março de 1990 pelo governo de
Collor de Melo. A extensão ficou entregue aos estados; funciona bem em alguns;
mas em outros, não - ela critica. “Se não trabalhar a formação do homem, como o
irrigante vai ter tecnologia?”, indaga a agrônoma.
O homem que irrigava por balde precisa ser treinado na atividade de
extensão para utilizar as modernas técnicas de irrigação, de modo a saber fazer
a leitura do tensiômetro, dosar a necessidade de água e de fertilizante,
interpretar o estudo de solo para identificar carências e corrigir o PH, observa
a agrônoma do DNOCS. Em Israel, de acordo com Robeísia Holanda, apesar do avanço
tecnológico, o governo não despreza a agricultura, praticada com ênfase na visão
de empreendedor, com emprego de tecnologia cara e mão de obra importada que têm
de se pagar com a produção.
Como exemplo da racionalidade empregada na produção irrigada em Israel,
Robeísia Holanda cita um projeto de implantação de romã, cultura em expansão no
país, que deve chegar a produzir 50 Kg por planta, no mínimo. Se não for
atingido este índice de produtividade definido em estudos, o produtor não vai
aventurar uma segunda safra. O cultivo que não deu resultado será erradicado. O
país é pequeno, há pouca extensão de área agrícola, além da escassez de água,
por isso o modelo israelense busca alta produção com eficiência e baixos custos,
com uso do mínimo possível de água.
Israel é pequeno, menor que o estado de Sergipe, e de logística fácil,
conclui Robeísia Holanda. O país teve que definir com precisão sua política em
relação às atividades científicas e tecnológicas para poder reforçar sua
capacidade competitiva. No campo tecnológico, busca um alto desempenho,
sobretudo através da especialização, concentrando o esforço nacional num número
limitado de áreas.
O Brasil tem bastante água, solos profundos, mas enfrenta problema de
logística, burocracia e corrupção, compara Robeísia Holanda. “Quebramos o elo
que trabalhava o homem para receber a tecnologia, a extensão. A irrigação a
baixa pressão por gotejamento usada em Israel é aplicável no semiárido mas a
atividade que torna o homem pronto para receber esta tecnologia, quase não
existe”, ela afirma.
As Universidades no Brasil trabalham soltas. “Era para ter centros
tecnológicos nos perímetros para treinar a mão de obra que é mais barata do que
botar agrônomo nos projetos de irrigação”, afirma Robeísia Holanda. A agrônoma
aponta a necessidade de investimento do governo brasileiro em gestão e extensão,
numa visão de que o Brasil é um país agrícola.
“O papel do agrônomo é essencial na extensão rural”, argumenta a agrônoma.
Segundo ela, os perímetros irrigados são laboratórios diretos na pratica da
agricultura. Por isso – propõe – “deveria haver programas do governo para
aproveitá-los melhor”. Os Institutos Federais, juntamente com as Universidades,
poderiam treinar melhor na prática os futuros agrônomos e os técnicos agrícolas
- sugere.
Para ela, esta medida funcionaria como extensão rural, pois todos seriam
orientados pelos acadêmicos. Assim, ganham os futuros profissionais, por aplicar
o conhecimento na prática; o produtor, por ter um serviço de qualidade sem
custos (pois foram custeados pelo governo), e a sociedade é beneficiada, por
formar profissionais próximo da realidade de cada local, avalia. O ganho das
Universidades e dos Institutos Federais, por usa vez, conforme a ideia, seria
gerado ao cumprir a missão de difusão e aplicação do conhecimento.
Segundo a engenheira do DNOCS, “os problemas dos perímetros no Brasil
acontecem porque esqueceram o homem. Tecnologia pega e adapta. Mas a ótica é a
de preparação do homem para receber a tecnologia”. No Brasil, o perímetro
irrigado São Gonçalo, do DNOCS, na Paraíba, é um dos que se destacam no país por
índice de produtividade e resultados com melhor gestão, apesar da escassez de
água, graças à presença permanente de um núcleo de extensão do Instituto Federal
de Educação, Ciência e Tecnologia (IFPB) dentro do projeto de irrigação.
A agenda do curso do Instituto Galilee incluiu palestra de uma autoridade do
Ministério da Agricultura que chamou a atenção da agrônoma do DNOCS ao defender
a manutenção do investimento em tecnologia aplicada na agricultura. Segundo ele,
se desprezasse a agricultura, o país seria engolido pelo deserto. Segundo este
porta-voz do governo, as gerações jovens pegaram o país desenvolvido e não
passaram pela experiência da colonização. “A potência que Israel é hoje deve à
luta para vencer o deserto”.