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Sou filha do DNOCS
Só sabe o que é a seca, quem viveu o seu drama em plena vigência da estiagem.
Nós nordestinos, das velha e média gerações de cearenses, sabemos muito bem o
que seja . Não apenas pela ótica de nossos escritores e todos conscientes da
tragédia, muitos a vivenciando - como famílias , como a minha, sobreviventes
graças à ação do Governo central, na atuação do Dnocs. Sou da geração da
Inspetoria , placenta do que hoje se comemora centenariamente falando.
A seca de 32 marcou a minha família diretamente. Moradores de Cariré e minha
terra natal - fomos tangidos para Sobral no infernal flagelo. Mas , não fora o
Dnocs , não estaria eu contando esta história.
Meu pai foi apontador em açudes construídos pela Inspetoria e foi graças a esse
trabalho que a família conseguiu se manter suficientemente para que esta
tragédia fosse agora contada. O sertão não virou mar: terra estorricada, pasto
inexistente, fome campeando pelo sertão faminto, família se desintegrando com a
saída obrigatória e urgente dos homens para a Amazônia e, mesmo, para o sul
maravilha, ficando os seus lares sob a responsabilidade de extraordinárias
mulheres, como a minha mãe e loba gigante na defesa da prole: quatro filhos e
Orestes, Maria Olívia, Arlindo e eu.
Meu pai, alfabetizado, se alistou e foi servir, já disse, como apontador em
açudes do Departamento. Dali saia o dinheiro para a comida de nossa mesa. Sou
filha, então, do Dnocs. E disto me honro e isto proclamo onde minha voz se faça
ouvida.
Hoje, aos 100 anos celebrados ainda sem a projeção devida, o Dnocs contempla os
rebentos das famílias que salvou da catástrofe de 32. Disse isto em palestra na
sede do Departamento, aqui em Fortaleza. Na oportunidade, muitos braços se
levantaram e , numa só voz, dissemos: ``Somos filhos dos Dnocs.`` Ouvimos choros
sufocados, lágrimas contidas. Num abraço fraterno, nos reunimos ao redor de uma
mesa de confraternização.
Não, jamais vou esquecer este encontro de irmãos: filhos do Dnocs.
Adísia Sá - Jornalista
Fonte: Jornal O Povo