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Água que produz alimento: conheça a relação entre irrigação e agricultura no Semiárido
Quem percorre o interior do Ceará encontra uma paisagem marcada por dois cenários que convivem lado a lado. Em determinados períodos do ano, a vegetação característica da Caatinga evidencia a irregularidade das chuvas e as longas estiagens que fazem parte do clima do Semiárido. Em outras áreas, no entanto, pomares, plantações de hortaliças e diferentes culturas agrícolas revelam uma realidade construída a partir do uso planejado da água.
Essa transformação não acontece por acaso. Produzir alimentos em uma região onde a chuva é concentrada em poucos meses do ano exige infraestrutura, planejamento e manejo adequado dos recursos hídricos. É justamente nesse contexto que se inserem os Projetos Públicos de Irrigação administrados pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), presentes em diferentes municípios cearenses.
Ao longo de mais de um século de atuação voltada à infraestrutura hídrica no Nordeste, o DNOCS participou da implantação de açudes, canais e projetos de irrigação que passaram a integrar a dinâmica agrícola de diversas regiões. No Ceará, os perímetros irrigados administrados pela Autarquia estão distribuídos em áreas como o Vale do Jaguaribe, a Chapada do Apodi, o Baixo Acaraú e o Vale do Curu, onde a água armazenada em reservatórios é conduzida até os lotes agrícolas por meio de uma estrutura composta por canais, tubulações, estações de bombeamento e sistemas de distribuição.
Na data em que é celebrado o Dia do Técnico Agrícola (05 de novembro), a ocasião oferece uma oportunidade para compreender como a irrigação integra o cotidiano da produção agrícola no Semiárido e qual a importância do planejamento hídrico para o funcionamento desses sistemas.
Atualmente, o DNOCS tem sob sua responsabilidade 37 Projetos Públicos de Irrigação, em todo no Nordeste, sendo seis deles com contrato de cessão de uso vigente, apresentando resultados expressivos para a produção agrícola e o desenvolvimento regional. Juntos, esses projetos registram 174,9 mil toneladas de produção vegetal e um valor bruto de produção de R$ 401,3 milhões, em uma área cultivada de 35,1 mil hectares. A atividade também representa a geração de 35,1 mil empregos diretos e 70,2 mil indiretos, beneficiando aproximadamente 210,7 mil pessoas.
Da barragem ao campo
Antes de chegar às plantações, a água percorre um caminho que começa nos reservatórios. Dependendo das características de cada projeto, ela é captada em açudes, rios ou canais, passando por estruturas de bombeamento e distribuição até alcançar os lotes destinados à produção agrícola.
Esse percurso é acompanhado por equipes técnicas responsáveis pela operação dos sistemas e pelo monitoramento da disponibilidade hídrica. A quantidade de água distribuída considera fatores como o volume armazenado, a demanda das culturas, as características climáticas e o planejamento de cada perímetro irrigado.
Nos projetos administrados pelo DNOCS no Ceará, essa infraestrutura atende áreas destinadas ao cultivo de frutas, hortaliças, grãos e outras culturas adaptadas às condições do Semiárido.
Produção que acompanha as características de cada região
Não existe um único modelo de agricultura irrigada. Cada perímetro apresenta características próprias relacionadas ao solo, ao clima, à disponibilidade hídrica e ao perfil produtivo local.
No Projeto Público de Irrigação Jaguaribe-Apodi, localizado entre os municípios de Limoeiro do Norte e Quixeré, por exemplo, a produção agrícola é marcada pela fruticultura irrigada, Além da produção agrícola, o empreendimento abriga atividades ligadas à pecuária, aquicultura e agroindústria, contemplando diferentes cadeias produtivas desenvolvidas na região. Já no Tabuleiros de Russas, um dos maiores projetos administrados pelo DNOCS no Ceará, diferentes culturas convivem em uma área planejada para a distribuição de água destinada à atividade agrícola.
Projetos como Morada Nova, Icó-Lima Campos, Baixo Acaraú, Curu-Paraipaba, Curu-Pentecoste e Araras Norte também fazem parte da rede de perímetros irrigados administrados pela Autarquia, cada um com características produtivas e operacionais próprias.
Entre as culturas encontradas nesses projetos estão banana, coco, mamão, melão, melancia, manga, goiaba, acerola, pitaya, além de hortaliças e grãos. A escolha do que será cultivado depende de fatores como o tipo de solo, a disponibilidade de água, as condições climáticas e o planejamento agrícola realizado pelos produtores.
Irrigar vai além de fornecer água
Na agricultura irrigada, a água é apenas um dos elementos necessários para a produção. A definição do sistema de irrigação, a época do plantio, o manejo do solo, a manutenção dos equipamentos e o acompanhamento das condições climáticas fazem parte de um conjunto de práticas que influenciam o desenvolvimento das culturas.
Nos perímetros irrigados cearenses são utilizados métodos como gotejamento, microaspersão e aspersão convencional. Cada sistema apresenta características específicas e é escolhido conforme a cultura, o relevo, o tipo de solo e a disponibilidade hídrica.
O uso planejado desses métodos busca fornecer às plantas a quantidade de água adequada para cada fase do cultivo, evitando desperdícios e contribuindo para o aproveitamento dos recursos disponíveis.
Agricultura familiar e produção de alimentos
A agricultura familiar também está presente em diversos projetos públicos de irrigação. De acordo com a Lei nº 11.326/2006, essa modalidade de produção é caracterizada por critérios relacionados ao tamanho da propriedade, ao uso predominante da mão de obra da própria família, à gestão do estabelecimento e à origem da renda.
Nos perímetros irrigados administrados pelo DNOCS convivem agricultores familiares e produtores de diferentes portes, conforme a organização de cada projeto. Em muitas áreas, a atividade agrícola reúne conhecimento técnico, experiência acumulada por gerações e adaptação às condições naturais do Semiárido.
Conhecer a água é compreender o Semiárido
No Semiárido cearense, a água sempre influenciou a ocupação do território, a produção agrícola e o desenvolvimento das comunidades. Entender como funcionam os projetos públicos de irrigação é também compreender parte dessa história. Da captação nos reservatórios até a chegada aos lotes agrícolas, a água percorre um sistema que integra engenharia, operação, planejamento e trabalho no campo. Mais do que chegar às plantações, a água percorre um caminho que liga infraestrutura, agricultura e produção de alimentos em diferentes regiões do Ceará.
Serviço de Comunicação Social