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MÊS INTERNACIONAL DAS MULHERES
O que tem no seu quintal?
Nesta última semana de março, o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) destaca o protagonismo das mulheres rurais no trabalho de assegurar o bem viver de suas famílias e produzir alimentos saudáveis para todo o Brasil. A força e a organização das agricultoras familiares somadas às políticas públicas têm transformado vidas, lares e comunidades inteiras.
Em comum nessas histórias, os quintais produtivos, áreas ao redor das casas destinadas à produção agroecológica de alimentos, criação de pequenos animais e conservação da biodiversidade.
Em 2023, o Governo do Brasil criou o , estruturando esses espaços com o objetivo de gerar renda no campo, contribuindo para a autonomia econômica das mulheres e a segurança alimentar. Uma estratégia de enfrentamento às desigualdades sociais e de gênero no campo.
De 2023 para cá, são cerca de 100 mil quintais apoiados, superando a meta de 92 mil quintais até 2026.
Saiba mais sobre esse programa na série de 4 cinco matérias que produzimos.
NO MEU QUINTAL TEM FAMÍLIA E VIDA DIGNA
Do cultivo de ervas medicinais à criação de peixes, tem de tudo um pouco no quintal produtivo da família da agricultora Rosângela Pedrosa. Ela, a mãe Vilma, e as três irmãs, Rosineide, Rosimeire e Rosemari, compartilham, além do sobrenome, o amor pela terra.
A família mora no município de Ivinhema (MS), a aproximadamente 280 quilômetros da capital do estado, Campo Grande. A propriedade onde vivem foi adquirida em 2012, por meio do Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF), do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), programa que democratiza o acesso à terra ao oferecer financiamento facilitado às famílias que precisam comprar um imóvel rural. “É uma parcela sustentável, que dá para a gente pagar. Se não fosse esse programa, a gente já tinha abandonado o campo e ido morar na cidade”, conta Rosângela.
No quintal das cinco mulheres, uma diversidade de alimentos é cultivada em uma área de apenas um hectare e meio: hortaliças, frutas, ervas medicinais e aromáticas. Nele, elas também criam pequenos animais, como galinhas caipiras, tilápias e abelhas sem ferrão (Jataí). Tudo produzido de forma agroecológica. Rosângela, que é tecnóloga em agroecologia, explica o motivo: “Nós optamos por questão da saúde. Quem cultiva alimentos mais saudáveis e livres de produtos tóxicos traz saúde tanto para quem produz quanto para quem consome.”
Ao acessar o Programa Quintais Produtivos para Mulheres Rurais, em 2024, a família conseguiu melhorar significativamente o espaço, adquirindo telas de cobertura para a horta, aerador para o tanque de peixes, mudas de plantas frutíferas (manga e amora), uma despolpadeira de frutas e um cilindro elétrico. Rosângela calcula que, com a estruturação, foi possível aumentar em 25% a produtividade do quintal.

- Foto: Irmãs Pedrosa, Ivinhema (MS)
Faça chuva ou faça sol, a lida diária da propriedade rural, chamada de Chácara 4R, é tocada pelas cinco mulheres. Além do quintal produtivo elas criam gado leiteiro. Rosângela é quem lidera a parte do manejo da produção. “Uma fica na colheita, outra no preparo dos produtos para a comercialização, outra faz o contato com o cliente e cuida da contabilidade. Já a mãe cuida da colheita e do preparo para o nosso consumo”, relata a agricultora familiar. Cerca de 80% da alimentação da família vem do que é produzido na propriedade, tudo fresquinho e sem veneno. E a renda vem da comercialização direta dos produtos aos consumidores da região por meio de aplicativo de celular.
Rosângela explica que do quintal colhe-se muito mais do que alimentos. “No nosso quintal temos troca de saberes, partilha de vida, conservação dos costumes e das tradições culturais da família, amor e respeito à terra. Temos vida digna, né? Eu creio que isso é o que nos faz manter firmes, com os pés no chão. A gente sabe o que a gente escolheu pra viver, que é viver na terra e dos frutos da terra”
TEM MEL NO MEU QUINTAL
Já na primeira safra, a colheita da nova apicultora, Francisca Oliveira da Silva Gama, 67 anos, rendeu 25 quilos de mel produzidos em duas caixas de abelhas que ficam no quintal produtivo do Quilombo São José do Açaiteua, no município de Irituia, no Pará. O mel é novidade no espaço onde a quilombola combina cultivo agrícola por meio de sistemas agroflorestais, prática que preserva a biodiversidade, regenera o solo e garante variedade na colheita. No quintal da Francisca já tinha hortaliças, verduras, frutas, leguminosas, café e galinhas.
A quilombola, que já era agricultora familiar, virou também apicultora depois de acessar o Programa Quintais Produtivos para Mulheres Rurais do MDA, em 2024. Com o apoio do programa foi possível estruturar o apiário, ter os equipamentos de segurança para o manejo e a panela de cera. “Esse programa (Quintais Produtivos) representa a independência econômica das mulheres. Muitas vezes, as mulheres sofrem violência porque não têm uma renda. Quando a mulher tem a sua renda própria, ela se sente empoderada, ela tem autoestima, ela decide o que quer comprar sem precisar estar pedindo. Então, para a gente, especialmente para a mulher negra, essa política de acesso ao aumento da produção e apoio de renda tem um significado muito forte. Nós somos as verdadeiras protagonistas da alimentação que chega na nossa mesa e na mesa também daqueles que vivem na cidade”, explica Francisca, que é casada e tem oito filhos. Seis deles ajudam a mãe no trabalho com a terra. O marido também é parceiro nessa jornada.

- Foto: Francisca, Quilombo São José do Açaiteua (PA)
Francisca integra o Movimento de Mulheres do Nordeste Paraense (Minepa) há 30 anos e coordena o coletivo do quilombo que é formado por 12 mulheres agricultoras. Elas estão sempre juntas, seja na lida diária com a terra, em reuniões de planejamento e avaliações das atividades, roda de brincadeiras com as crianças ou em grupos de incentivo a jovens. A união dessas mulheres impacta na vida das 32 famílias da comunidade quilombola.
Tudo o que elas produzem nos seus quintais é comercializado por meio de uma cooperativa para os programas de compras públicas do Governo do Brasil, como o de Aquisição de Alimentos, o PAA, e o Nacional de Alimentação Escolar, o Pnae. Nesse modelo, a cooperativa organiza a entrega às entidades cadastradas e o pagamento é assegurado pelo governo.
NO MEU QUINTAL TEM COMIDA SEM VENENO
Onde antes se plantava alho com agrotóxicos, agora somente se colhe alimentos saudáveis. Kathrine de Souza, 37 anos, e sua mãe, Maria Cleuza de Souza, conseguiram, com o passar dos anos, convencer o pai, hoje aposentado, a mudar a produção convencional para a orgânica. Na propriedade familiar, que fica em Curitibanos, Santa Catarina, elas plantam feijão, milho, hortaliças e verduras. Tudo sem veneno. “Hoje a nossa produção vegetal é certificada como orgânica”, orgulha-se Kathrine, que preside a cooperativa de agricultores familiares da região.
Kathrine relata que o tema da agroecologia, por causa das agricultoras, tem sido cada vez mais discutido na região. “As mulheres têm a visão de saúde, um olhar mais cuidadoso. A comida está muito ligada a afeto, e são as mulheres que acabam fazendo o alimento. O homem, muitas vezes, chega e a comida já está na mesa”, explica. Segundo ela, como as propriedades da região são familiares, no passado, muitas mães chegaram a ver os filhos voltarem da lavoura para almoçar intoxicados com os produtos químicos aplicados na produção.
A partir do momento que as mulheres começaram a se organizar em grupo, mudaram a compreensão sobre o objetivo da propriedade, passaram a produzir alimentos orgânicos e viram diferença na saúde e na renda. “Agroecologia está virando nicho de mercado. Ano passado, 100% das hortaliças que comercializamos pela cooperativa eram orgânicas”, diz, Kathrine.

- Foto: Kathrine, Curitibanos (SC)
Cerca de 50% dos cooperados são mulheres. Em 2025, o coletivo adquiriu um socador de erva-mate por meio do Programa Quintais Produtivos para Mulheres Rurais do MDA. Com o novo equipamento passaram a aproveitar a erva-mate nativa da região e conquistaram mais uma fonte de renda. “O extrativismo da erva vai unir o grupo ainda mais, para fazer o pixurum (mutirão) para colher a erva, para fazer os sapecos, a moagem e embalar. Aqui o pessoal toma muito chimarrão, então vai ter bastante saída”, conta otimista.
A cooperativa liderada por Kathrine se chama Coper Planalto e Sul. Os associados comercializam os produtos orgânicos e coloniais, como panificados, por programas de compras públicas do Governo do Brasil, como os programas de Aquisição de Alimentos (PAA) e o de Alimentação Escolar (Pnae). O grupo também conta com um box no mercado público municipal para a venda dos produtos.
TEM AUTONOMIA NO QUINTAL
Todos os dias a agricultora familiar Benedita Carvalho Gonçalves, 56 anos, anota em uma caderneta o que a família consumiu, vendeu ou trocou em alimentos colhidos no quintal produtivo da sua propriedade rural, na comunidade Trevo de Carapajó, no interior de Igarapé-Miri, no Pará. “Com a Caderneta Agroecológica, no final do mês, a gente sabe qual foi a nossa renda. Antes, essa renda era invisível. ‘Muitas diziam eu não sou assalariada, eu não tenho renda’”, relata Bena, como é conhecida na região. Com essa descoberta, as mulheres do grupo liderado por ela passaram a se sentir protagonistas das suas próprias vidas.
Com o Programa Quintais Produtivos para Mulheres Rurais, 18 agricultoras familiares da comunidade conseguiram, em 2025, equipamentos para reestruturar seus quintais e, assim, aumentar a produtividade e, consequentemente, a renda. “Com certeza, a caderneta, agora, está mais gorda”, diz Bena. O apoio foi para a construção de galinheiros, implantação de hortas com caixa d’água e sistema de irrigação por tubulação. Também receberam ração e pintinhos.

- Foto: Bena, Igarapé-Miri (PA
No quintal produtivo, Bena cultiva plantas ornamentais e medicinais, hortaliças e diversas frutas, além de criar galinhas, suínos, peixes e patos, estes últimos especialmente para atender a demanda de clientes durante o Círio de Nazaré, em Belém. Parte da produção também é fornecida aos programas de Aquisição de Alimentos, o PAA, e de Alimentação Escolar, o Pnae.
Mulher, liderança sindical, agricultora, mãe e avó, Bena superou muitos obstáculos para se formar, aos 51 anos, em técnica agropecuária com base na pedagogia da alternância em uma Casa Familiar Rural. Ela destaca a importância da formação e da organização para as mulheres se reconhecerem como trabalhadoras rurais capazes de administrar a propriedade e a vida. "É se reconhecer como agricultora mesmo, ter autonomia. É muito bom que as mulheres se sintam valorizadas na profissão agrícola e continuem produzindo alimentos com qualidade, abastecendo o campo e a cidade”.
Meta superada
O Governo do Brasil criou o Programa Quintais Produtivos para Mulheres Rurais em agosto de 2023. De lá para cá já são cerca de 100 mil quintais produtivos sendo estruturados, superando a meta de 92 mil quintais até 2026.
O programa prevê o apoio a espaços, individuais ou coletivos, para o cultivo de alimentos saudáveis e criação de pequenos animais, tendo a agroecologia como base da produção. Entre as ações estão a distribuição e instalação de kits contendo máquinas, equipamentos, utensílios e insumos produtivos — como sementes, adubos e animais — que fortaleceram atividades já desenvolvidas pelas mulheres, tais como horticultura, avicultura, suinocultura e beneficiamento de frutas.
A criação do programa atendeu à demanda da última Marcha das Margaridas – movimento que, a cada quatro anos, reúne milhares de mulheres do Brasil inteiro em Brasília.
Textos e fotos: Beatriz Mendes, Diana do Vale e Mariana Sacramento, Ascom/MDA