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Tecnologia a serviço das cavernas: como inovação e ciência fortalecem conservação e visitação sustentável
Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, em Minas Gerais, é reconhecido como Patrimônio Mundial Natural da Humanidade pela UNESCO - Foto: Maurício de Andrade/ICMBio
As cavernas, ambientes únicos que abrigam biodiversidade especializada e paisagens geológicas extraordinárias, estão ganhando novas perspectivas a partir de tecnologias inovadoras que ampliam a pesquisa científica, orientam a gestão e potencializam a educação ambiental.
O Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (ICMBio/Cecav) tem implementado tecnologias inovadoras que transformam a maneira como entendemos e protegemos esses ecossistemas. De técnicas que identificam a vocalização de animais a experiências imersivas que permitem visitar cavernas sem sair do lugar, a ciência de dados e a tecnologia tornaram-se aliadas indispensáveis para garantir que o patrimônio espeleológico nacional seja conservado para as próximas gerações.
Realidade virtual e vivências 3D: a caverna ao alcance de todos
Entre as iniciativas que unem tecnologia, educação ambiental e conservação, a realidade virtual tem ampliado as possibilidades de acesso ao patrimônio espeleológico brasileiro. Um dos destaques é o projeto Vivências 3D, desenvolvido com o apoio e financiamento do ICMBio/Cecav, que utiliza recursos digitais para oferecer experiências imersivas em ambientes subterrâneos, como as cavernas do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, em Minas Gerais. A proposta surge como uma alternativa inovadora para aproximar o público desses espaços sem a necessidade da presença física no interior das cavernas.
Por meio da tecnologia de realidade virtual, o projeto permite que estudantes, pessoas com mobilidade reduzida e o público em geral realizem uma visita virtual, interativa e segura, explorando formações rochosas, salões e paisagens subterrâneas. Além de democratizar o acesso às cavernas, a iniciativa contribui diretamente para a conservação desses ambientes sensíveis, ao reduzir o pisoteio, a circulação intensa de pessoas e possíveis alterações no microclima interno.
“A iniciativa possibilita que um número maior de pessoas conheça as riquezas e belezas subterrâneas. Além disso, o projeto contribui para a difusão do conceito de patrimônio espeleológico, garantindo inclusão e acessibilidade sem os riscos inerentes ao ambiente natural”, indica o coordenador do Centro, Jocy Cruz.
“A proposta parte do entendimento de que o conhecimento é um passo fundamental para a preservação: ao compreender a importância dessas áreas, a sociedade passa a atuar como aliada na proteção do patrimônio espeleológico”, destaca o coordenador do Cecav.
Bioacústica: ouvindo os sons para entender a natureza
Entre as novas tecnologias aplicadas à pesquisa em cavernas, a bioacústica tem se destacado como uma ferramenta inovadora para compreender a dinâmica ambiental a partir dos sons da natureza. O canto de aves, o estridular de insetos, o som de morcegos e até o ruído das chuvas formam um conjunto de informações sonoras capaz de revelar aspectos importantes sobre a biodiversidade e os impactos antrópicos em áreas protegidas. Cada onda sonora registrada contribui para a leitura do ambiente e amplia o entendimento sobre o funcionamento dos ecossistemas subterrâneos e de seu entorno.
Essa abordagem é utilizada no projeto “Paisagem sonora de cavernas e dos ecossistemas em seu entorno no Parque Nacional da Serra do Cipó (MG)”, desenvolvido pelo ICMBio/Cecav em parceria com o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (ICMBio/Cemave), a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e a Universidade Federal de Lavras (UFLA). O estudo é pioneiro no Brasil ao aplicar o monitoramento da paisagem sonora em cavernas, comparando registros acústicos internos e externos e analisando variações ao longo das estações do ano, o que permite avançar no conhecimento sobre a biologia e a ecologia das espécies que utilizam o ambiente subterrâneo.
De acordo com o analista ambiental do Centro, Maurício de Andrade, três cavernas do Parque Nacional da Serra do Cipó e seus ambientes externos estão sendo monitorados. “Os resultados preliminares mostraram uma variação nos padrões sazonais da paisagem sonora dentro e fora das cavernas. A diferença comportamental observada em alguns grupos provavelmente está relacionada às vantagens ambientais proporcionadas pelo ambiente subterrâneo”, informa.
Monitoramento do microclima: ferramenta essencial para conservação e uso sustentável das cavernas
Entre as tecnologias que vêm transformando a forma como as cavernas brasileiras são estudadas e manejadas, o monitoramento do microclima se destaca como um instrumento técnico fundamental para alinhar conservação ambiental e uso público responsável. O microclima, também chamado de espeleoclima, corresponde aos padrões de temperatura e umidade relativa do ar no interior das cavernas, fatores diretamente ligados à preservação de espeleotemas, registros arqueológicos e paleontológicos e à manutenção das espécies adaptadas ao ambiente subterrâneo.
No âmbito do ICMBio/Cecav, pesquisas de monitoramento contínuo têm produzido dados de longo prazo que ajudam a compreender como esses ambientes respondem tanto às variações naturais quanto à presença humana. Sensores automatizados instalados em cavernas permitem acompanhar, de forma precisa, alterações microclimáticas ao longo do tempo, oferecendo uma base científica sólida para o planejamento do turismo e o aprimoramento das estratégias de manejo.
Mauro Gomes, analista ambiental do Centro, indica que para a coleta dos dados são utilizados termo-higrômetros automatizados que também armazenam informações em dataloggers. “Os equipamentos foram configurados para registrarem a temperatura e umidade relativa do ar a cada dez minutos durante 24 horas, sendo que no caso do Peruaçu o monitoramento foi realizado por sete anos”, explica.
Além do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, monitoramentos também foram realizados no Parque Nacional da Furna Feia (MG) e em uma Unidade de Conservação municipal no mesmo estado. A partir desses estudos, foi possível traçar diagnósticos específicos para cada caverna, identificando padrões e sensibilidades do ambiente subterrâneo. A análise desses dados, associada ao registro da visitação, como número de visitantes, horários e tempo de permanência, tem servido de base para definir roteiros internos, tamanho dos grupos e duração das visitas, contribuindo para minimizar impactos e garantir a conservação a longo prazo das cavernas abertas ao público.
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