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Pesquisas na Ilha da Trindade vão fornecer novos dados sobre como as mudanças climáticas afetam a biodiversidade
Ilha da Trindade - Foto: Ricardo Peng/ICMBio
Além do Programa Ecológico de Longa Duração das Ilhas Oceânicas - PELD ILOC, que há mais de 10 anos acompanha indicadores da biodiversidade no arquipélago de Trindade e Martim Vaz, em 2024 novos estudos que se relacionam às mudanças climáticas foram aprovados pelo programa de incentivo à pesquisa científica na Ilha da Trindade - PROTRINDADE, da Comissão Interministerial para Recursos do Mar, e estão sendo financiados pelo CNPq.
Pela baixa ocupação humana, a Ilha da Trindade é vista como um ambiente favorável à coleta de dados que auxiliem na compreensão dos impactos das mudanças climáticas. Estudos semelhantes acontecem em outras ilhas oceânicas brasileiras.
As novas amostragens começaram na 144ª Comissão Científica do PROTRINDADE, que iniciou em 14 de julho e levou à ilha pesquisadores dos projetos de paleobiologia da conservação, poluição por microplásticos, pesquisa de macroinvertebrados, além da equipe do PELD ILOC, que continua na ilha.
Como as conchas de Trindade podem ajudar a prever o futuro?
Apesar de chamarem atenção de quem caminha pelas praias e até serem usadas em variados tipos de artesanato, as conchas têm sua importância ainda pouco conhecida e divulgada. De forma simplista, as conchinhas são esqueletos de moluscos e outras espécies de invertebrados e possuem variadas formas, dependendo da espécie.
Mesmo depois que estes pequenos animais morrem, suas conchas são essenciais para o fornecimento de carbonato de cálcio para o mar, permitindo que novos indivíduos possam formar suas próprias conchas. Além disso, elas podem durar por centenas e até milhares de anos, tornando-se verdadeiras ‘bibliotecas’ marinhas. O pesquisador Gabriel Silvério, da UNESP de Bauru, explica: “Hoje é muito difícil encontrar ambientes prístinos – mais originais – porque tudo está muito impactado pelo homem. Com esses dados contidos nas conchas conseguimos informações de como eram os ambientes antes desses impactos”.
A datação das conchas é feita com o método carbono-14, o mesmo utilizado para datar outros fósseis. O pesquisador Paulo Kanno, que também está na ilha realizando as coletas com Gabriel Silvério, conta que “é comum encontrar, em uma mesma acumulação, conchas recentes ao lado de outras com centenas ou até milhares de anos”. Segundo os pesquisadores, esta sobreposição de gerações é uma ferramenta essencial para os estudos da Paleobiologia da Conservação.
A intenção do estudo é encontrar essas conchas mais antigas, de milhares de anos, e comparar as informações que elas trazem com as conchas atuais; para entender que mudanças aconteceram no ambiente ao longo do tempo. Depois eles vão avaliar quais eventos neste período podem ter influenciado as eventuais mudanças no ambiente, como o aumento ou desaparecimento de alguma espécie.
Com base nesses dados, a ciência poderá prever quais alterações na vida marinha poderão acontecer em eventos semelhantes aos estudados como, por exemplo, o aquecimento ou resfriamento da temperatura do oceano.
Bússola para os dias atuais
Tão importante quanto as pesquisas que estudam o passado, são aquelas que acompanham presencialmente as mudanças ambientais. O Programa Ecológico de Longa Duração nas Ilhas Oceânicas - PELD ILOC tem se dedicado a acompanhar as populações de organismos como algas, peixes e invertebrados que ocorrem nessas ilhas, associando estas observações aos contextos de temperatura da água e interferências externas, como a ação humana (pesca, exploração de petróleo, turismo desordenado, etc.).
Estudos semelhantes acontecem em outras ilhas oceânicas brasileiras, mostrando o potencial de impacto no ecossistema, com previsões de perda de até 86% da quantidade de peixes até o final do século. Isso em um cenário de aquecimento mais drástico (aproximadamente 4ºC) no qual as emissões de gases do efeito estufa continuam aumentando ao longo do século. As informações podem levar autoridades e o próprio setor produtivo a promoverem mudanças conscientes a curto prazo, fazendo com que as previsões mais extremas não se tornem realidade.
A próxima ilha a contar com esta previsão será Trindade. Dr. Lucas Nunes, pós-doutorando em ecologia trófica pela Universidade Federal Fluminense, é o responsável pela construção desse modelo que irá prever o impacto das mudanças climáticas em Trindade. Além disso, a mesma ferramenta também é capaz de prever outros impactos na vida marinha, como o efeito direto da pesca, por exemplo. O resultado pode ser útil até mesmo para a atividade econômica, que terá como planejar a exploração de maneira mais sustentável, afetando menos o ecossistema e mantendo o estoque pesqueiro por mais tempo.
O cientista Lucas Nunes esclarece como funcionam os modelos: “a ciência prevê cenários distintos de mudanças climáticas: em um deles, a humanidade se conscientiza sobre as mudanças climáticas, e toma um caminho mais sustentável se preocupando mais com o meio ambiente, liberando menos gases do efeito estufa na atmosfera, que consequentemente levará a um menor aumento da temperatura global. Em outro cenário, é previsto um desenvolvimento econômico descontrolado, o que consequentemente aumentaria a liberação de gases do efeito estufa e ocasionaria um aumento de 4 graus na temperatura global até o final deste século”.
Estes cenários apresentados pelas previsões são como uma bússola para as decisões humanas na atualidade em níveis regional, nacional e global. “Quanto mais extremo é o cenário, maior a temperatura e consequentemente maior mudança podemos esperar na vida nos oceanos”, resume Lucas Nunes.
Poluição Invisível
Infelizmente, não é surpresa a presença de microplásticos nos nossos pulmões, sangue e até mesmo em nossos cérebros. O avanço da ciência tem trazido cada dia mais informações sobre o alcance da poluição invisível causada pelo plástico.
Na Ilha da Trindade, o que pesquisadores do Laboratório de Biologia Costeira e Análise de Microplásticos da Ufes (LaBCAM), coordenado pela Dra. Mercia Costa, busca entender até que ponto essa poluição se espalhou e quais são os seus impactos nos ecossistemas locais, investigando o grau de poluição por microplásticos no ambiente insular: desde a atmosfera, sedimento, água e até nos animais. Para entender se existe e como esta poluição está distribuída na ilha, a equipe do LaBCAM - Bruna Luz, Gustavo Zambon, Mariana Paz e Mateus Marçal - passou cinco dias na ilha realizando coletas.
“Utilizamos uma metodologia que será patenteada pelo laboratório, que é a investigação da poluição microplástica no ar a partir da análise de teias de aranha – o que torna o estudo economicamente mais viável, sem perder eficácia” explica Mateus Marçal, um dos pesquisadores do projeto.
Ele também destaca a importância das coletas de dados em Trindade: “Por ser um local sem tanta atividade humana, queremos comparar os dados obtidos na ilha com o que já foi estudado em grandes centros urbanos, como Vitória, capital do Espírito Santo.” explica.
A presença de poluição por microplásticos na ilha acende um alerta e sugere que provavelmente não existem mais locais livres dessa contaminação. "Numa ilha onde o acesso humano é altamente restrito, mas onde facilmente encontramos lixo plástico de vários países, podemos ter uma dimensão da facilidade que esses poluentes têm em se dispersar" comenta o pesquisador Mateus Marçal.
As pesquisas científicas realizadas nos arquipélagos de Trindade e Martim Vaz e de São Pedro e São Paulo são autorizadas pelo programa PROILHAS, coordenado pela Marinha do Brasil e selecionadas em editais do CNPq. As pesquisas realizadas em Unidades de Conservação, casos do Monumento Natural das Ilhas de Trindade e Martim Vaz e do MONA do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, passam por análise prévia para autorização do ICMBio. Os pesquisadores interessados em desenvolver pesquisas na Ilha da Trindade devem enviar a solicitação pelo sistema online SisBio.
Objetivo de Desenvolvimento Sustentável relacionado:

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