Notícias
Parque Nacional Marinho dos Abrolhos (BA) pode se tornar Patrimônio Mundial Natural da Unesco
Parque Nacional Marinhos dos Abrolhos - Ilha vulcânica com a mais rica biodiversidade do Atlântico Sul - Foto: Enrico Marcovaldi
O Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, no sul da Bahia, deu um passo decisivo rumo ao reconhecimento internacional ao formalizar, no último mês, sua candidatura a Patrimônio Mundial Natural da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Gerido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o parque é considerado a principal referência em conservação marinha no Atlântico Sul e abriga o maior complexo recifal e a mais alta biodiversidade marinha da região.
Localizado a cerca de 70 quilômetros da costa de Caravelas (BA), Abrolhos ocupa uma área de cerca de 87 mil hectares e reúne ecossistemas estratégicos para a manutenção da vida marinha e para o equilíbrio climático. A decisão final da Unesco está prevista para julho de 2027.
A candidatura reforça uma trajetória recente de ampliação do reconhecimento internacional das unidades de conservação (UCs) federais. Após um jejum de 23 anos sem criar nenhum patrimônio natural, o país conquistou em 2024 e 2025, mais dois monumentos naturais que coincidem com dois parques nacionais: dos Lençóis Maranhenses e do Cavernas do Peruaçu. Agora, Abrolhos desponta como o próximo representante brasileiro com potencial para integrar o seleto grupo.
“O Parque Nacional Marinho dos Abrolhos merece esse reconhecimento. Esperamos que isso ajude a proteger ainda mais esse lugar tão especial e a torná-lo mais conhecido pela humanidade”, afirma a chefe da unidade, Josângela da Silva Jesus.
Santuário de biodiversidade
Reconhecido como berçário das baleias-jubarte no Atlântico Sul, Abrolhos concentra recifes únicos, ilhas oceânicas e uma rica fauna marinha e costeira. Nos bancos recifais — formações conhecidas como “chapeirões”, típicas da região — vivem espécies endêmicas como os corais Cérebro, Moranguinho e Gorgônia-de-Fogo, que só existem no Brasil.
O parque também abriga espécies ameaçadas, como o budião-azul, além de importantes populações de aves marinhas, como grazinas e fragatas. A beleza cênica, tanto acima quanto abaixo da linha d’água, soma-se ao valor ecológico da área, considerada estratégica para a conservação in situ da biodiversidade.
Além da riqueza biológica, Abrolhos exerce papel relevante na mitigação da mudança climática. Seus ambientes marinhos atuam como sumidouros de carbono, absorvendo dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera e armazenando-o em estruturas recifais, contribuindo para a regulação climática global.
A servidora Maria Bernadete Silva Barbosa, Berna, que há 38 anos atua na conservação da área, destaca o vínculo entre proteção e pertencimento. “Admiro muito a biodiversidade de espécies que vivem nesta costa de recifes rasos, onde observamos animais que só vivem ali. Abrolhos é para quem sabe amar. Se soubermos olhar para aquele lugar, vamos querer cuidar dele para a vida inteira”, afirma.
Em 2023, Berna foi reconhecida internacionalmente pelos seus trabalhos em prol de Abrolhos, com o prêmio “Guarda-Parque Destaque da América Latina”. Foi a primeira vez que uma brasileira recebeu a honraria.
Entre cataratas e cânions: a história das Unidades de Conservação Federais reconhecidas pela Unesco
O Brasil possui importantes sítios na lista da UNESCO, quase todos envolvendo parques nacionais. O Parque Nacional do Iguaçu (PR) foi o primeiro a ser reconhecido pela Convenção de 1972 como Patrimônio Mundial, em 1986, famoso pelas cataratas impressionantes e pela rica biodiversidade da Mata Atlântica.
Anos mais tarde, em 2000, foi reconhecido o Complexo de Conservação da Amazônia Central, incluindo dois parques nacionais do Amazonas — o do Jaú e o de Anavilhanas —, além das áreas de conservação do Pantanal, onde se encontra o Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense (MT).
No ano seguinte, 2001, no Nordeste, foram reconhecidas mais duas unidades das Ilhas Atlânticas Brasileiras: Fernando de Noronha (PE) e Atol das Rocas (RN), com destaque para o Parque Nacional Marinho, reconhecido pela extraordinária vida marinha e pela importância para espécies migratórias, e a Reserva Biológica, importante área de reprodução de aves marinhas, tartarugas e outros organismos, constituindo um dos ecossistemas marinhos mais preservados do Atlântico Sul.
No mesmo ano, foram reconhecidas as Áreas Protegidas do Cerrado, formadas pelos parques nacionais da Chapada dos Veadeiros e das Emas, ambos em Goiás, essenciais para a conservação da biodiversidade do bioma e de suas espécies endêmicas.
No Rio de Janeiro, a cidade de Paraty e a Ilha Grande foram reconhecidas como Patrimônio Misto em 2019, em razão de suas características naturais e culturais. A região inclui áreas protegidas como o Parque Nacional da Serra da Bocaina (RJ/SP) e o Parque Estadual da Ilha Grande (RJ), que preservam trechos de Mata Atlântica, nascentes, praias e ecossistemas marinhos.
Mais recentemente, em 2024 e 2025, foram reconhecidos o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (MA), com seu mosaico único de dunas e lagoas sazonais que misturam biomas diversos, e do Cânion do Peruaçu, localizado no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu (MG), que abriga cavernas, cânions e ecossistemas terrestres e aquáticos incomuns.
Conservação como política pública
Essa diversidade de áreas naturais inscritas — e o possível acréscimo de Abrolhos — evidência não apenas a contribuição brasileira para a conservação global de paisagens e processos naturais de importância internacional, mas reforça o papel estratégico das UCs federais.
Sob coordenação do ICMBio, essas áreas promovem pesquisa científica, manejo, proteção de espécies ameaçadas e educação ambiental. No caso de Abrolhos, o protagonismo do ICMBio se expressa na gestão contínua do território marinho, no monitoramento da biodiversidade, na proteção de espécies migratórias e na articulação com comunidades, pesquisadores e parceiros institucionais.

