Notícias
Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros completa 65 anos e destaca gestão compartilhada como modelo de preservação
Participantes da comemoração pelos 65 anos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, realizada no dia 16 de janeiro, em Alto Paraíso (GO) - Foto: Anna Beatriz Santos/ICMBio
O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO) celebrou, no dia 11 de janeiro, seus 65 anos de criação. A comemoração ocorreu no dia 16, no campus da UnB Cerrado, em Alto Paraíso de Goiás, e reuniu moradores da região, gestores, brigadistas, cientistas e voluntários que ajudaram a construir a trajetória de resistência e preservação desse Patrimônio Natural da Humanidade, reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco).
Criado em 1961, durante o governo de Juscelino Kubitschek, o Parque surgiu a partir da proposta da Fundação Coimbra Bueno, que sugeriu a criação de uma unidade de conservação para proteger os recursos naturais do entorno da nova capital federal, Brasília. Naquele momento, nascia o então chamado “Parque Nacional do Tocantins”, que hoje responde por “Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (PNCV)” e abrange 240 mil hectares. Desde então, já são mais de seis décadas de proteção a uma das partes mais ricas e bem conservadas do bioma Cerrado, um dos ecossistemas tropicais mais antigos e diversos do mundo.
A abertura oficial do evento foi conduzida pelo presidente do ICMBio, Mauro Pires, que ressaltou a função pública da Unidade de Conservação (UC) federal. “Celebrar os 65 anos do Parque é reafirmar seu caráter de bem público e o dever coletivo de preservá-lo. A trajetória mostra que sua criação foi uma decisão acertada, que segue com dimensão essencial para a conservação do Cerrado, berço das águas, e para a proteção de um recurso fundamental para a vida, a economia e a biodiversidade”, afirmou.
Uma missão coletiva: os guardiões do fogo e das sementes
A cerimônia foi marcada por homenagens àqueles que atuam diretamente na linha de frente da preservação. Agricultor assentado na região, Valdeci Carvalho ingressou no Parque em 2007 porque precisava do emprego, confessando que, na época, achava que "Parque Nacional" fosse um parque de diversões. O que começou como um contrato temporário virou uma missão de quase 18 anos. Ele ascendeu de brigadista a chefe de esquadrão, enfrentou o fogo na linha de frente e hoje atua na restauração do bioma como cofundador da Associação Cerrado de Pé.
"O Parque me mudou como pessoa. Eu entrei pelo salário, mas depois você pega amor e o dinheiro vira um bônus. Perdi uma fase do crescimento da minha filha pelas escalas de trabalho, mas fiz isso por ela. Para que um dia ela, ou minha neta, pudessem ver um animal, ver uma cachoeira", dividiu o agricultor.
Ao seu lado, Claudomiro Cortes, conhecido como Clau, contou a história do Cerrado de Pé, organização sem fins lucrativos formada por agricultores familiares, quilombolas e assentados do entorno do parque, cuja atuação está diretamente ligada à trajetória do Parque e à transformação social da região. Ex-brigadista do Parque, Clau salientou a importância da UC para a mudança da realidade local. “Antes, a Chapada vivia do garimpo, num cenário de muita pobreza e sofrimento. Com a criação do parque, veio o turismo, e o turismo trouxe uma vida melhor, trabalho mais digno e novas oportunidades”, declarou.
Segundo ele, a associação coleta, em média, cerca de 30 toneladas de sementes por ano, abrangendo diferentes fitofisionomias do bioma, com espécies de capins, arbustos e árvores nativas. Um trabalho que representa não apenas a proteção do Cerrado, mas também a construção de um futuro mais sustentável para as comunidades que vivem na região.
Diante da impossibilidade de mensurar a quantidade exata de sementes lançadas ao solo, o grupo criou uma meta simbólica que se tornou o lema do Cerrado de Pé. “A gente criou uma meta que é coletar e plantar sementes tantas quantas estrelas no céu. A gente nem sabe quantas estrelas tem, mas a ideia é essa, não saber quantas a gente vai plantar e sair plantando o tempo todo”, explicou.
Memórias de gestão e integração com o território
Ex-chefe do Parque Nacional e atualmente coordenadora-geral de Uso Público e Serviços Ambientais do ICMBio, Carla Guaitanele compartilhou sua relação pessoal com a unidade. “Desde adolescente, sempre tive o sonho de trabalhar no Parque Nacional. Quando estive à frente da gestão, foi a realização de um sonho de vida”, compartilhou.
Carla destacou que o Parque sempre esteve integrado ao cotidiano das pessoas que vivem em seu entorno, em alguns momentos de forma mais intensa, em outros menos. No entanto, frisou que o envolvimento da sociedade na gestão da unidade tem se fortalecido ao longo do tempo, com resultados concretos para a conservação do Cerrado, como a ampliação do Parque e o Manejo Integrado do Fogo (MIF). “São dois marcos na história daqui que não seriam possíveis apenas pela atuação do ICMBio”, ressaltou.
“É um exemplo de integração com o entorno, uso público com distribuição de renda e conexão de áreas protegidas. É um caso de sucesso em que o Cerrado e as pessoas ganham”, afirmou Guaitanele.
A relação entre o PNCV e as comunidades do entorno também foi abordada por Aristéia Avelino, liderança comunitária nascida na Vila de São Jorge. Em sua fala, ela relembrou que, nos primeiros anos de gestão, a atuação do Estado foi marcada por conflitos e pouca interlocução com os moradores. “O papel era de polícia mesmo. O acesso era difícil, não havia acolhimento”, afirmou, destacando que a fiscalização era vista como uma ameaça pela comunidade.
Segundo Aristéia, esse cenário começou a mudar com iniciativas de aproximação entre a gestão da UC e a comunidade, o que contribuiu para reduzir resistências e fortalecer o diálogo. Hoje, ela avalia que o Parque se consolidou como o principal indutor da economia local e da identidade territorial da região. Para ela, a continuidade da conservação depende do sentimento de pertencimento da população local ao território. “Quando a gente pertence, a gente faz a diferença na proteção desse ambiente”, concluiu.
“É uma questão de soberania. Aqui está garantida a nossa água e os recursos da biodiversidade. Sem o parque, não existiria o turismo e talvez nem a comunidade estivesse ali”, diz a liderança comunitária.
Desafios futuros
A mesa de encerramento trouxe reflexões técnicas e preocupações com o futuro da unidade. O chefe do parque, André Ribeiro, participou do debate ao lado da geóloga Joana Sanchez e dos colegas de ICMBio, o coordenador de MIF, João Paulo Morita, e de Alexandre Sampaio, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação em Biodiversidade e Restauração Ecológica (CBC).
Durante a discussão, Alexandre alertou para as mudanças provocadas pelo clima. “O que sabíamos sobre fogo está mudando drasticamente. Precisamos inovar e adaptar”, colocou. Joana destacou o papel da ciência na gestão do parque, lembrando que o mapeamento geológico hoje auxilia desde o combate a incêndios até a segurança dos visitantes.
Em sua fala final, André reforçou que o sucesso do PNCV está diretamente ligado à continuidade da gestão e à força das parcerias. “Nosso desafio é manter o território, manter a equipe e manter as parcerias. A sociedade não aceita mais que a gente pare de trabalhar com a excelência que alcançamos. O parque é um exemplo de que a conservação só é possível com as pessoas”, concluiu.
Ao completar 65 anos, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros reafirma que vai além de uma área protegida no mapa. É um território vivo, sustentado pela dedicação, pela paixão e pelo trabalho contínuo de uma comunidade que acredita na conservação como caminho e na natureza com as pessoas.
Comunicação ICMBio
comunicacao@icmbio.gov.br
(61) 2028-9280



