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Parceria internacional fortalece pesquisas arqueológicas na Reserva Extrativista Verde para Sempre (PA)
O objetivo da iniciativa científica é desenvolver, por meio de ciências participativas, estudos em sambaquis - Foto: Divulgação/ICMBio
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) acompanha a 2° Etapa do Projeto: "Janelas para a biodiversidade do baixo Amazonas (JABBA): contribuições dos sambaquis do passado para a preservação ambiental no presente amazônico", em execução na Reserva Extrativista (Resex) Verde para Sempre, localizada no Município de Porto de Moz, no Pará.
O projeto, coordenado por pesquisadores da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e do Museu Nacional de História Natural de Paris, combina a escavação arqueológica no sítio arqueológico Munguba com atividades de difusão científica junto à comunidade local, Nossa Senhora de Nazaré. O objetivo da iniciativa científica é desenvolver, por meio de ciências participativas, estudos em sambaquis (termo de origem tupi-guarani, no qual tamba significa “concha” e ki, “amontoado”), antigos monumentos indígenas construídos por uma mistura de sedimentos diversos, conchas de moluscos, restos de peixes e outros materiais orgânicos e minerais.
Estes sítios arqueológicos possibilitam compreender as antigas arquiteturas desenvolvidas pelos povos que habitaram o Baixo Amazonas e o manejo das paisagens de várzea ao longo do tempo. Nesse contexto, o eixo central do projeto consiste em analisar as transformações da biodiversidade a partir do cruzamento de dados arqueológicos com informações contemporâneas sobre as várzeas amazônicas, com foco especial nas áreas localizadas entre os Rios Tapajós e Xingu, caracterizadas por um expressivo vazio de pesquisas tanto nas áreas da biologia quanto da arqueologia.
“Os sambaquis são sítios que possuem uma conservação excepcional dos restos orgânicos, assim, esta descoberta representa uma grande oportunidade para compreender melhor como as populações que os construíram se relacionavam com o meio ambiente”, destaca a pesquisadora Gabriela Prestes Carneiro, professora no Museu Nacional de História Natural de Paris e colaboradora do Programa de Pós-graduação em Antropologia e Arqueologia (PPGAA) da UFOPA.
Ela continua que o sambaqui era conhecido pela comunidade como um “pedral” e foram os próprios moradores da Resex que entraram em contato com os profissionais de arqueologia, que só chegaram à área em 2022. Nesta última escavação em 2025, foram encontradas diversas camadas arqueológicas que estão sob esse pedral, incluindo madeiras — possivelmente esteios de casas, pranchas instaladas antes da construção do sambaqui ou até estruturas de palafita.
Durante a pesquisa de campo, o projeto contou com o apoio de especialistas em madeira. O objetivo do trabalho com as madeiras será de identificar espécies e analisar anéis de crescimento para tentar correlacioná-los a mudança climática. Também buscou-se refinar as primeiras datações, que apontam que o sambaqui foi ocupado entre 3.800 e 500 anos atrás, por diferentes grupos humanos, associadas a diferentes estilos cerâmicos. Também serão estudadas a vegetação e a fauna no entorno para entender se as condições ambientais no período em que o pedral estava sendo construído se aproxima das atuais.
Até agora, em termos de biodiversidade, foi observada uma grande variedade de espécies de peixes típicas de águas calmas, como pirambóia, pirarucu e muçum. Além dos peixes, neste sítio também havia consumo de tartarugas, jabutis, jacarés, peixes-boi, veados e porcos-do-mato. Em relação à vegetação do sítio, vestígios botânicos demonstram que, no período das primeiras ocupações, o ambiente era diferente, pois foram encontradas uma grande quantidade de sementes e restos de espécies vegetais que hoje não ocorrem na várzea da região, como taperebá, uxi, maracujás variados, indicando que o sítio era rico em espécies frutíferas consumidas pelos habitantes, como informa a profa. Myrtle Pearl Shock, da UFOPA.
O sítio Munguba
De acordo com os pesquisadores, o sítio precisa ser entendido como um monumento construído para ser visível e marcante para as populações indígenas do passado. São cerca de 60 sepultamentos registrados até o momento. Por isso, a equipe também é composta por especialistas em arqueologia funerária, que investiga gestos e práticas relacionadas ao cuidado com os mortos.
Dada a conservação excepcional dos restos orgânicos no sítio Munguba e a variedade de material arqueológico encontrado, segundo a equipe coordenadora do projeto, vários anos serão necessários para que se possa compreender os povos que construíram os sambaquis e como eles se relacionavam com o meio ambiente. Ainda assim, já se sabe que estes povos fizeram o manejo da biodiversidade das paisagens de várzea da Amazônia, trazendo e levando espécies de plantas, estabelecendo redes de troca de pessoas e materiais com várias outras regiões como Santarém (PA) e o estuário do Amazonas, região complexa e vasta, caracterizada por ser uma foz mista e um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo, dominado pela Ilha de Marajó (PA).
Diálogo com a comunidade
Antes da realização das etapas de campo, o projeto tem se reunido com a comunidade Nossa Senhora de Nazaré para fazer os pedidos de autorização e organizar em conjunto as atividades da pesquisa, de maneira a envolver diferentes públicos. Em especial, os alunos da escola mais próxima, a escola Nossa Senhora do Carmo, que atende crianças de 5 a 11 anos. Tendo em vista que a etapa de campo reúne falantes de várias línguas, a demanda das professoras no último ano foi desenvolver com as crianças uma pequena iniciação a línguas estrangeiras, como o inglês e o francês.
Além das línguas, as crianças foram recebidas no sítio arqueológico onde realizou-se uma oficina de escavação de arqueologia mirim e de produção de pigmentos naturais. O projeto conta com a participação de estudantes, professores, pesquisadores e colaboradores de instituições brasileiras e do exterior. Pelo Brasil, Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade Estadual do Amazonas (UEA), Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e Universidade de São Paulo (USP). Na França, o Museu Nacional de História Natural de Paris e Université Paris 1 Panthéon Sorbonne. Da Alemanha, Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology.
Ao permitir compreender práticas de uso e manejo sustentável da paisagem ao longo do tempo, evidenciar patrimônio cultural associado à paisagem, e gerar conhecimento que subsidia estratégias atuais de proteção e gestão territorial, o projeto arqueológico contribui para a conservação da Resex Verde para Sempre.
Com informações da Resex Verde para Sempre
Comunicação ICMBio
comunicacao@icmbio.gov.br
(61) 2028-9280


