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PAN Cavernas do Brasil confirma primeiras “bat caves” no Cerrado
Natalus macrourus e Pteronotus rubiginosus Gruta do Jacaré, na APA Nascentes do Rio Vermelho (GO). Foto: Jennifer Barros
As primeiras bat caves — cavernas que abrigam grandes colônias de morcegos, podendo reunir dezenas ou até centenas de milhares de indivíduos — foram confirmadas no Cerrado, nos estados de Tocantins e Goiás. A descoberta é resultado de inventários realizados no âmbito do Plano de Ação Nacional para Conservação do Patrimônio Espeleológico Brasileiro (PAN Cavernas do Brasil), coordenado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (ICMBio/Cecav). O trabalho foi realizado em parceria com a Bat Conservation International, por meio do seu Programa Brasil.
Onde estão as bat caves do Cerrado?
No estado do Tocantins, as cavernas Boa Esperança e Casa de Pedra foram caracterizadas como bat caves. Na caverna Boa Esperança, foi registrada uma colônia com cerca de 10 mil indivíduos, com a presença das espécies Phyllostomus hastatus, Anoura geoffroyi e Pteronotus rubiginosus. Já a caverna Casa de Pedra apresentou uma das maiores colônias já registradas no Brasil, com mais de 157 mil indivíduos, formada pelas espécies Pteronotus rubiginosus e Anoura geoffroyi, além de poucos indivíduos de Natalus macrourus, espécie ameaçada de extinção no país.
Em Goiás, a Gruta do Jacaré também foi confirmada como uma bat cave, com uma população de mais de 20 mil indivíduos de pelo menos sete espécies, incluindo Pteronotus gymnonotus, Pteronotus personatus, Pteronotus rubiginosus, Lonchorhina aurita e Natalus macrourus (ameaçada de extinção). A cavidade está localizada dentro dos limites da Área de Proteção Ambiental (APA) Nascentes do Rio Vermelho.
“A Casa de Pedra e a Gruta do Jacaré têm características potenciais para serem consideradas também como hot caves — cavernas conhecidas por terem uma única entrada relativamente pequena, baixa circulação de ar, alta densidade de morcegos, temperaturas ambientes constantes durante todo o ano de 28–40 °C e umidade relativa acima de 90%”, informa a bióloga, doutora em biologia animal e coordenadora do Programa Brasil da Bat Conservation International, Jennifer Barros. A partir de agora, começa o monitoramento térmico nestas cavernas para confirmar esse status.
Segundo a pesquisadora, essas cavernas potencialmente integram um grupo raríssimo no país: das mais de 30 mil cavernas registradas no Brasil, menos de 20 são consideradas hot caves, o que as torna um dos ecossistemas mais singulares e frágeis do país. Bat caves são fundamentais para a sobrevivência das espécies e para a manutenção de importantes serviços ecossistêmicos. Até o momento, grandes colônias dessas espécies eram conhecidas apenas na Amazônia (Pará e Amapá), na Caatinga (Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco) e na Mata Atlântica de Sergipe.
Para o doutor em biologia, professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA) e articulador dessa ação no PAN Cavernas do Brasil, Enrico Bernard, os novos registros para o Cerrado nos mostram que ainda há muito para se conhecer e estudar em relação às cavernas e os morcegos no Brasil. “Descobrir populações tão grandes e significativas, incluindo colônias com espécies ameaçadas de extinção, tem um alto valor conservacionista. Proteger estes abrigos e seus milhares de morcegos ajuda até a garantir qualidade de vida para as populações humanas que vivem perto destas cavernas. Como comem centenas de toneladas de insetos por ano, as populações destas cavernas ajudam até na redução do uso de defensivos agrícolas, gerando economia para produtores rurais”, declara.
Com os novos registros para o Cerrado, as medidas para proteção e conservação dessas cavidades naturais subterrâneas incluirão a realização de monitoramentos para avaliar o uso das cavernas pelas espécies e a confirmação sobre o status de hot caves para a Gruta do Jacaré e a Casa de Pedra. “O PAN Cavernas e o Programa Brasil têm como objetivo fomentar ações de conservação, como a criação de áreas protegidas, e a mitigação de impactos antrópicos nas populações de morcegos cavernícolas. A ideia é trabalhar com proprietários, comunidades do entorno e órgãos ambientais para alcançar esses objetivos”, afirma Jennifer Barros.
As populações de morcegos no Brasil
O Brasil abriga 188 espécies de morcegos, quatro delas atualmente classificadas como ameaçadas de extinção na Lista Nacional: Natalus macrourus, Furipterus horrens, Lonchophylla dekeyseri e Lonchophylla bokermanni. As duas últimas também constam na Lista Vermelha global da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês). Pesquisadores apontam que cerca de 45% dos morcegos registrados no país utilizam cavernas como abrigo, reforçando a importância desses ambientes naturais para a sobrevivência e conservação desses animais.
Os morcegos são protagonistas na prestação de diversos serviços ecossistêmicos, entre eles a supressão de pragas agrícolas e de insetos, que são vetores de doenças para seres humanos e animais de criação. Proteger estes abrigos excepcionais ajuda a garantir que estes serviços gratuitamente prestados pelos morcegos sejam mantidos.
Sobre o PAN Cavernas do Brasil
O PAN Cavernas do Brasil possui 44 ações, distribuídas em quatro objetivos específicos, visando cumprir o objetivo geral: prevenir, reduzir e mitigar os impactos e danos antrópicos sobre o patrimônio espeleológico brasileiro, espécies e ambientes associados, em cinco anos. Além disso, contempla 168 táxons nacionalmente ameaçados de extinção, estabelecendo seu objetivo geral, objetivos específicos, prazo de execução, formas de implementação, supervisão e revisão.