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ICMBio contribui para queda de 98,77% do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami
Entre 2021 e 2022, a Terra Indígena Yanomami enfrentou uma das maiores crises desde sua demarcação, em 1992 - Foto: Lucas Leffa/Secom
A atuação integrada do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) nas ações de combate ao garimpo ilegal contribuiu diretamente para a redução de 98,77% das áreas de garimpo ativo na Terra Indígena (TI) Yanomami, entre março de 2024 e janeiro de 2026. O resultado é fruto de operações contínuas coordenadas pela Casa de Governo, em Roraima.
De acordo com dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), no período de maior pressão, em 2024, o garimpo ilegal ocupava cerca de 4.570 hectares da TI Yanomami. Ao final de 2025, a área identificada como garimpo ativo foi reduzida para 56,13 hectares, refletindo o enfraquecimento estrutural da atividade ilegal.
Em 2025, cerca de 80% das operações de fiscalização que o ICMBio realizou estiveram voltadas especificamente ao combate ao garimpo ilegal. O Instituto integra a Casa de Governo, instalada em Boa Vista (RR), estrutura criada para coordenar a resposta do Estado brasileiro à crise humanitária e ambiental no território Yanomami.
A força-tarefa reúne diversos atores federais: Casa Civil, Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), ICMBio, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Força Nacional de Segurança Pública, Polícia Federal (PF), Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), Polícia Rodoviária Federal (PRF), Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Polícia Judiciária da Força Nacional (PJFN), Exército Brasileiro e Força Aérea Brasileira.
Unidades de Conservação como escudo territorial
A atuação do ICMBio concentra-se prioritariamente nas Unidades de Conservação (UCs) federais localizadas no entorno da TI Yanomami, em Roraima, e em áreas sobrepostas no Amazonas. Nessas regiões, as UCs exercem papel estratégico como escudos de proteção, uma vez que muitas das rotas de acesso utilizadas por garimpeiros atravessam áreas protegidas antes de alcançar terras indígenas.
Como resultado dessa presença contínua, o monitoramento do Projeto PRODES — que acompanha o desmatamento por corte raso na Amazônia Legal desde 1988 — aponta que o desmatamento foi zerado em sete das oito Unidades de Conservação com presença Yanomami em seu interior ou entorno. São elas:
A única exceção é a Floresta Nacional de Parima, criada em 2023, que herdou um histórico recente de forte pressão e desmatamento.
Operações atingem o núcleo financeiro e operacional do garimpo
A redução do garimpo ilegal teve impacto direto sobre sua cadeia logística e financeira, com prejuízos estimados em mais de R$ 642 milhões, atingindo desde os pontos de extração até as rotas de abastecimento e escoamento do ouro. No acumulado de 2024 e 2025, foram apreendidos 249 quilos de ouro em Roraima, sendo aproximadamente 213 quilos apenas em 2025.
Outro dado relevante foi a apreensão de 232 quilos de mercúrio, insumo essencial para o funcionamento do garimpo ilegal e diretamente associado à contaminação de rios e solos. As ações de controle dessa cadeia logística são parte central da estratégia adotada pela Casa de Governo.
As operações inutilizaram 45 aeronaves, 77 pistas de pouso clandestinas e 762 acampamentos, além da apreensão de combustíveis, motores, embarcações e outros equipamentos utilizados na atividade garimpeira.
Segurança e retomada das atividades tradicionais
Além dos efeitos ambientais e econômicos, a diminuição da presença de garimpeiros trouxe impactos positivos para a segurança das comunidades indígenas, das equipes de saúde e dos agentes públicos que atuam na região. Com menos invasores circulando, observa-se a redução de conflitos e a retomada gradual de atividades tradicionais, como as roças e a pesca.
Ao alcançar, no início de 2026, a marca de 9 mil ações integradas, o enfrentamento ao garimpo ilegal entra em uma fase de continuidade sistemática, com foco na prevenção de novas invasões, no monitoramento permanente e no fortalecimento das ações de proteção ambiental e social.
Contexto crítico e histórico
Entre 2021 e 2022, a Terra Indígena Yanomami enfrentou uma das maiores crises desde sua demarcação, em 1992. O garimpo ilegal avançou rapidamente, impactando a saúde, o meio ambiente e a segurança das comunidades. A redução da fiscalização e a fragilização das estruturas de proteção agravaram a crise humanitária.
“A ação começa com o planejamento e o monitoramento. Com relação ao garimpo, usamos sistemas de alerta disponíveis, análise de imagem de satélite, denúncias recebidas. Com base nas informações, definimos os alvos prioritários e é realizado o planejamento da ação”, indica a coordenadora de Fiscalização do ICMBio, Nidia Reis de Paiva.
Levantamentos da Hutukara Associação Yanomami e da Associação Wanassedume Ye’kwana indicam que, até 2020, cerca de 2.400 hectares de floresta foram degradados pelo garimpo, número que cresceu nos anos seguintes, sobretudo nas bacias dos rios Uraricoera, Mucajaí, Catrimani e Parima. Áreas como Waikás, Kayanau e Aracaçá concentraram os maiores danos.
O avanço do garimpo gerou aumento nos casos de malária, picos de Covid-19 em comunidades isoladas, contaminação por mercúrio, conflitos e violência sexual. A presença dos invasores afastou a fauna, dificultando a caça e pesca tradicionais, enquanto o mercúrio contaminava os rios, elevando a desnutrição.
Sem ações articuladas, o garimpo virou uma mineração de médio porte, com infraestrutura permanente, acampamentos consolidados e exploração em larga escala, cenário semelhante ao das décadas de 1980 e 1990, antes da desintrusão que permitiu a demarcação.
