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O Yin em alto mar: a expedição sob o olhar das pesquisadoras
Elas mostraram a força do feminino em Expedição aos Arquipélago de Martin Vaz e Monte Colúmbia.
Não existe, segundo a filosofia chinesa, Yang sem Yin. Conhecidas como energias complementares, podem ser traduzidas como masculina e feminina, dia e noite, entre outros. Na expedição às grandes unidades de conservação oceânicas do ICMBio (APA do Arquipélago de Trindade e Martin Vaz e MONA das Ilhas de Trindade e Martin Vaz e do Monte Columbia) - promovida em julho pelo ICMBio em parceria com diversas instituições, a presença do feminino fez toda a diferença, não apenas pelos resultados alcançados, mas pelo fluxo dos acontecimentos.
Depois de uma expressiva repercussão na mídia, com reportagens falando sobre a rica biodiversidade do lugar, tecnologias utilizadas e até a descoberta de uma espécie de peixe nessa expedição, nada melhor do que ouvir aquelas que deram todo o colorido para o período de 17 dias em alto mar, lidando com diversas intempéries. O Yin deu o seu tom e coloriu, assim como os cardumes nas profundezas desse berçário de biodiversidade, todo o período de isolamento a 1200 Km da costa capixaba.
Para a bióloga (Ufes), mestre e pesquisadora (Cebimar/USP) Julia Marx de Souza, estar na expedição foi “completamente além do que imaginava”. Desde a submissão do projeto, ela esteve envolvida, apoiando na logística, organização e burocracia prévia à expedição. Em alto mar, Julia conduziu coletas com BRUV (câmeras subaquáticas com iscas para atrair peixes) e Censos Visuais Subaquáticos (CVS). Além de colaborar na triagem e organização de espécimes de peixes e corais para o banco genético e coleção científica da (USP).
O maior desafio, segundo a pesquisadora, foi o próprio lugar em si: “Enfrentamos grandes ondulações e, mesmo atracados, o mar variava muito ao longo do dia, com ondulações e correntezas”.
O momento mais marcante segundo ela foi avistar a imponente Ilha de Trindade, durante o trajeto. “Foi espetacular, ainda mais junto às imagens do ROV (robô de filmagem subaquático), mostrando a biodiversidade saudável logo abaixo de nós. Somado a Trindade, aquilo me fez perceber o quão somos pequenos”, relembra. Além disso, o que ficou marcado, relembra Julia, foi ver um ambiente quase intocado, cercada por grandes e diversos cardumes enquanto trabalhava.
O momento em que o ROV - a 116m de profundidade - capturou imagens de uma espécie nova de um peixe, foi um momento de muita alegria e satisfação para toda a equipe. “Mesmo sendo esperado que encontrássemos algo novo, ainda é impactante quando isso acontece”, celebra a pesquisadora.
Segundo Julia, o dive master Dilson Cajueiro (Zá) de Caravelas/BA, coletou corais no Monte Davis, entre eles uma possível primeira ocorrência no Brasil, antes registrada somente no Caribe. “A confirmação virá das informações genéticas conduzidas pelo Laboratório de Evolução e Sistemática de Anthozoa, do professor Marcelo Kitahara (Cebimar/USP)”, informa.
Toda a experiência serviu para reafirmar a paixão pela pesquisa. “Definitivamente, estou no caminho certo. A biologia marinha me escolheu e todos os dias eu sigo escolhendo-a. Sou muito grata por tudo o que tenho aprendido com essa expedição”, comemora.
Para a oceanógrafa (UFES), mestre (UESC) e pesquisadora/bolsista CNPq do Centro TAMAR/ICMBio Lorena Nascimento, foi marcante para todos na expedição avistar a Ilha de Trindade depois de 5 dias de navegação. “Uma beleza cênica única, dessas bem rústicas e inimaginável, o tom de azul do mar é algo que acho que nunca vou esquecer na vida, de escuro e ao mesmo tempo transparente”, relembra.
Lorena prestou apoio nas operações com ROV e no registro audiovisual do dia-a-dia da expedição, para produção de um documentário. Levantamentos inéditos de biodiversidade e morfologia marinha foram conduzidos ali, por meio de mergulhos científicos utilizando os equipamentos BRUV, ROV e DropCam para registrar o ambiente, espécies de peixes, corais e outros organismos em áreas remotas, a mais de 1.200 km da costa do Espírito Santo e em profundidades de até 160m.
“E para além do trabalho, foi um sonho mergulhar em águas de tons azul-escuros e transparentes, ver o sol nascendo e se pondo, inúmeras estrelas cadentes, dormir e acordar na companhia de aves marinhas, além de avistar orcas navegando perto do barco, em nosso retorno. Foram dias incríveis com pessoas que até então não conhecia e que se tornaram grandes amigos”, celebra ela.
A percepção de Lorena, como pesquisadora, é do quanto ainda há a ser descoberto e descrito nesses ambientes, que funcionam como verdadeiros laboratórios naturais de evolução e adaptação. “A bordo, apoiei diretamente nas operações com o ROV, desde o preparo e lançamento do equipamento na água até o manejo do cabo, recolhimento e verificação da sua funcionalidade. Além da parte técnica, acompanhei a captação de imagens em tempo real, vibrando a cada nova descoberta registrada pelas câmeras”.
Segundo a pesquisadora, o processo de capturar indivíduos com o ROV é uma novidade, uma adaptação feita pelo próprio pesquisador Dr. João Batista (piloto do ROV) e sua equipe. “Houve aquela tensão compartilhada entre todos da equipe que acompanhavam a transmissão das imagens ao vivo, o que foi recompensado quando o uso do sedativo numa espécie de peixe deu certo e foi possível capturá-lo para, enfim, a comemoração generalizada de todos ali. Um momento incrível da possível descoberta de uma nova espécie!” relembra Lorena.
Lorena contextualiza que o processo para confirmar e reconhecer a descoberta de uma nova espécie é bastante rigoroso, pois envolve a coleta de material biológico, a análise morfológica detalhada e comparações genéticas com espécies já descritas. Apenas após a revisão por especialistas e a publicação em revista científica é que um organismo pode ser oficialmente considerado uma nova espécie.
As filmagens foram uma responsabilidade extra, que lhe exigiu atenção plena. “Com a responsabilidade de cinegrafista da expedição, precisei desenvolver um olhar mais sensível e técnico para captar a beleza em diferentes ângulos, registrar momentos marcantes e pensar na melhor composição. Foi um desafio novo e enriquecedor que me fez sair do papel de mera expectadora. Me senti realizada por ter registrado tantos momentos únicos e importantes, que em breve ganharão vida em um documentário pela Tabuiaiá Films (que já estou ansiosa para ver), levando à sociedade a grandiosidade e a importância desses ambientes marinhos”.
O que ficou foi a certeza da importância de proteger esses ambientes únicos e ainda pouco conhecidos. A expedição mostrou o quanto os ecossistemas oceânicos abrigam uma biodiversidade extraordinária e o quanto são frágeis frente às pressões humanas. “Cada dado coletado pode contribuir para a conservação futura dessas áreas, e como oceanógrafa, estou realmente realizada pela minha profissão e por ter participado disso tudo”.
A pesquisadora vivenciou, na prática, a importância da equidade de gênero na ciência. “Estar a bordo junto com outras três pesquisadoras, todas extremamente competentes e dedicadas, foi inspirador e me trouxe um sentimento de orgulho e pertencimento. Sentir que fazemos parte de um grupo que mostra, pelo exemplo, que a ciência é mais rica quando mulheres também ocupam esses espaços”.
Para Érica Assunção Araújo, médica veterinária e jornalista científica pelo Cebimar/USP, estar na expedição a fez retornar a pessoas que para ela são referência, como a analista ambiental recentemente aposentada pelo Centro TAMAR/ICMBio e médica veterinária, Cecília Baptistotte. “Estar nessa expedição a convite, como jornalista científica, e com profissionais que admiro foi mais do que uma grande satisfação — foi uma celebração de resistência e união”.
Os desafios, segundo Érica, do balanço do mar, com ondas de 3 a 4 metros mudou o semblante da maioria embarcada. “O corpo e a mente precisavam se adaptar ao mundo que não parava de balançar. Foi quando comecei a auxiliar quem estava passando mal ou precisava de cuidados. Mas nada se compara ao momento em que avistamos as ilhas de Martin Vaz: o enjoo desapareceu, e a emoção tomou conta. Todos vibraram ao ver aquele oásis no meio do oceano”.
Nesse espírito de equipe, ninguém fez nada sozinho, a exemplo do mergulho de Érica, com cilindro, acompanhada do Zá – Dilson Silvestre. “Mal começamos a descida e, de repente, dei de cara com um tubarão! Depois, uma explosão de peixes: purfa, budião, barracuda, moréia e um monte de outros que passavam sem medo nenhum — o privilégio de estar em uma área totalmente protegida”, celebra.
Após a descida em torno de 18 metros de profundidade, rodeados de diferentes espécies, cores e formas, Érica relembra que percebeu o milagre da vida. “As cores sinalizavam que ali os corais estavam vivos, as esponjas vibrantes, as algas calcáreas intactas, tudo saudável e em perfeita harmonia, longe da interferência humana”.
“Em um tempo de tantas perdas na biodiversidade, encontrar algo totalmente novo foi uma explosão de alegria para todos (sobre a espécie encontrada pelos pesquisadores), todo mundo comemorando como se fosse a descoberta de um tesouro, o que de fato é”, relembra Erica encantada com as aves marinhas, como a noivinha de Martin Vaz e o petréu de Trindade. Érica esteve – como jornalista científica – a frente dos registros da expedição, elaboração de vídeos para redes sociais das instituições envolvidas, assim como de atividades científicas e cuidados com o dia a dia embarcada.
“A maior dificuldade foi mesmo o mar agitado: na ida, ondas fortes pela proa; na volta, batendo na lateral do barco, fazendo tudo sacudir. Mas no final, conseguimos cumprir as metas e ir além do planejado.” Para a jornalista, levar a ciência até o público foi um dos maiores desafios e também um dos maiores méritos dessa missão e ela divulgou amplamente a expedição em diferentes veículos de comunicação e mídias nacionais, com repercussões até hoje.
Foi fantástico captar imagens de alto nível por meio dos equipamentos remotos e mergulhadores experientes. Mostrar cenas que normalmente não vemos — corais, rodolitos, plantas marinhas — é como revelar um tesouro invisível, evidenciando o quanto tudo isso é essencial para a vida no planeta. E o impacto se refletiu nas redes sociais: as postagens do Centro TAMAR/ICMBio e Natureza do Mar tiveram engajamento incrível, e a expedição ganhou destaque em grandes veículos, como G1 ES e TV Band.
O trabalho de sensibilização mostrou o quanto é transformador levar a ciência do fundo do mar para o público.” Daí a urgência de ampliar as áreas de proteção dessa cordilheira submarina, que vai de Vitória até Martin Vaz. As descobertas poderão embasar novas políticas de conservação. E percebo o quanto a presença das mulheres fez diferença nessa expedição. “A presença feminina trouxe um outro tipo de força. Além de liderar diversas atividades a bordo, teve o toque especial de sensibilidade, cuidado, organização e esse equilíbrio foi essencial para encarar os desafios do alto-mar — que nem sempre são só físicos, mas também muitas vezes mentais”.
Para Priscila Demier, estudante de oceanografia da UFES, que trabalhou junto com a pesquisadora Julia, foi a primeira experiência em uma expedição desse porte. Com uma vivência de campo restrita à zona costeira, e dois anos de prática com o BRUV, Priscila comenta que também se preparou previamente aos 17 dias ao mar. “Antes da expedição, participei da calibração das câmeras, da separação de materiais e embarque de equipamentos.
Além disso, lembro bem da sensação quando vi a lista da equipe, com nomes de pesquisadores renomados e pensei: Como vim parar nesse lugar?” A resposta veio de pronto: para aprender a fazer
ciência na prática. “Tudo ocorreu melhor do que esperávamos. Tivemos sucesso em todos os lançamentos de BRUV, ROV e mergulhos. E não quero parar aqui. Esses dias no mar me fizeram ter certeza de que lá é o meu lugar, estudar e desbravá-lo é o que me faz sentir verdadeiramente viva”.
Priscila participou de tarefas com o BRUV (preparação, montagem das iscas e câmeras, lançamento e organização dos dados), além do suporte na separação e organização dos tecidos de organismos coletados, captação de imagens, organização de cabos, arrumação de equipamentos e desmobilização, ao chegar em terra firme. Entre os momentos marcantes, Priscila cita a aproximação da ilha da Trindade ao pôr do sol, o primeiro lançamento de BRUV que abriu as amostragens da expedição, o sucesso na adaptação feita no ROV para anestesiar e coletar peixes e a possibilidade de descoberta de uma nova espécie.
Nas filmagens do ROV, viu grandes bancos de rodolitos que segundo ela pareciam ter sido montados por uma obra de engenharia, servindo de moradia e abrigo para diferentes espécies de peixes. “Me tocou profundamente imaginar quanto tempo foi necessário para que fossem formados e perceber que muitas pessoas nem imaginam a riqueza que existe neles”.
“A bordo, me marcou muito a garra e vontade de todos em fazer acontecer, mas principalmente da Julia. Como eu era a dupla nela no BRUV acabei ficando próxima para dar apoio nas atividades que ela fazia - que no caso foram todas que fizemos na expedição porque até durante as amostragens de ROV ela estava lá para ajudar a identificar as espécies. A mulher não parou nem no pós-expedição, já que ficou à frente de grande parte das amostras que foram coletadas. Uma grande inspiração para mim.”
A estudante de oceanografia disse que pôde observar, na prática, coisas que aprendeu em sala de aula, como a influência da pressão de pesca sobre o tamanho dos peixes, por exemplo. “Em Martin Vaz encontramos peixes enormes, enquanto próximos à costa costumamos ver indivíduos menores. É essencial manter e se estudar zonas de no-take para ver a funcionalidade do ecossistema”.
Para ela foi uma honra ver o pesquisador Gasparini no pós descoberta da espécie, e todo o cuidado que se deve ter desde posicionar o organismo da forma ideal para observar as características necessárias em uma chave de identificação e conseguir a foto de registro tecnicamente ideal. “Mais do que a experiência científica, esta expedição foi um aprendizado de vida. A ciência é feita de colaboração, troca e paixão pelo que se faz. O oceano e a natureza nos ensinam sobre fluidez, contorno dos obstáculos, e recolher o ego. O oceano nos ajuda a controlar a ansiedade e faz nossos problemas parecerem menores”.
Daí a necessidade de continuar estudando esses ambientes, e transmitindo esse conhecimento à sociedade, mostrando a importância e a grandiosidade de um ambiente preservado, explica ela. “Ele é essencial para nós, mesmo que pareça distante. Torna-se fundamental não apenas mostrar a exuberância desses lugares, mas também a sua funcionalidade, de forma que a população compreenda e se conecte com a causa da preservação e conservação, entendendo que essa é uma responsabilidade compartilhada, e vital para a manutenção da nossa sobrevivência”.






