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Rede de cavernas no Nordeste conecta populações de morcegos por centenas de quilômetros
Foto: Equipe responsável pela pesquisa atuando em campo - Foto: Fernanda Ito
Um estudo recém-publicado na revista BMC Ecology and Evolution e apoiado pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (ICMBio/Cecav) trouxe descobertas inéditas sobre a ecologia de morcegos no Nordeste brasileiro. Pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) analisaram duas espécies do gênero Pteronotus e confirmaram que elas formam populações geneticamente conectadas, utilizando uma rede de cavernas distribuídas pelo semiárido.
As espécies Pteronotus gymnonotus e Pteronotus personatus compartilham abrigos conhecidos como bat caves, cavernas raras que apresentam condições únicas, como câmaras internas com temperaturas próximas a 40°C, essenciais para a reprodução. “A pesquisa revelou que esses morcegos não permanecem em um único abrigo, mas se deslocam por centenas de quilômetros, mantendo fluxo genético entre diferentes cavernas. Essa dinâmica caracteriza populações panmíticas, ou seja, geneticamente homogêneas”, afirmou Fernanda Ito, principal autora do estudo.
Segundo os pesquisadores, essa conectividade reforça a necessidade de estratégias de conservação em escala de paisagem. “Proteger apenas uma caverna não é suficiente. É preciso considerar toda a rede de abrigos”, destacou Fernanda.
A conservação em escala de paisagem propõe uma abordagem integrada que vai além da proteção de áreas isoladas. Em vez de focar apenas em unidades específicas, busca gerir toda a região de forma conectada, conciliando diferentes objetivos ambientais e garantindo a manutenção dos processos ecológicos em larga escala.
Rede de cavernas analisada pelo estudo
As bat caves abrigam populações impressionantes de morcegos, que podem variar de dezenas de milhares até milhões de indivíduos. Essas cavernas também são conhecidas como hot caves devido ao calor corporal irradiado pelos animais, que eleva significativamente a temperatura interna, criando um microclima quente e estável. Esse ambiente é essencial para a reprodução, pois favorece o desenvolvimento dos filhotes e a manutenção da colônia.
As bat caves analisadas neste estudo foram:
·Gruta do Arnold — Rio Grande do Norte (RN)
·Caverna do Urubu — Rio Grande do Norte (RN)
·Gruta do Sobradinho — Ceará (CE)
·Boqueirão de Lavras — Ceará (CE)
·Gruta do Farias — Ceará (CE)
·Meu Rei — Pernambuco (PE)
·Furna do Morcego — Pernambuco (PE)
·Urubu — Sergipe (SE)
·Casa de Pedra — Sergipe (SE)
Entenda a metodologia do estudo
Foram analisados marcadores moleculares de 72 P. personatus (21 fêmeas e 51 machos) e 177 P. gymnonotus (93 fêmeas e 84 machos), e confirmaram que não houve fortes indícios de estrutura genética populacional, confirmando que estes morcegos frequentemente trocam de cavernas ao longo da paisagem, ao invés de dependerem de um único abrigo permanente. Sem esta troca dinâmica, a população de cada caverna teria a sua própria estrutura, formando grupos geneticamente separados. Mas foi exatamente o contrário do que os pesquisadores constataram: cada uma das duas espécies forma uma única população, tecnicamente chamada panmítica. Os pesquisadores mostraram ainda que, mesmo compartilhando os mesmos abrigos, não houve hibridização (cruzamento) entre as espécies, algo já observado em outras partes do planeta para morcegos em situação similar aos Pteronotus estudados no Nordeste.
Foi a primeira vez no Brasil que duas espécies tão próximas de morcegos tiveram suas estruturas populacionais analisadas. Estudos deste tipo ajudam os pesquisadores a entenderem melhor os padrões de dispersão das espécies e mostram que, no caso dos morcegos, eles são capazes de se deslocarem por centenas de quilômetros, mantendo a troca de genes.
Outra importante contribuição trazida pelo estudo é uma melhor compreensão acerca dos serviços ecossistêmicos prestados por esses animais. De acordo com o doutor em biologia e professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA), Enrico Bernard, “morcegos do gênero Pteronotus comem grandes quantidades de insetos, os de uma única caverna em Sergipe consomem cerca de 84 toneladas por ano, incluindo pragas agrícolas que atacam plantações comerciais e de subsistência no Nordeste. A constatação de que estes morcegos formam uma única população mostra que os serviços de supressão de insetos e pragas por eles prestado é muito maior e ainda mais valoroso do que se estimava”.
O trabalho, pioneiro no Brasil ao comparar a estrutura genética de duas espécies tão próximas, foi desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Biologia Animal da UFPE, com apoio da CAPES e recursos de compensação espeleológica da Gerdau S.A., disponibilizados pelo ICMBio/Cecav.
