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Pesquisadora combina fármaco a nanotecnologia para melhorar a eficácia do tratamento do câncer cervical e é premiada

No mês de Março, uma série de notícias sobre pesquisas coordenadas por mulheres pesquisadoras
Publicado em 12/03/2021 14h47

Pesquisa sobre o uso da nanotecnologia para o tratamento de câncer do colo do útero levou a bolsista de Pós-doutorado Júnior do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Luiza Abrahão Frank, a ser uma das cientistas contempladas com o prêmio. Graduada em Farmácia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Luiza é, atualmente, pesquisadora de pós-doutorado no laboratório de sistemas nanoestruturados para administração de fármacos da UFRGS e professora de cursos da área da saúde na UniRitter da Laureate International Universities. 

A pesquisa de Luiza Frank demonstrou que, associadas à nanotecnologia, doses inferiores de imiquimode, medicamento utilizado para o tratamento do HPV e do câncer cervical, têm efeito significativos sobre células cancerosas da mucosa vaginal, sem provocar os efeitos colaterais que o uso corrente desse  fármaco em sua  forma livre têm sobre as pacientes. Se utilizados pela indústria farmacêutica, os sistemas nanotecnológicos para o tratamento do câncer do colo do útero podem contribuir para aumentar a adesão das pacientes ao tratamento, visto que ajudam a reduzir os efeitos adversos provocados pela administração dos medicamentos utilizados para combater a doença. Sexto tipo de câncer mais frequente na população em geral e o terceiro mais comum entre mulheres, depois do câncer de mama e do câncer colorretal, o câncer do colo do útero está associado a infecções pelo papilomavírus humano, ou HPV, doença viral sexualmente transmissível, que tem diversos subtipos. Os tipos HPV-16 e HPV-18 são responsáveis por cerca de 70% dos cânceres cervicais.“25 Mulheres na Ciência na América Latina”, promovido pela 3M para agraciar profissionais da região que desenvolveram estudos e projetos inovadores. O prêmio contemplou, além de Luiza, mais cinco pesquisadoras brasileiras. A proposta de Luiza foi a de criar plataformas contendo um fármaco com ação antiviral e antitumoral nanoencapsulado, a fim de proporcionar tratamento eficaz contra o câncer cervical e também melhorar a qualidade de vida das mulheres acometidas pela doença. O sistema sugerido permite que a liberação do fármaco seja controlada e produza menos efeitos adversos do que a formulação comercial  em uso. “Meu projeto tem como principal objetivo oportunizar um tratamento diferenciado e de alta qualidade para doenças que acometem a via vaginal. O foco é especificamente no câncer cervical, que é uma das principais causas de morte entre mulheres na América Latina e no Caribe”, explica a pesquisadora.

O imiquimode foi selecionado pela pesquisadora como fármaco alvo para nanoencapsulação porque preenchia os requisitos necessários para justificar o emprego da nanotecnologia. Fármaco quimioterápico e imuno-estimulante com atividade antitumoral e antiviral, o imiquimode está disponível no mercado brasileiro sob a forma farmacêutica de creme a 5%. Embora sua eficácia seja comprovada para diferentes patologias – o medicamento é utilizado também para tratamento de doenças benignas, como ceratoses actínicas – o imiquimode provoca efeitos adversos que variam desde dor a irritação e ulceração. Nas pacientes com câncer no colo do útero, o tratamento com o fármaco dura 16 semanas, o que faz com que muitas mulheres abandonem a terapia devido ao desconforto provocado pelo medicamento.

Além de ser caro, o fármaco também é um sistema não adesivo, o que facilita sua remoção antecipada quando aplicado à mucosa vaginal. Dessa forma, Luiza Frank propôs uma formulação de base nanotecnológica mucoadesiva para melhorar a performance do imiquimode, por meio do aumento de seu tempo de contato com a mucosa, o que possibilita que uma maior quantidade de medicamento possa interagir com o muco vaginal, apresentando melhores resultados. A sugestão da pesquisadora também contribuiu para diminuir os efeitos colaterais relacionados a seu uso, já que o imiquimode nanoencapsulado é utilizado em quantidade muito menor do que o da formulação comercial. O ambiente da mucosa vaginal contribui para a redução do tempo de contato dos fármacos com avagina. Por isso, várias formulações farmacêuticas utilizam polímeros mucoadesivos em diferentes apresentações , como óvulos e comprimidos.

A forma proposta de hidrogel de quitosana, com nanocápsulas poliméricas contendo imiquimode, demonstrou ser a mais promissora das sugestões da pesquisadora, devido ao hidrogel apresentar valores mais altos de permeação e de mucoadesão. Para a obtenção das nanoestruturas produzidas para a pesquisa, Luiza  Frank usou óleo de copaíba que, em estudos preliminares, foi capaz de solubilizar uma maior quantidade de imiquimode. O óleo de copaíba é conhecido por apresentar ação antifúngica, antitumoral e anti-inflamatória, além de ser utilizado como alternativa para o tratamento de alívio de irritações cutâneas e como substituto a corticóides. A pesquisa foi desenvolvida com a utilização do modelo vaginal suíno, que simula de forma mais adequada a via vaginal feminina. 

Todos os experimentos compararam os sistemas nanoestruturados com o imiquimode em sua forma livre e, em todos os casos, se obteve melhores resultados quando o fármacoo se apresentava sob a forma nanoestruturada quando aplicado à mucosa vaginal. Além disso, pelo fato de o fármaco apresentar alta performance frente às células quando é encapsulado em nanoestruturas, as doses utilizadas são menores e é mais fácil dele ser internalizado em comparação a sua forma livre, devido ao tamanho nanométrico das estruturas. Os resultados do trabalho permitiram elucidar a melhor formulação de nanoestruturas para o tratamento do câncer de colo do útero. Em seu estudo, a pesquisadora descobriu que as nanoestruturas sugeridas por ela, como nanoemulsão, nanocápsulas poliméricas e nanocápsulas poliméricas revestidas com quitosana, para aplicação vaginal do imiquimode, potencializaram o efeito citotóxico do medicamento. A quitosana constitui um dos polímeros mucoadesivos mais utilizados pela indústria farmacêutica, ao lado da gelatina e do ácido hialurônico. A pesquisa comprovou que as nanoestruturas inibiram de forma significativa o aparecimento de novas colônias de células de câncer cervical, resultado até então inédito na literatura científica desse campo de conhecimento.

 

A pesquisadora Luiza no laboratório onde realiza  seus experimentos. Foto: Arquivo Pessoal

O trabalho com as fórmulas nanotecnológicas contendo imiquimode evoluiu para pesquisas na mesma linha, desenvolvidas por Luiza Frank, com alvo nos tratamentos do câncer esofágico, bucal e do melanoma, tipo agressivo de câncer de pele. A pesquisa ainda está em andamento, mas Luiza já publicou artigos científicos sobre a aplicação do biopolímero quitosana em formulações para aplicação cutânea e sobre mucosas, com atenção às nanocápsulas produzidas com quitosana para aumentar o uptake celular.

O prêmio “25 Mulheres na Ciência na América Latina”

O prêmio da 3M - grupo multinacional que tem negócios em mercados diversos, como saúde, segurança, consumo e escritório - teve a finalidade de fomentar a diversidade na área científica, realçando a participação de mulheres que desenvolveram pesquisas e projetos inovadores, capazes de impactar a sociedade de forma positiva. Mais de 1 mil especialistas das áreas STEM, sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática, se candidataram ao prêmio. O requisito era que os projetos inscritos deveriam já ter apresentado resultados comprovados nos últimos dois a cinco anos. As propostas foram avaliadas pela inovação apresentada, pela importância do problema resolvido, pela escala de seu impacto na comunidade.

Foram premiadas cientistas de oito países latino-americanos: Peru, Brasil, Chile, Argentina, Colômbia, México, Panamá e Uruguai. Entre as 25 contempladas com a premiação, 6 são brasileiras. Além de Luiza Frank, ganharam o prêmio a física Daniela Ushizima, que trabalha com processamento e análise de imagens medidas a partir de tomografia computadorizada; Letícia de Oliveira, neurocientista que desenvolve estudo de transtornos de ansiedade e humor com neuroimagem e inteligência artificial; Christiani Andrade Amorim, que trabalha com reprodução humana; Silvana Pereira Rempel, que atua na área de  aplicação de nanofibras poliméricas obtidas pela técnica de fiação por sopro em solução; e  Kátia Omura, que tem pesquisa voltada para neuroreabilitação e para doenças como Parkinson e Alzheimer.