Raiva Humana
Desde os anos 2000 até junho de 2026, o perfil da raiva humana no Brasil mudou significativamente. Os casos de raiva transmitida por cães, conhecidos como ciclo urbano da doença, foram drasticamente reduzidos devido a campanhas de controle da raiva em cães e à profilaxia antirrábica adequada para a população (Gráfico 1).
Os últimos casos de raiva em humanos transmitidos por cães ocorreram em 2013, no Maranhão, e em 2015, em Mato Grosso do Sul, ambos com variantes do vírus típicas de cães (AgV1/AgV2). Portanto, o Brasil está há 10 anos sem registros de raiva humana transmitida por cães, superando o prazo de 5 anos exigido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para declarar uma área livre de raiva.
A OMS estabeleceu 2030 como a meta para eliminar a raiva humana transmitida por cães nas Américas. No entanto, o Brasil assumiu o compromisso de atingir essa meta antes, durante a 17ª Reunião dos Diretores dos Programas de Raiva das Américas (17º REDIPRA) em Bogotá, Colômbia, em outubro de 2023. O objetivo é obter a validação de área livre de raiva canina pela OMS/OPAS até 2026.
Apesar dos avanços no controle da raiva transmitida por cães, o Brasil enfrenta novos desafios, com o aumento de casos de raiva humana causados por variantes do vírus rábico em animais silvestres, especialmente morcegos. Hoje, a transmissão por morcegos é a principal fonte de infecção da raiva em humanos no país.
Entre 2010 e 2026, foram registrados 54 casos de raiva humana no Brasil (Tabela 1). Desses, 10 foram causados por mordidas de cães, 23 por morcegos, 12 por primatas não humanos, 2 por raposas, 5 por felinos, 1 por bovino e 1 por cervídeo (Tabela 2). Na história dos casos de raiva humana no Brasil, apenas dois pacientes sobreviveram; todos os outros evoluíram para óbito (Tabela 3 e Tabela 4).
Casos de Raiva humana segundo espécie animal de agressor, 1986-2026*, Brasil
Fonte: SVSA/MS. Atualizado em 11/06/2026
Notificações entre 2010 e 2026
Entre 2010 e 2026, foram registrados vários casos de raiva humana no Brasil, com diferentes fontes de transmissão (Tabela 5).
2010: Três casos, dois no Ceará (um transmitido por cão com a variante 2 e um transmitido por primata não humano com a variante de sagui) e outro no Rio Grande do Norte, transmitido por um quiróptero com a variante 3.
2011: Dois casos no Maranhão, um transmitido por um cão e outro transmitido por um gato, os dois animais com a variante 2 do vírus.
2012: Cinco casos, um no Ceará transmitido por um primata não humano com a variante de sagui, dois no Maranhão transmitido por cão com a variante 2, um e Minas Gerais transmitido por quiróptero com a variante 3 e um caso no Mato Grosso onde não foi possível identificar nem o animal agressor e nem a variante.
2013: Cinco casos, três no Maranhão (dois transmitidos por cão com a variante 2 do vírus e um transmitido por primata não humano com a variante de sagui) e dois no Piauí (um transmitido por cão com a variante 2 e um transmitido por primata não humano com a variante de sagui), sendo que este foi o último ano em que foi registrada a variante 2 no país.
2014: Não houve registro de casos de raiva humana.
2015: Dois casos, um na Paraíba transmitido por um felino com a variante 3 do vírus e outro em Mato Grosso do Sul, transmitido por um cão com a variante 1 (último caso registrado dessa variante).
2016: Dois casos, um em Roraima por um felino infectado com a variante 3 e outro no Ceará, transmitido por um morcego.
2017: Seis casos, todos pela variante 3 transmitida por morcegos, com cinco ocorrências diretas de ataques de morcegos e uma por um gato de rua infectado.
2018: Onze casos, dez deles em um surto em Melgaço, Pará, causado por morcegos, e um no Paraná, relacionado a um ataque de morcego em São Paulo.
2019: Um caso em Santa Catarina, transmitido por um felino com a variante 3.
2020: Dois casos, um no Rio de Janeiro, por morcego, e outro na Paraíba, por raposa.
2021: Um caso no Maranhão, por uma raposa com variante de canídeos silvestres.
2022: Cinco casos, quatro em uma aldeia indígena em Minas Gerais e um no Distrito Federal, todos com a variante 3.
2023: Dois casos, um em Minas Gerais por um bovino e outro no Ceará por um primata não-humano.
2024: Dois casos, um caso registrado no Piauí, causado por um primata não-humano com a variante de sagui e outro no Tocantins, cuja variante do vírus identificada foi a 3, e o provável animal agressor foi um cão.
2025: Quatro casos foram registrados, três casos causados por primata não-humano com a variante de sagui no Pernambuco, no Ceará e na Paraíba e um caso no Amapá causado por primata não-humano com a variante 3.
2026: Até o momento, um caso registrado no Piauí causado por primata não-humano em análise quanto a variante viral.