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Diálogos Interculturais e Etnobotânica: o JBRJ e a pesquisa colaborativa com os Povos Indígenas
Foto da expedição ao Rio Uaupés em 2025, como parte do projeto Amazônia+10: participantes da Oficina de Treinamento em coleta e herborização de material botânico, e documentação de informações etnobotânicas associadas às plantas, com pesquisadores indígenas, representantes do povo Tukano, e não-indígenas (JBRJ, MPEG, KEW, BBK) | Foto: Luciana Martins
Neste 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro destaca ações contínuas de pesquisa conjunta, valorização das línguas originárias e o desenvolvimento de sistemas de informação éticos.
O Dia dos Povos Indígenas é uma data fundamental para evidenciar o protagonismo das comunidades originárias no conhecimento e na proteção da sociobiodiversidade. No Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), esse reconhecimento é a base para ações contínuas de pesquisa colaborativa desenvolvidas pela área de Etnobotânica. Por meio de um trabalho pautado pelo respeito, a instituição atua diretamente nos territórios, integrando conhecimentos tradicionais a conhecimentos científicos.
Um exemplo recente dessa atuação foi a expedição ao Rio Uaupés, no Amazonas. A missão integrou o subprojeto "Diálogos Interculturais sobre Plantas, Histórias e Saberes", que faz parte do projeto "Vozes da Amazônia Indígena". Financiada pela Iniciativa Amazônia+10 e desenvolvida em forte parceria com o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), esta rede de pesquisa une os conhecimentos indígenas e da academia com o objetivo urgente de buscar soluções e respostas locais para o enfrentamento da crise climática.
O projeto Vozes da Amazônia Indígena atua em colaboração direta com comunidades em três territórios ecologicamente distintos: o Alto Rio Negro (AM), o Alto Xingu (MT) e o corredor ecológico do Xingu, na Terra Indígena Kayapó (PA). Como cada uma dessas regiões possui configurações étnicas, históricas e socioambientais muito próprias, todos os eixos da pesquisa são construídos conjuntamente entre cientistas e comunidades.
No caso da expedição ao Rio Uaupés, no TI Alto Rio Negro, território onde o JBRJ está desenvolvendo pesquisas, o trabalho de campo vem aliando a botânica a áreas como a arqueologia, a etnologia e a linguística histórica. O objetivo é compreender, em profundidade e por longo prazo, as complexas relações dos povos indígenas com as plantas e com o seu território.
Essa agenda colaborativa segue em constante expansão. Entre os meses de março e abril deste ano, o JBRJ realiza extensos trabalhos de campo na Terra Indígena Panará, localizada entre Mato Grosso e Pará. Essas imersões reiteram o compromisso institucional do Jardim Botânico de atuar em diferentes biomas, garantindo que as respostas aos desafios ecológicos e climáticos sejam construídas de forma conjunta e pautadas pelo protagonismo dos povos originários.
A valorização de mais de 270 línguas vivas no Brasil
O Brasil é um país multilíngue. Além do português, há hoje mais de 270 línguas indígenas vivas e faladas em nosso território. Para o JBRJ, a difusão científica precisa refletir e respeitar essa imensa diversidade.
Garantir que os resultados das pesquisas retornem às comunidades em seus próprios idiomas é um passo essencial. Por isso, o "Manual de Etnobotânica: plantas, artefatos e conhecimentos indígenas", além de sua versão em português, conta com edições traduzidas e adaptadas para as línguas Baniwa e Tukano. Disponibilizar materiais científicos e educativos em línguas indígenas é uma forma concreta de valorizar essas culturas e de garantir que o conhecimento permaneça vivo e acessível às novas gerações nas aldeias.
A difusão também acontece por meio de iniciativas como a História em Quadrinhos "Jardim dos Saberes", voltada ao público infantojuvenil, e de documentários audiovisuais que ilustram o diálogo em campo, como os documentários da Oficina de intercâmbio de conhecimentos científicos e indígenas e As Muitas Vidas de um Escudo em português e em inglês. Esses trabalhos documentais e expositivos, inclusive, integram colaborações internacionais de excelência, com forte atuação conjunta com o Royal Botanic Gardens, Kew (Kew Gardens) e a Universidade de Birkbeck, no Reino Unido, bem como em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA) e o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG).
Etnobotânica e Ciência de Dados: uma aliança tecnológica e ética
Outro grande diferencial da atuação do JBRJ é a união inovadora entre a equipe de Etnobotânica, liderada pela pesquisadora Viviane Fonseca-Kruel, a Coordenação de Computação Científica e Geoprocessamento, com a participação do tecnologista Eduardo Dalcin, e a parceria estratégica com o projeto Useflora, liderado pelo Laboratório de Ecologia Humana e Etnobotânica (ECOHE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Juntas, essas equipes lideram discussões globais sobre como a tecnologia pode proteger os direitos indígenas sobre seus próprios saberes.
Um marco fundamental dessa construção conjunta ocorreu nos dias 22 e 23 de maio de 2025, quando a Coleção Temática de Plantas Medicinais (CTPM) do JBRJ sediou a 1ª Oficina Colaborativa e Intercultural do projeto Useflora, sobre a Base de Dados de Sociobiodiversidade. A iniciativa, que contou com o apoio do Instituto Serrapilheira, reuniu representantes de Povos Indígenas, Comunidades Tradicionais e Agricultores Familiares, ao lado de membros do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

O objetivo central do encontro foi debater a criação de um banco de dados ético para os conhecimentos tradicionais associados à sociobiodiversidade. A oficina buscou fortalecer a salvaguarda e o reconhecimento profundo dos saberes de guardiões e guardiãs, promovendo a coprodução de uma ciência intercultural que atue diretamente na proteção do saber ancestral e na valorização dos territórios.
Esse intenso debate prático tem se desdobrado em publicações científicas de alto impacto, consolidando diretrizes para o uso ético da tecnologia. Um grande marco dessa atuação em rede é o artigo recém-publicado na prestigiosa revista Nature npj biodiversity (2026), intitulado "A global biodiversity use data infrastructure acknowledging indigenous and local knowledge". O estudo, construído em estreita parceria entre pesquisadores do JBRJ, o grupo Useflora/UFSC e lideranças indígenas, além de outros parceiros, propõe padrões globais essenciais para uma infraestrutura de dados que garanta a rastreabilidade, o consentimento e a soberania das comunidades sobre seus saberes.
Além desse estudo central, a colaboração produziu reflexões fundamentais sobre o futuro da gestão de dados etnobiológicos, publicadas recentemente na revista Plants, People, Planet:
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Reposicionando a diversidade da sociobiodiversidade: rumo às melhores práticas para fortalecer a etnobotânica em herbários digitais (Hart et al., 2025)
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Avanços e diretrizes para a soberania e o uso ético de dados em coleções botânicas Na prática, essa sólida parceria transdisciplinar impulsiona iniciativas de ponta contínuas:
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O Projeto GEF "Entre-Ciências", voltado ao estabelecimento de padrões de dados para a sociobiodiversidade.
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O contínuo desenvolvimento da Arquitetura para um Sistema de Informações sobre Conhecimento Tradicional Associado à Biodiversidade (Versão 1.4).
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O Projeto CESP (Capacity Enhancement Support Programme) promove a capacitação em sinergia direta com o SiBBr e o GBIF.
"Desenvolver uma infraestrutura de dados para a sociobiodiversidade exige unir o rigor técnico ao profundo respeito aos saberes originários. Nosso trabalho propõe uma arquitetura que integra iniciativas como a do USEFLORA com plataformas como o SiBBr e o GBIF, sempre protegendo a informação na sua origem", explica o pesquisador Eduardo Dalcin.
A pesquisadora Viviane S. Fonseca-Kruel complementa, destacando a premissa ética dessa inovação: "A tecnologia precisa garantir a autonomia dos povos indígenas sobre seus próprios conhecimentos! Cada passo dessa estruturação tecnológica é pensado para assegurar o protagonismo comunitário e a proteção irrestrita dos direitos das comunidades com as quais buscamos manter um diálogo intercultural e contínuo."
A Salvaguarda e a Coleção Etnobotânica do JBRJ
Toda a informação, os saberes e os materiais botânicos oriundos destas pesquisas não se perdem; enriquecem diretamente a Coleção Etnobotânica do Herbário RB e a Coleção Temática de Plantas Medicinais do JBRJ. Sob a coordenação e curadoria da pesquisadora Viviane S. Fonseca-Kruel, a expansão e o rigor na conservação destes acervos têm contado com colaborações importantes, destacando-se a parceria contínua com o Dr. Carlos Coimbra Júnior.
Essa união de esforços é fundamental para garantir que o Jardim Botânico do Rio de Janeiro seja um espaço ativo de ciência e preservação, abrigando um testemunho vivo, ético e documentado das relações antigas entre as sociedades humanas e a flora do Brasil.
A importância das parcerias
Nenhuma destas ações se constrói isoladamente. O trabalho da Etnobotânica do JBRJ é alicerçado por colaborações robustas, unindo instituições como o MCTI, a base Useflora (UFSC), a Câmara Temática de Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e as plataformas de dados GBIF e SiBBr.
De forma essencial, todas estas frentes de pesquisa, difusão, tecnologia e salvaguarda ganham sentido por meio do relacionamento direto com as organizações indígenas. Destacam-se aqui a histórica aliança com a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e o trabalho desenvolvido com a Associação Indígena Iakiô, do povo Panará.
É por meio desta rede de conexões, que une a escuta ativa nas aldeias, a valorização das línguas originárias, a inovação em dados e a busca pela curadoria de excelência, que o Jardim Botânico do Rio de Janeiro consolida novos caminhos para a proteção conjunta da sociobiodiversidade.

