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Etnobotânica e Diálogos Interculturais: a primeira expedição do JBRJ ao Rio Uaupés no contexto do Projeto Amazônia +10
Voadeira subindo o rio Uaupés | Foto: Viviane Kruel
A primeira grande expedição do subprojeto "Diálogos Interculturais sobre Plantas, Histórias e Saberes", parte integrante do projeto guarda-chuva "Vozes da Amazônia Indígena: Processos Históricos da Sociobiodiversidade frente aos Desafios do Antropoceno", foi realizada entre 8 e 26 de outubro no Rio Uaupés, Alto Rio Negro, Amazonas. Esse projeto, no âmbito da Iniciativa Amazônia +10, é liderado e coordenado pelo Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), por intermédio da pesquisadora Helena Lima, em parceria com mais 70 pesquisadores e diversas instituições de pesquisa, entre as quais o Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), o Royal Botanic Gardens, Kew, e a Birkbeck University, visando integrar conhecimentos indígenas e científicos para gerar subsídios contra a crise socioambiental.
A pesquisadora em Etnobotânica do JBRJ, Viviane Stern da Fonseca Kruel, integrou a equipe a convite e com financiamento do Kew Gardens. O foco da missão foi o Território Indígena do Alto Negro, especificamente as comunidades da etnia Tukano de Taracuá (baixo Uaupés) e Marabitanas (médio Uaupés). A logística de acesso, realizada por voadeira a partir da cidade de São Gabriel da Cachoeira, exigiu longos períodos de navegação e a superação técnica de barreiras naturais, como a transposição da Cachoeira da Ipanuré, destacando a complexidade do trabalho de campo na região.
Metodologia Intercultural e Documentação Histórica - O subprojeto de Etnobotânica adotou uma metodologia de Diálogos Interculturais e Pesquisa Participativa, visando documentar, valorizar e auxiliar na preservação dos conhecimentos tradicionais associados às plantas, histórias e às paisagens. A pesquisa utilizou como base um referencial histórico: um manuscrito original e inédito ("Plantas de uso doméstico") do século XIX, do naturalista inglês Richard Spruce. As informações etnobotânicas pretéritas contidas neste documento foram levadas ao campo para serem contrastadas, atualizadas e expandidas em diálogo direto com os especialistas atuais do povo Tukano.
Resultados Estratégicos e Formação Local - A expedição estabeleceu com sucesso uma relação de confiança e colaboração mútua, formalizada pela assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) com as lideranças das comunidades, assegurando o rigor ético e participativo da pesquisa.
As atividades realizadas tiveram um impacto direto e sustentável na capacitação e documentação:
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Formação de Pesquisadores Indígenas: realizou-se uma Oficina de Coleta e Herborização direcionada aos pesquisadores indígenas e bolsistas do projeto, treinando-os na metodologia científica de coleta, preparação de exsicatas e documentação botânica e etnobotânica.
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Produção Audiovisual Bilíngue: foi iniciado o acervo de Mini-Vídeos Bilíngues (Tukano e Português), nos quais os próprios especialistas documentam o conhecimento tradicional (usos e saberes) de espécies vegetais que eles selecionaram, produzindo um material de importância científica, linguística e cultural, com consentimento para áudio e imagem.
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Oficinas Participativas de Etnobotânica e Formação para Professores Indígenas: além de aulas em escolas locais, promovendo a preservação e a continuidade do conhecimento tradicional para as novas gerações. A doação de materiais didáticos especializados, assim como publicações como o Manual de Etnobotânica no Alto Rio Negro, Guias de Plantas e Artefatos do alto rio Negro e um jogo de tabuleiro (didático) que apoia a educação local.
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Expansão por Multiplicação: foi realizado o treinamento de Especialistas Locais Multiplicadores de comunidades vizinhas (Nova Esperança e Açaí Paraná), estabelecendo uma rede de colaboradores (bolsistas deste projeto) essencial para a expansão geográfica e a autonomia das comunidades na continuidade das atividades etnobotânicas.
Contribuição Científica e Perspectivas - A coleta de material botânico e as informações etnobotânicas obtidas (atualmente em processo de catalogação) fornecerão dados importantes para a compreensão da sociobiodiversidade e da história de manejo das paisagens amazônicas pelos povos originários.
"O JBRJ, ao integrar-se a esta pesquisa, contribui diretamente para a coprodução de conhecimento que busca fortalecer a resiliência socioambiental e os modos de vida dos povos originários diante dos desafios impostos pelo Antropoceno e pelas mudanças climáticas, alinhando a conservação da flora com a preservação dos saberes culturais", afirma a pesquisadora Viviane Kruel.
A região - O Rio Uaupés, na Amazônia brasileira, possui uma importância botânica e etnobotânica de extrema relevância no cenário da pesquisa científica e conservação. Inserido na bacia do Alto Rio Negro, é parte da Terra Indígena do Alto Rio Negro, próximo à fronteira com a Colômbia (onde é chamado de Vaupés). Essa região é um hotspot de biodiversidade, abrigando uma riqueza de espécies, possivelmente muitas endêmicas, e ainda pouco conhecidas para a ciência e que ocorrem em campinaranas (vegetação extensa e de areias brancas), florestas de terra firme e igapós.
Em termos práticos, a atividade de percorrer, coletar plantas e documentar seus usos ao longo do Uaupés visa o registro e a preservação do conhecimento tradicional dos diversos povos indígenas que habitam a região, como os Tukano, Desana, Tariano, Hupda, entre outros, que habitam há milhares de anos essa região. "Esse conhecimento está possivelmente ameaçado de desaparecer - pelas mudanças socioeconomicas, processos históricos e ambientais, pouco incentivo aos mais jovens para a preservação - pois é transmitido oralmente", explica a pesquisadora.
O principal objetivo da pesquisa Etnobotânica e Intercultural na região é detalhar o uso de plantas para fins medicinais (importante para a saúde das comunidades); alimentares (garantindo a subsistência e a segurança alimentar através da valorização da agrobiodiversidade local); e culturais e rituais (profundamente ligados à identidade cultural dos povos).

- O pesquisador indigena Rosivaldo Silva e a pesquisadora Viviane Kruel (JBRJ) no treinamento em coleta e herborização de material botânico na comunidade de Marabitanas (médio Rio Uaupés) | Foto: Lorena França
Historicamente, o Rio Uaupés é um local conhecido por algumas expedições científicas de grandes nomes da botânica, como Richard Spruce (século XIX), cujas coletas serviram para a documentação formal da flora amazônica em herbários globais. Assim, o trabalho de documentação e coleta atual não só dá continuidade a esse legado científico, mas também serve como uma ferramenta essencial para o monitoramento ambiental, para o desenvolvimento de alternativas econômicas sustentáveis baseadas em produtos da floresta e, fundamentalmente, para o fortalecimento cultural e preservação dos conhecimentos das comunidades, valorizando seu manejo ancestral da natureza e impedindo a perda desse inestimável patrimônio biocultural.

- Lúcio, pesquisador indigena do povo Tukano, documentando o conhecimento do arumã, cuja amostra na foto foi depois coletada e herborizada | Foto: Viviane Kruel
Como afluente principal do Rio Negro, o Rio Uaupés desempenha um papel ecológico fundamental na bacia Amazônica. Mais do que isso, ele é a espinha dorsal do Noroeste Amazônico, integrando a estrutura social, a cosmologia, a economia local e a identidade de seus habitantes, e garantindo a continuidade de um dos mosaicos socioculturais e ambientais mais ricos do planeta. "O Uaupés é o eixo estruturante da vida e da cosmologia de povos indígenas, predominantemente da família linguística Tukano Oriental, como os Desana, Kubeo, Pira-Tapuya, e também os Tariana (de língua Aruak), entre outros" explica Viviane Kruel, acrescentando que o ambiente do rio e suas margens sustenta o sistema agrícola tradicional (roças), onde a mandioca é a cultura básica, complementada pela coleta de espécies da floresta e pelo cultivo de frutas nos quintais (como açaí e cupuaçu). O modo de vida tradicional e o profundo conhecimento etnobotânico das comunidades indígenas garantem o manejo sustentável e a conservação da biodiversidade local.
Além de Viviane Stern da Fonseca-Kruel, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, participaram desta primeira expedição os pesquisadores Helena Pinto Lima, Marlia Coelho-Ferreira e Claudia Leonor López-Garcés, do Museu Paraense Emílio Goeldi, Luciana Martins e Lorena França, da Birkbeck, Universidade de Londres, e William Milliken e Lindsay Sekulowicz, do Royal Botanic Gardens, Kew.



