NABURE
Novas Práticas Pedagógicas
A Revista Pihhy dedica este espaço ao fortalecimento da educação intercultural, compreendida como um campo em permanente construção, que se enraíza nas experiências vividas e produzidas a partir das comunidades indígenas e de seus/suas docentes.
Ao reconhecer e apoiar essas trajetórias, reafirmamos o compromisso com práticas pedagógicas que dialogam com os territórios, os saberes ancestrais e os desafios contemporâneos da formação indígena.
Nesta edição, a seção "Novas Práticas Pedagógicas" apresenta o método do Tema Contextual, criado no âmbito do Curso de Educação Intercultural, do Núcleo Takinahaky pela professora Maria do Socorro Pimentel, grade referência latinoamericana neste campo educativo.
A proposta nasce da escuta sensível às realidades locais e da construção coletiva do conhecimento, valorizando a oralidade, os contextos comunitários e as linguagens diversas que atravessam os processos de ensino e aprendizagem indígena.
O método do Tema Contextual se consolida como uma prática pedagógica que respeita os tempos, os modos e os sentidos próprios de cada povo, promovendo interações intra e interculturais, baseadas no diálogo e na autonomia dos sujeitos educativos e, especialmente, da comunidade.
Ao trazê-lo para esta edição, buscamos inspirar outras experiências e reflexões no campo da educação indígena, reafirmando a potência das práticas que emergem dos territórios.
Autores:ELIANE ENEMARE
RAFAEL JOWARE EMIJERA
MARIA LINA TORIEDO
CLEIDE KUOGOYTOUDO
Escola Municipal Indígena Leonídio Fermau.
Escola Estadual Indígena Korogaru.
TURMA
2º ano do ensino médio
PROBLEMATIZAÇÃO
A escolha deste tema a ser ministrado na escola se deve ao fato de que a nabure (arara vermelha) está cada vez mais difícil de ser encontrada em nossa região, devido ao desmatamento que vem ocorrendo no entorno da nossa Terra Indígena Boe Bororo e aos grandes impactos sociais que atingem as aldeias — como o futebol, o uso de celular, internet, televisão, amizades externas à comunidade, jogos eletrônicos, entre outros.
No entanto, ao vivenciar esse cenário, a comunidade vai se afastando dos saberes do nosso povo Boe.
Esses impactos causam danos enormes e incalculáveis, pois atuam de forma silenciosa e despercebida, dando a impressão de que está tudo bem.
Atualmente, os Bororo estão distribuídos em duas principais regiões: a Terra Indígena Tadarimana, próxima ao município de Rondonópolis, a Terra Indígena Meruri e adjacências, onde está o povoado de Meruri. Outras terras reconhecidas incluem Jarudore, Garças, Umutina.
A língua Bororo pertence à família linguística Bororo, um ramo isolado da macrofamília Macro-Jê. Ela ainda é falada por uma parcela significativa da população, mas corre riscos de enfraquecimento.
Com isso, nasce um comportamento preocupante: o de não valorizar mais nossa especificidade cultural — como a confecção do arco e flecha, cocar, adornos e enfeites — e todo o conhecimento relacionado à nabure.
Nesta atividade, abordaremos a importância da arara vermelha para nós, Bororos.
Esta ave possui um papel fundamental nos rituais, adorno, batizado e ritos fúnebres. Dentro da organização social Boe Bororo, ela pertence à primazia do sub clã do grande clã do sul, Tugarege.
Segundo a história dos Boe Bororo, os animais foram criados com a subida dos meninos ao céu, como explica o bakaru Bororo.
Diante dessa especificidade do nosso povo Boe, trabalharemos com este tema, com ênfase especial na ave conhecida como nabure.
A nabure é uma ave de grande valor, pois de suas penas da cauda se confeccionam o pariko (cocar), boro (saia de penas), kiogwaro (adorno de cabeça), além de adornos para os braços e para o mano (caite do brejo).
É utilizada em danças como o akurararewu, em ritos fúnebres, e também em representações dos aroe, como o Itubore e o Bakororo, entre outros. A viseira (boe ekejewu) e a ornamentação do jaro (baquité grande onde são colocados os crânios dos entes queridos), localizada na parte superior do jaro, também fazem uso dessas penas.
As penas das asas são utilizadas na ornamentação dos baiga (arcos) e tugo (flechas).
As boe aro — penas menores localizadas na parte inferior das asas — são empregadas no kiogwaro, boro, brincos, aiagareboe, entre outros. As penas pequenas são usadas nos adornos de batizado, na ornamentação dos baiga, no bakaraia (tipo de colar), e em outros enfeites que não são exatamente adornos, mas fazem parte da ornamentação de crânios funerários Boe Bororo.
Em nossa cultura Boe Bororo, normalmente não nos alimentamos dessa ave, pois ela é considerada muito sagrada.
Existe uma forte ligação espiritual entre nós e a nabure.
Acreditamos que, em certos casos, os aroe podem se transformar nesta ave, para reviver o mundo próximo de nós.
Quando sonhamos com essa ave, entendemos como uma mensagem — geralmente de alerta — para nossa aldeia. E, quando a vemos em alguma árvore e ela desaparece num piscar de olhos, também interpretamos como uma mensagem que apenas o bari (pajé) ou os aroe etowarare (espíritos das almas) podem decifrar.
Todos esses conhecimentos foram pesquisados e reconstruídos em diálogo com sábios, anciãos e anciãs da comunidade, que os transmitem por meio da oralidade e das narrativas que atravessam gerações.
OBJETIVOS
A escolha deste tema contextual é de grande importância para fortalecer os conhecimentos culturais do povo Boe, especialmente sobre a arara nabure.
Muitos pais e jovens da comunidade ainda desconhecem essas especificidades e os significados cosmológicos ligados à ave.
Demonstrar que todo tipo de adorno confeccionado com penas da nabure tem relação de pertencimento com o sub clã de primazia Arore, inclusive nos nomes que derivam desta ave.
Ressaltar a forte conexão da nabure com os encantados e com a própria vida.
Despertar, por meio das atividades escolares, a valorização dos saberes tradicionais do povo Boe nas comunidades.
As atividades serão desenvolvidas com os alunos, enfatizando o conhecimento sobre a arara nabure e sua importância no mundo Boe, por meio da oralidade, representações em desenho, nomeação dos elementos em língua materna e aulas práticas: confecção de flechas com os meninos e de brincos com as meninas.
Essas ações serão realizadas em sala de aula, no Bororo, no baito e em outros espaços da comunidade, valorizando sempre a sabedoria ancestral e os modos de ensinar do nosso povo.
PESQUISA
Será realizada uma pesquisa participativa com base em entrevistas com anciãs, anciãos e especialistas da comunidade Boe que dominam os conhecimentos tradicionais sobre a confecção de adornos e enfeites ligados à nabure (arara vermelha).
O objetivo é detalhar os significados e usos desses elementos na língua materna, resgatando suas origens e importância cosmológica, social e espiritual para o povo Boe.
A pesquisa também buscará compreender por que cada sub clã possui primazias específicas, especialmente no uso de certos animais e penas. Será investigado se existe algum bakaru (narrativa tradicional, mito de origem) que explique a distribuição dos animais entre os clãs e subclãs do povo Boe.
Essa abordagem permitirá aprofundar o entendimento sobre a organização social Boe, fortalecendo a valorização e transmissão dos saberes ancestrais entre as gerações.
A coleta dessas informações será feita com profundo respeito à oralidade e aos modos tradicionais de ensino, e será registrada com autorização das pessoas consultadas, garantindo que os conhecimentos sejam preservados e compartilhados conforme os protocolos culturais da comunidade.
CRONOGRAMA
As atividades serão organizadas em cinco aulas, reforçando atividades práticas e comunitárias, de acordo com o seguinte cronograma:
| Dia da Semana | Segunda-feira | Terça-feira | Quarta-feira | Quinta-feira | Sexta-feira |
|---|---|---|---|---|---|
| Tipo de Atividade | Atividade de exposição | Problematização na escola | Atividade junto a um ancião no pátio | Atividade prática na escola | Atividade com pessoas da comunidade na escola e no território |
| Detalhamento da Atividade | Apresentar o tema aos estudantes e explicar a importância da arara nabure na língua materna e na formação e valorização da mesma. O quanto a utilização é importante para o equilíbrio cosmológico da comunidade Boe. | Importância das araras e suas penas para o povo Boe; às mais usadas no nosso dia-dia. | Oficina para confeccionar as flechas e os brincos com a presença dos anciãos. | Reunir com os pais e alunos para troca de conhecimentos e saberes na escola e em outros espaços na comunidade Boe. Expondo os materiais produzidos pelos alunos na oficina para possíveis questionamentos para uma construção em grupo para melhoria do tema abordado, ficando assim mais rico, buscando novas ideias e saberes sobre o mesmo. | Apresentação dos trabalhos produzidos para o corpo escolar, pais e a comunidade, conduzida pelos professores e alunos, na presença do ancião e outras pessoas sábias. |
| Recursos Necessários | Quadro, caderneta, lápis, caneta, borracha, cartolina e lápis de cores. | Roda de conversa e trocas de ideias e caderno para as anotações. | Materiais: penas, linha, taquarinha, tesoura, faca e outros. | Caderno de anotações, lápis, celular. | Apresentar os desenhos, fotos, vídeos, relatos produzidos sobre o tema, material produzido na oficina. |
Calendário Socionatural
Este tema contextual será desenvolvido durante a época do pequi, que ocorre no período das chuvas, geralmente entre os meses de dezembro e janeiro.
É uma época em que muitos animais aparecem com mais frequência, como sapos, cobras, mosquitos, entre outros. A vegetação se destaca com a cor verde intensa, e muitos alimentos se tornam disponíveis para diversas espécies.
Nesse período, os animais são mais facilmente avistados, incluindo a nabure (arara vermelha), tornando-se uma época propícia para a caça. No entanto, a caça da nabure tem se tornado um problema sério para o povo Boe, pois membros da própria comunidade têm buscado essa ave para caçar e vender suas penas, o que tem causado a diminuição significativa de sua presença em nosso território.
Como alternativa de preservação, propõe-se criar a nabure como animal de estimação, o que possibilita coletar suas penas de maneira respeitosa, sem causar dano à ave. Essa prática pode contribuir para a preservação da espécie e para o fortalecimento dos saberes e práticas tradicionais Boe ligados a essa ave sagrada.
Avaliação
A avaliação dos(as) estudantes será realizada de forma contínua e participativa, considerando os seguintes critérios:
Participação e interação com o tema
Acompanhamento do envolvimento dos alunos nas discussões orais, nas atividades práticas e nos questionamentos apresentados ao longo do processo.
Observação individual e coletiva
Avaliação do desenvolvimento dos trabalhos em grupo, com atenção à colaboração, respeito mútuo e escuta ativa. Também será considerada a autonomia e contribuição individual para o coletivo.
Oralidade e apresentação final
Durante as apresentações das atividades, será observada a tranquilidade nas falas, o domínio do conteúdo abordado e a capacidade de articulação das ideias, valorizando a expressão na língua materna sempre que possível.
Linguagens: áudio/oralidade, escrita, vídeos e fotografia.