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Do primeiro aperto de mão ao contrato assinado: os caminhos que cruzaram as 3.700 rodadas de negócios do MICBR
Foto: Victor Vec/MinC
Na tenda de rodadas de negócios, o coração pulsante do MICBR+Ibero-América, o som das negociações nunca cessou. Foram 3.700 rodadas oficiais conduzidas por 600 empreendedores nacionais e de 29 países, movimentando a maior edição do evento desde sua criação. E o número real, considerando reuniões improvisadas, é ainda maior.
Segundo a diretora de Desenvolvimento Econômico da Cultura da Secretaria de Economia Criativa do MinC, Patrícia Albernaz, isso vai além dos números. “As pessoas chegaram para fazer negócios e saíram com parcerias, circuitos, turnês, futuros possíveis. Existe um calor humano no MICBR que transforma reuniões em caminhos de longo prazo.”
A economia criativa se derramava por todos os lados. Um produtor de hip-hop do Sul cruzava o caminho de uma programadora da Catalunha; uma curadora de dança do Distrito Federal esbarrava em um empreendedor de jogos da Bahia; empresários mexicanos discutiam datas para 2027 enquanto dois compradores do Uruguai articulavam projetos de artes visuais. Entre essa multidão, três trajetórias sintetizaram a energia, o risco e a beleza desses encontros.
Julianna Sá: tecendo pontes invisíveis
A empresária musical Julianna Sá chegou ao MICBR com a serenidade de quem conhece cada curva de sua estrada e com a consciência de que o país precisou reconstruir o setor cultural nos últimos anos. À frente da Dobra Música, que representa Iara Rennó, Maria Beraldo e Luiza Brina, Julianna impressionou não só pelo catálogo, mas pelo modo de criar ligações consistentes.
Nos três dias, fez 13 rodadas oficiais e outras 12 espontâneas. Distribuía cartões enquanto falava sobre sustentabilidade de carreiras e novos modelos de circulação. Não buscava “qualquer negócio”, mas os que realmente fizessem sentido.
“Um encontro como esse acelera meses, talvez anos de troca no mercado”, resumiu. Entre uma reunião e outra, percebeu algo que não entra nos formulários: “Existe um afeto diferente. As pessoas estão calorosas, dispostas a negociar de forma flexível.”
Os showcases também atravessaram seu percurso: uma das artistas que agencia tem show hoje, no palco Acelera MICBR, do Festival Elos. “Todo mundo pergunta se tenho artistas no showcase. Isso cria um interesse real e ajuda a fechar o ciclo entre conversa e palco.”
Os caminhos abertos nesses três dias já produziram horizonte. “No México, estamos com planos sólidos para 2027”, contou. No curto prazo, festivais como Carambola (Maceió) e Timbre (Uberlândia) já entraram no radar: “Sentamos e afinamos o que faltava para acontecer.”

Coletivo CIDA: quando a dança chega antes dos dançarinos
Representantes do Rio Grande do Norte, o Coletivo CIDA viveu uma das experiências mais robustas entre os empreendedores de dança: 12 rodadas realizadas — com direito a uma substituição de última hora, que também deu certo.
Logo no início, René Loui sintetizou o propósito do grupo: “A gente não está aqui vendendo nada. Estamos pensando em conexões.” A aposta em diversidade e acessibilidade, presente tanto na trilogia da tragédia quanto nas residências artísticas, encontrou eco imediato nos compradores: “Todos já conheciam nosso trabalho. Isso muda o modo como a gente fala e aproxima o que acontece na mesa da realidade do palco.”
No segundo dia, a engrenagem se alinhou: “Depois de ontem, a gente aprendeu a escutar melhor. A dinâmica ficou mais clara.” A expectativa virou entusiasmo: “Os compradores estão muito interessados no nosso material. A gente acha que coisas boas vão rolar.”
No último dia, exaustos e radiantes, comemoraram: “As relações estão se estabelecendo com força. Para 2026 ainda é cedo, mas 2027 já tem laço firmado — nacional e internacional.”

- Foto: Anajú Tolentino/MinC
DJ Raffa Santoro: quatro décadas depois, mais uma primeira vez
No encerramento da feira, quem cruzava o corredor do Hip-hop via um veterano do Distrito Federal fechar mais um negócio. Com 41 anos de carreira, DJ Raffa Santoro caminhava com a leveza de um estreante e a precisão de quem já viveu muito — mas o MICBR lhe trouxe uma experiência inédita.
Ele fechou contrato na quinta, outro na sexta e mais um hoje. Nos intervalos, costurou duas negociações informais surgidas de conversas rápidas, caneta na mão e celular aberto. O hip-hop que carrega desde os anos 1980 se manifestava em cada frase: seu ponto de cultura no DF, o trabalho com Atitude Feminina, as oficinas nas periferias.
“Tem gente que pensa que o hip-hop é só juventude. Mas estar aqui é a prova de que ele é longevidade também”, disse. E o encontro com a cena de Fortaleza abriu portas inesperadas: “Conheci trabalhos daqui no painel e já coloquei meu ponto de cultura à disposição para intercâmbios.”
Ao final, a direção estava clara: criar uma ponte estruturada entre Brasília e o Nordeste, impulsionando a circulação de artistas independentes e ativando casas de cultura. O MICBR devolveu a ele algo raro: uma nova largada. “Os intercâmbios são para isso. Fortaleza está sendo sensacional.”

Quando os números não dão conta
A soma dessas narrativas ilumina algo que os números — por maiores que sejam — não conseguem traduzir sozinhos. O MICBR foi um território de revelações: a produtora carioca que descobriu o marabaixo amapaense; o executivo europeu que abriu portas para cinquenta cidades; o jovem artista da Baixada Fluminense apontado por compradores como nome urgente da cena; as mulheres quilombolas que levaram o Cariri para o palco.
O outro lado da mesa
No segundo corredor das rodadas, entre pitches acelerados e cartões empilhados, havia uma mesa onde as conversas pareciam sempre durar um pouco mais. Ali, Amanda Souza, diretora de negócios da BONOXS — empresa de jogos sediada em Londres, com operação no Brasil e em outros mercados da América Latina — descobria um MICBR que, como ela descreveu, “não se parece com nenhum outro evento de games que eu já participei”.
Era sua primeira vez no encontro brasileiro de economia criativa. Chegou movida pela curiosidade e saiu com uma agenda acima de qualquer expectativa: 26 reuniões em três dias — e a impressão de que “pelo menos 50% disso deve virar negócio”.
Mas não foi só o volume. Foi a substância. “Eu fiquei bastante chocada com a questão da criatividade”, disse. “Eles estão trazendo a brasilidade para dentro do jogo — cultura, folclore, personagens específicos. Eu estou há 12 anos nesse mercado e nunca tinha visto isso desse jeito.”
Amanda encontrou no MICBR uma confluência rara entre setores: games atravessados por audiovisual, música, animação, artes visuais e até patrimônio imaterial. “Eu fui impactada por alguns pitches do audiovisual”, contou, citando a integração entre trilhas sonoras, narrativas e estética visual. “É um cross que eu não tinha visto antes, nem na Gamescom Latam, nem na Brasil Game Show.”
Quando os últimos papéis foram recolhidos e o burburinho perdeu força, a tenda finalmente silenciou. Mas no ar ficou a vibração de encontros que seguem vivos — porque no MICBR as conversas começam como negócios, mas terminam como futuros possíveis.

- Foto: Anajú Tolentino/MinC
MICBR+Ibero-América
A edição 2025 é uma realização do Ministério da Cultura, correalização da Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), do Governo do Estado do Ceará, por meio da Secult Ceará, e da Prefeitura de Fortaleza, por meio da Secultfor.
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