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"Não há antagonismo entre desenvolvimento ambientalmente amigável e crescimento econômico", diz cientista vencedora do Prêmio Álvaro Alberto
A bióloga Maria Teresa Fernandez Piedade, do INPA, recebeu o prêmio Almirante Álvaro Alberto no dia 07 de maio, em cerimônia na Escola Naval da Marinha, no Rio de Janeiro. - Foto: Lucas Santos / CNPq
A pesquisadora titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e e bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Maria Tereza Fernandez Piedade, acredita que a água, cuja escassez vem sendo motivo de grande preocupação nacional e mundial, está “em uma encruzilhada onde decisões críticas devem ser tomadas como prioridade e a ciência e a educação são o caminho para orientar isso”.
“Vivemos um momento no qual os ambientes em geral, e os amazônicos em particular, vêm sendo fortemente impactados pela mudança climática associada a eventos antrópicos deletérios. Entre esses ambientes, centralizam muitos estudos as áreas úmidas amazônicas, que constituem quase 30% da região, com seus rios, planícies alagadas e corpos de água associados, que vêm sendo intensamente degradados. Incêndios, derrubadas de florestas marginais, grandes empreendimentos e poluição, entre outros, colocam em risco esses ecossistemas vitais e, mais do que tudo, a água a eles associada”, explicou.

- Entrega do prêmio Almirante Álvaro Alberto, na Escola Naval da Marinha, no Rio de Janeiro. (Foto: Lucas Santos / CNPq)
No mesmo evento, foram entregues títulos de pesquisador emérito para Aldina Maria Prado Barral, Alvaro Toubes Prata, Margarida Lopes Rodrigues de Aguiar-Perecin, Marilene Correa da Silva Freitas, Silvio Roberto de Azevedo Salinas e Zelinda Margarida de Andrade Nery. Também foram entregues menções especiais de agradecimento ao Ministério das Mulheres, à Embaixada da França no Brasil, a Marcio de Araújo Pereira e a Mitzi Gurgel Valente da Costa, além da posse de novos membros da Academia Brasileira de Ciências.
A vencedora do Prêmio Álvaro Alberto destacou que apenas com uma economia mais diversificada, que contemple todos os segmentos da sociedade, será possível vislumbrar um futuro otimista, especialmente para a Amazônia. “Com o suporte das agências de fomento nacionais, e eu digo em particular o CNPq, mas também as fundações estaduais e outros organismos, as bases para políticas públicas derivadas do conhecimento científico e investimento na formação de jovens cientistas podem prevalecer. Assim, não apenas a pesquisa irá florescer, como poderemos mostrar ao mundo que não há antagonismo entre desenvolvimento ambientalmente amigável e crescimento econômico.”

- Entrega do prêmio Almirante Álvaro Alberto, na Escola Naval da Marinha, no Rio de Janeiro. (Foto: Lucas Santos / CNPq)
Maria Tereza trabalha há quase 50 anos na Amazônia, desenvolvendo pesquisas sobre ecologia, em especial a de ecossistemas, com foco na influência do pulso de inundação na biota e interações, manejo sustentável e monitoramento de áreas alagáveis. A pesquisadora também tem pesquisas em produção primária, balanços de carbono e ecofisiologia de espécies arbóreas e de plantas aquáticas.
Excelência, equidade, sustentabilidade e soberania
A ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos, disse que o trabalho da professora Maria Teresa expressa a força das mulheres na ciência. "A vitória da doutora Maria Teresa mostra que a produção de conhecimento no Brasil é cada vez mais diversa e plural.”
Luciana Santos explicou que as mulheres representam maioria na área acadêmia, com exceção das áreas de engenharias, ciências exatas e ciências da computação. “No entanto, nas bolsas produtividade nós afunilamos para 30% da presença das mulheres, o que significa que a preeminência e a ascensão de mulheres na ciência ainda é um desafio".
O presidente do CNPq, Olival Freire Jr., afirmou, na cerimônia, que a busca de um novo projeto de desenvolvimento econômico para um país soberano está relacionada com a busca por equidade social preocupada com a sustentabilidade. “Tudo isso em um cenário de fortalecimento da democracia, desafio cada vez mais atual no mundo cercado de perigos em que estamos vivendo.”
Para Freire, o prêmio concedido a Maria Tereza Piedade tem muito significado e veio em momento especial. “Neste mundo carregado de perigos, não só perigos de guerra, mas de ameaças às soberanias dos países, nós nomeamos uma mulher que dedicou a sua vida à pesquisa sobre a biodiversidade na região amazônica. E que o fez em uma instituição do Estado brasileiro localizada na região amazônica. Isso é uma mensagem para o Brasil e para o mundo”, afirmou.

- Entrega do prêmio Almirante Álvaro Alberto, na Escola Naval da Marinha, no Rio de Janeiro. (Foto: Lucas Santos / CNPq)
A mensagem, segundo o presidente do CNPq, é que a defesa da soberania brasileira na região passa necessariamente pelo desenvolvimento do conhecimento científico sobre a realidade da Amazônia. “No desenvolvimento desse conhecimento científico, o Estado brasileiro tem um enorme papel e vem desenvolvendo e deve desenvolver de maneira ainda mais significante.”
O almirante de esquadra Arthur Fernando Correa falou sobre a trajetória do almirante Álvaro Alberto, oficial da Marinha que foi um dos fundadores do CNPq e primeiro presidente da instituição, que completa 75 anos em 2026, e de sua visão de defessa da soberania, associando este conceito à ciência e tecnologia. “Sua visão estratégica e sua ação institucional traduzem com serenidade e firmeza o compromisso do Brasil com a ciência como instrumento de autonomia, desenvolvimento e afirmação soberana.”
Para o militar, “não há capacidade estratégica autônoma, sem pesquisa, inovação, capacitação tecnológica e formação de recursos humanos de excelência. No mar, na Amazônia, na Antártida, no Pantanal e nos campos da energia, saúde, informação, inteligência artificial e tecnologias críticas, a ciência amplia a presença do Estado, fortalece a capacidade nacional de resposta e converte conhecimento em proteção da sociedade.”
Nova Estratégia Nacional de CT&I

- Entrega do prêmio Almirante Álvaro Alberto, na Escola Naval da Marinha, no Rio de Janeiro. (Foto: Lucas Santos / CNPq)
Durante o evento, a ministra Luciana Santos fez o lançamento da nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação para o decênio 2024-2034, que tem como lema “Ciência, Tecnologia e Inovação para um Brasil justo, desenvolvido e soberano”.
A ENCTI é resultado da da 5ª Conferência em Ciência, Tecnologia e Inovação, que teve a participação de mais de 100 mil pessoas de todo o pais, com 290 pontos levantados e já havia resultado na publicação de 3 e-books e dos livros Lilás e Violeta, bem como na constituição de grupos de trabalho para consolidação de recomendações e realização de consultas públicas. “A ECTI é um instrumento de Estado”, afirmou a ministra.
A ECTI é dividida em quatro eixos: Eixo 1 - expansão, consolidação e integração do Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia; Eixo 2- inovação industrial e garantir a reindustrialização de novas práticas; Eixo 3 - projeto estratégico para soberania nacional e Eixo 4 - CT&I para o desenvolvimento social.