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Programa SinBiose entra em nova fase e consolida a ciência de síntese no Brasil
Cânions dos Aparados da Serra, no Sul do Brasil, formam um mosaico de ecossistemas associados a gradientes altitudinais e microclimáticos, com vegetação de Mata Atlântica e campos de altitude moldados pela dinâmica da paisagem. - Foto: Fernando Pinheiro
Criado para promover pesquisas interdisciplinares voltadas a desafios socioambientais complexos, o Programa SinBiose, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), iniciou uma nova fase marcada pela expansão temática, ampliação das parcerias institucionais e fortalecimento da ciência de síntese no Brasil. A segunda chamada do Programa, lançada em 2025, selecionou oito projetos de síntese do conhecimento e um de comunicação científica que se iniciam este ano, consolidando uma iniciativa que, desde sua criação em 2019, vem articulando pesquisadores de diferentes áreas em torno da produção de conhecimento voltado à tomada de decisão e às políticas públicas.
As sínteses do conhecimento, no contexto do SinBiose, integram dados, métodos e perspectivas já existentes para gerar novos conhecimentos sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos. A proposta é transformar informações dispersas em subsídios práticos para a tomada de decisão, aproximando pesquisadores e gestores públicos na busca por soluções para desafios socioambientais urgentes do Brasil.
O amadurecimento do programa se refletiu no crescimento da demanda e na diversidade de temas contemplados. Enquanto a primeira chamada, lançada em 2019, recebeu 68 propostas e apoiou sete projetos, a nova edição contabilizou 157 submissões envolvendo mais de 2,3 mil pesquisadores de 91 instituições.
“Essa grande procura demonstra o sucesso do programa. Os projetos da primeira chamada mostraram para o Brasil o potencial da ciência de síntese”, afirmou o coordenador do Comitê Científico do SinBiose, Jean Paul Metzger, coordenador do comitê científico do Sinbiose, durante a reunião de alinhamento dos projetos realizada em março.
Além do aumento na procura, o Programa também ampliou seu orçamento e passou a contar com novas parcerias institucionais, incluindo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP). Como resultado do envolvimento do CONFAP, o CNPq acaba de celebrar o Acordo de Cooperação Técnica com a FAPEAM para cofinanciamento de um dos projetos.
Segundo a diretora científica do CNPq, Mônica Felts, a continuidade do SinBiose representa um esforço para consolidar programas estruturantes de pesquisa no país. “É necessário que a pesquisa tenha continuidade, que as pessoas consigam planejar suas ações e seus projetos. O SinBiose é muito mais do que um projeto isolado. É um Programa estratégico para o CNPq”, destacou Felts.
Nesta nova fase, o Programa também ampliou o escopo dos temas abordados. Se na primeira chamada os projetos estavam mais concentrados em biodiversidade, serviços ecossistêmicos, saúde única e Amazônia, a nova seleção incorpora temas como fogo, cidades resilientes, carbono azul, justiça de dados e conhecimentos tradicionais quilombolas.
Entre os projetos aprovados estão iniciativas voltadas à dinâmica do fogo em ecossistemas sul-americanos, às relações entre biodiversidade e saúde pública na Amazônia, à adaptação climática em cidades brasileiras e à conservação de áreas úmidas amazônicas. Dois projetos selecionados representam desdobramentos diretos da primeira fase do programa: o Regenera Amazônia, voltado à regeneração florestal, e o Cesam, focado em saúde única, também na Amazônia.
Para a secretária executiva do SinBiose no CNPq, Marisa Mamede, a nova chamada reflete também um amadurecimento conceitual da proposta do Programa, especialmente no fortalecimento da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade. “O foco em políticas públicas coloca desafios específicos e exige um modelo de funcionamento diferente das linhas tradicionais de financiamento à pesquisa”, explicou Mamede.
A chamada atual também incorporou um projeto transversal de comunicação científica, voltado a ampliar o diálogo entre ciência e tomada de decisão. A iniciativa busca fortalecer a apresentação dos resultados científicos para gestores públicos e outros setores da sociedade.
Ações Concretas
Desde sua criação, o SinBiose vem apoiando projetos que integram grandes bases de dados ecológicos, ambientais, epidemiológicos e socioeconômicos para responder a questões complexas relacionadas à biodiversidade, mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável. Entre os resultados da primeira fase estão a criação de bases de dados inéditas, a publicação de artigos científicos de alto impacto e a produção de policy briefs voltados a formuladores de políticas públicas.
Alguns desses resultados já influenciaram ações concretas. O projeto Regenera Amazônia, em sua primeira fase, contribuiu para a construção de critérios incorporados em uma instrução normativa do Ibama sobre regeneração natural. Já estudos do projeto Synergize embasaram chamadas voltadas a expedições científicas na Amazônia. O programa também contribuiu para a criação de novos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) e redes de pesquisa.
Outro marco desta nova etapa é a inserção internacional do programa. Seis projetos do SinBiose passam a integrar uma ação global sobre biodiversidade e mudanças climáticas que reúne centros de síntese de países como Alemanha, Canadá, Reino Unido, Estados Unidos, Noruega e África do Sul.
Para Metzger, o fortalecimento da ciência de síntese no Brasil depende justamente da consolidação de iniciativas permanentes e articuladas. “A síntese se agrega às outras formas de produção do conhecimento. Esperamos que o sucesso do SinBiose ajude a estruturar esse eixo de financiamento dentro do CNPq”, afirmou.
Ao longo dos próximos três anos, os grupos participarão de encontros virtuais e seminários presenciais voltados à integração entre projetos, capacitação e discussão de desafios comuns relacionados à produção de conhecimento interdisciplinar e sua aplicação em políticas públicas.
Por Paula Drummond