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Francilene Garcia, presidente da SBPC: "Celebrar 75 anos do CNPq é reafirmar um projeto de país"
A presidente da SBPC, Francilene Garcia. - Foto: Jardel Rodrigues/SBPC
"Fortalecer o CNPq significa garantir financiamento estável, valorizar as carreiras científicas, ampliar oportunidades para jovens pesquisadores e reconhecer a pesquisa básica como o ponto de partida de toda inovação relevante. Significa, também, integrá-lo a uma visão mais ampla de desenvolvimento, em que ciência, tecnologia e política pública caminhem de forma coordenada." É o que afirma Francilene Procópio Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, entidade fundamental para o estabelecimento e a manutenção de condições para a atividade científica no país. Parceira histórica desde a fundação do CNPq, a SBPC reafirma os laços com o Conselho, neste ano comemorativo, com um artigo em que sua presidente revisita e analisa uma história de 75 anos de luta pela afirmação da produção científica nacional, reconhecendo a importância do CNPq enquanto ente promotor de oportunidades para cientistas na longa duração.
Leia o artigo na íntegra:
Há países que tratam a ciência como um custo. Outros a reconhecem como investimento. E há aqueles que compreendem algo ainda mais profundo: que a ciência é condição de soberania.
Essa compreensão orienta o Brasil há décadas, mesmo quando, em períodos recentes, foi colocada à prova por contextos que desafiaram a valorização do conhecimento. Foi com essa convicção que, em 1951, sob a liderança do Almirante Álvaro Alberto, nasceu o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Não como um órgão burocrático, mas como um instrumento estratégico de Estado, uma aposta no conhecimento como fundamento do desenvolvimento nacional.
Celebrar seus 75 anos, portanto, é muito mais que um gesto de memória. É um exercício de avaliação e, sobretudo, de escolha. Porque o lugar da ciência no Brasil segue sendo, ainda hoje, um tema que exige reafirmação permanente.
Ao longo dessas sete décadas e meia, o CNPq esteve no centro da formação de gerações de pesquisadores, da consolidação de áreas científicas, da estruturação de redes de pesquisa e da produção de conhecimento que impacta diretamente a vida da sociedade brasileira. Mais do que um órgão de fomento, tornou-se um dos pilares do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação – um instrumento contínuo de construção de futuro.
É também nesse papel que reside uma de suas contribuições mais singulares: o CNPq é a instituição que conecta os projetos individuais de pesquisadores ao projeto de nação. Ao apoiar trajetórias, ideias e agendas de pesquisa, o CNPq transforma vocações individuais em capacidade coletiva, articulando conhecimento, desenvolvimento e soberania.
Desde sua criação, o CNPq exerceu papel central na coordenação da política científica nacional em seus primórdios, contribuindo para a organização das bases institucionais da ciência brasileira. Nesse processo, teve papel decisivo na criação e consolidação das primeiras unidades de pesquisa no país, estruturando capacidades científicas em áreas estratégicas. Ao longo do tempo, também foi pioneiro na criação de instrumentos e ambientes institucionais de apoio à inovação, na aproximação entre ciência e setor produtivo e na formulação de políticas voltadas à redução das assimetrias regionais, ampliando o acesso à produção científica em todo o território nacional.
Essa trajetória, no entanto, não começa em 1951. Antes mesmo da criação do CNPq, a comunidade científica brasileira já havia dado um passo decisivo com a fundação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em 1948. Entre seus fundadores, José Reis ajudou a estabelecer que a ciência não poderia ser apenas produzida: ela precisava ser compartilhada, compreendida e defendida pela sociedade.
A criação da SBPC preparou o terreno político e intelectual que possibilitou o surgimento de instituições estruturantes como o próprio CNPq. Desde então, o Conselho e a SBPC passaram a compartilhar uma trajetória profundamente articulada, unindo Estado e comunidade científica na construção de uma agenda comum para o Brasil.
Essa construção coletiva foi marcada por grandes nomes da ciência brasileira. Cesar Lattes projetou o país no cenário internacional ao participar da descoberta do méson-pi, demonstrando que a ciência feita no Brasil poderia dialogar em alto nível com o mundo. José Leite Lopes, além de suas contribuições à física teórica, foi um dos mais consistentes defensores de um sistema nacional robusto de ciência e tecnologia, articulando pensamento científico e projeto de desenvolvimento.
Carolina Bori, primeira mulher a presidir a SBPC, consolidou a entidade como uma das principais vozes públicas da ciência brasileira, especialmente em um momento em que a democracia se reconstruía e o país escrevia, com toda a sociedade, uma nova Constituição Federal. Sua atuação reafirmou que fazer ciência também é assumir responsabilidades com a soberania e a justiça do país e que instituições como o CNPq são essenciais para sustentar esse compromisso no longo prazo.
Ao longo das décadas, a SBPC esteve presente nos momentos decisivos que moldaram o sistema de ciência e tecnologia, na defesa da liberdade acadêmica, na luta pela institucionalização do financiamento público, na criação e fortalecimento de instituições como o CNPq e a CAPES e, mais recentemente, na defesa do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT). Em todos esses momentos, o CNPq não foi apenas uma instituição a ser preservada, mas um símbolo do compromisso nacional com o conhecimento.
Esse compromisso foi colocado à prova em diferentes momentos. Um dos mais marcantes ocorreu em 2019, quando a comunidade científica brasileira, articulada pela SBPC e por diversas entidades, reuniu mais de 1 milhão de assinaturas em defesa da ciência, do CNPq e do financiamento público à pesquisa. Não se tratava apenas de reagir a cortes orçamentários. Tratava-se de afirmar que a ciência é um bem público e que sua defesa mobiliza a sociedade.
Aquele episódio foi emblemático para revelar o quanto a ciência brasileira ultrapassou os limites dos laboratórios. Ela se firmou como uma causa social. Uma causa que conecta educação, saúde, desenvolvimento econômico, redução de desigualdades e fortalecimento da democracia.
Ainda assim, os desafios persistem. A história do CNPq é também marcada por descontinuidades, instabilidades e pela necessidade permanente de reafirmar a ciência como prioridade de Estado. Celebrar seus 75 anos exige reconhecer esse paradoxo: uma instituição estratégica, mas ainda submetida a ciclos de incerteza.
O Brasil de hoje enfrenta transformações profundas, digitais, ambientais, energéticas e sociais, que exigem respostas baseadas em conhecimento. A transição para uma economia de baixo carbono, a soberania digital, o enfrentamento das desigualdades e a reindustrialização em novas bases dependem diretamente da capacidade científica e tecnológica do país.
Fortalecer o CNPq significa garantir financiamento estável, valorizar as carreiras científicas, ampliar oportunidades para jovens pesquisadores e reconhecer a pesquisa básica como o ponto de partida de toda inovação relevante. Significa, também, integrá-lo a uma visão mais ampla de desenvolvimento, em que ciência, tecnologia e política pública caminhem de forma coordenada.
A presença histórica da SBPC ao longo dessas décadas reafirma que a ciência brasileira é construída de forma coletiva, por instituições, por lideranças que ajudaram a moldar seus caminhos, e por uma sociedade que, quando convocada, responde.
Celebrar os 75 anos do CNPq, portanto, é mais do que celebrar uma instituição. É reafirmar um projeto de país. Um país que compreende que não há desenvolvimento sustentável sem ciência. Um país que reconhece o conhecimento como bem público. Um país que escolhe, de forma consciente, construir sua soberania.
Porque, no fim, a questão não é apenas sobre ciência. É sobre o Brasil que decidimos ser.
*Publicao origanalmente no Jornal da Ciência.