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Protegendo tesouros ocultos: Terras Indígenas salvaguardam 50% das áreas com maior potencial de descobertas de angiospermas no Brasil
Alinhado às discussões da COP 30, a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), um estudo de pós-doutorado realizado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, com financiamento da FAPERJ (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro), desenvolvido entre 2022 e 2024, analisou mais de dois séculos de dados taxonômicos — de 1753 a 2020 — para identificar os padrões históricos de descobertas botânicas no Brasil e prever quais domínios fitogeográficos ainda abrigam o maior número de espécies desconhecidas pela ciência.
Apesar de o Brasil figurar, desde os anos 1990, entre os quatro países que mais descrevem novas espécies de angiospermas por ano, uma parcela significativa da flora brasileira segue inexplorada. A ausência de um nome científico torna uma espécie praticamente invisível para a ciência, dificultando sua inclusão em pesquisas básicas ou em políticas de conservação.
Com cerca de 33.600 espécies nativas de angiospermas, das quais 341 gêneros são exclusivos do território brasileiro, há um claro desequilíbrio na distribuição da riqueza taxonômica entre os diferentes clados endêmicos do país. Entender onde estão e quais são essas espécies é essencial para traçar estratégias de conservação eficazes. A pergunta-chave que orientou o estudo foi: Qual seria o impacto nas prioridades de conservação se todas as espécies não descritas fossem conhecidas e o catálogo estivesse completo?
Publicada na revista científica PLOS ONE, a pesquisa usou modelos preditivos e incorporou o esforço taxonômico histórico para estimar que o catálogo de angiospermas brasileiro ainda está entre 19% e 23% incompleto, o que corresponde a aproximadamente 7.300 a 9.600 espécies ainda não formalmente descritas pela ciência.
A congruência dos resultados revelou que os domínios da Amazônia e da Caatinga concentram as maiores áreas com potencial de descoberta de novas espécies. No entanto, apenas 20% dessas áreas coincidem com unidades de conservação já estabelecidas. Um dado especialmente relevante mostra que 50% das áreas com maior potencial de descobertas estão localizadas dentro de Terras Indígenas.
Esse cenário reforça a importância estratégica das Terras Indígenas na conservação e catalogação da biodiversidade brasileira. Os resultados também indicam que é essencial integrar essas áreas nos planejamentos nacionais de conservação, com políticas que valorizem o protagonismo das comunidades locais.
A pesquisa ainda mostra que a densidade populacional humana influenciou o ritmo de descobertas de espécies no passado, enquanto o esforço científico e a formação de taxonomistas têm sido determinantes nas últimas décadas. O estudo alerta que cortes recentes no financiamento à pesquisa, especialmente entre 2019 e 2022, podem comprometer os avanços conquistados.
Entre suas recomendações, estão o fortalecimento das políticas públicas voltadas à taxonomia, a ampliação das Unidades de Conservação, especialmente na Caatinga, e o investimento em programas de formação e infraestrutura para coleta e identificação de espécies, com uso de tecnologias como sensoriamento remoto e parcerias com povos indígenas e comunidades locais.
O estudo é assinado por Janaína Gomes-da-Silva, Rafaela Forzza (JBRJ/ICMBio) e Eimear Nic Lughadha (Royal Botanic Gardens, Kew).