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Estudo no Jardim Botânico do Rio revela a importância de áreas verdes urbanas para a conservação de abelhas sem ferrão
Um estudo publicado neste mês, na revista científica Rodriguesia, reforça o papel essencial das abelhas sem ferrão na polinização, especialmente na Mata Atlântica. A pesquisa também aponta que áreas verdes urbanas atuam como refúgios para ninhos dessas espécies durante a reprodução diante da crescente redução de habitats naturais.
Intitulado Diversity and nesting characteristics of stingless bees in an urban green area, the Botanical Garden of Rio de Janeiro, o estudo, conduzido pela engenheira agrônoma Maria Lucia França Teixeira, identificou uma expressiva diversidade de abelhas sem ferrão no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, importante área verde inserida no contexto urbano, e estudou seus ninhos.
Chamadas assim por possuírem o ferrão atrofiado, essas abelhas não representam risco à população e são fundamentais para a sobrevivência de uma grande parcela das plantas nativas, incluindo desde espécies de porte rasteiro até árvores de grande porte. Se forem extintas, a reprodução de plantas silvestres ficará comprometida.
Ao longo de oito anos de monitoramento no arboreto do Jardim Botânico do Rio, foram registrados 94 ninhos pertencentes a 13 espécies, com destaque para a Tetragonisca angustula, a mais abundante. A maioria dos ninhos foi encontrada em árvores, mas a pesquisadora também observou abelhas ocupando muros, monumentos e até o solo — um indicativo da capacidade de adaptação dessas espécies ao ambiente urbano.
Responsável pelo meliponário da instituição, Maria Lucia França Teixeira destaca que a urbanização tem reduzido a vegetação nativa, habitats naturais, levando as abelhas sem ferrão a migrar para zonas urbanas, onde encontram potenciais locais de nidificação – processo que envolve a escolha, construção e ocupação dos ninhos -, como árvores grandes — frequentemente ocas e antigas — e substratos artificiais, incluindo muros de pedra.
- Nesse contexto, o estudo buscou analisar a diversidade e as características de nidificação de abelhas sem ferrão no arboreto, identificando fatores que influenciam o estabelecimento e a manutenção de seus ninhos em ambiente urbano – afirma a engenheira agrônoma.
De acordo com o artigo, as abelhas sem ferrão representam cerca de 70% das abelhas forrageadoras — aquelas que saem do ninho em busca de recursos como néctar e pólen — nas florestas tropicais da Mata Atlântica. O Brasil abriga 244 espécies descritas de abelhas sem ferrão e cerca de 89 espécies ainda não descritas. No Estado do Rio de Janeiro, já foram registradas 22 espécies, embora estudos sobre abelhas sem ferrão em áreas urbanas ainda sejam escassos.
Os resultados da pesquisa destacam a importância da conservação dos ninhos de abelhas sem ferrão em áreas verdes urbanas. A diversidade e abundância de polinizadores estão relacionadas à conectividade entre áreas verdes. O arboreto do Jardim Botânico está conectado a fragmentos de Mata Atlântica e a outras áreas verdes, como o Parque Nacional da Tijuca, funcionando como corredor ecológico e refúgio urbano para polinizadores.
- Apesar das pressões ambientais típicas do meio urbano, como a presença humana e o manejo da área, a diversidade de abelhas sem ferrão no arboreto do Jardim Botânico permanece elevada, funcionando como um corredor ecológico dentro da cidade – sublinha Maria Lúcia.
Segundo a pesquisadora, esse cenário é resultado da combinação entre disponibilidade de recursos, preservação de árvores antigas e conectividade ecológica.
- A criação, manutenção e expansão de corredores ecológicos são estratégias fundamentais para prevenir a extinção de polinizadores nativos, incluindo as abelhas sem ferrão. Essas ações são fortalecidas por iniciativas como educação ambiental, políticas públicas e pesquisas voltadas à conservação dessas espécies – conclui.
O artigo está disponível em https://www.scielo.br/j/rod/a/Mn36zhy96hpp8NGCKfXrWmL/?lang=en