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Estudo desvenda como raízes da planta jiboia trocam de “roupa” para se proteger da desidratação
Raiz aérea de Epipremnum aureum: tripla coloração em microscopia de fluorescência; Fucsina básica identifica lignina em vermelho, Fluorol Yellow 088 identifica suberina em amarelo, Calcofluor White identifica paredes celulósicas em azul; o novo revestimento ligno-suberizado permite forte redução da perda de água | Foto: André Mantovani
Com o olhar da ciência, mesmo o que parece trivial pode se tornar uma descoberta fascinante. O pesquisador André Mantovani, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), e seu aluno de Iniciação Científica Yago Chagas Groba estudaram uma espécie de planta bem comum na paisagem, em jardins ou mesmo em residências no Brasil, a Epipremnum aureum, popularmente conhecida como jiboia-verde. Eles mostraram como essa espécie desenvolveu estratégias para reduzir a desidratação e sobreviver nas copas das árvores, onde o ambiente é bem mais quente e seco do que no solo: suas raízes trocam de “roupa”.
As plantas Epipremnum aureum são aráceas lianescentes – também conhecidas em inglês como aroid vines ou nomadic vines – e constituem um grupo ecologicamente interessante, porque são capazes de mudar do eixo horizontal de crescimento sobre o solo da floresta para o eixo vertical, subindo pelo tronco das árvores em busca da abundante luz na copa, onde crescem com suas lindas e enormes folhas.
Essa mudança não é trivial. Na copa, o ar é mais quente e seco do que no chão da floresta. A união destes fatores pode gerar estresse e desidratação nas plantas que se arriscam nessa subida. O potencial de dessecação do ar na copa pode ser até 100 vezes maior que no solo, que é a principal fonte de água e de diversos nutrientes para maioria das plantas vasculares, inclusive as aráceas lianescentes. Assim, mesmo tendo alcançado a copa das árvores, elas nunca perdem o contato com o solo da floresta, graças a suas raízes, que descem por muitos metros... no ar!
“Imagine uma raiz que, tendo crescido sempre em solo úmido e protegido, terá agora que crescer numa atmosfera até 100 vezes mais dessecante”, comenta Mantovani. Ele explica: quando no ar, o tecido de cobertura originariamente produzido em condições de solo (epiderme com exoderme) é trocado por um tecido novo, espesso e resistente à perda de água (chamado de suber esclerificado). Enquanto uma raiz terrestre com exoderme não resiste a 3 horas de desidratação, perdendo rapidamente de 30 a 40% de água, esse novo tecido permite que as raízes aéreas retenham a maior parte desse conteúdo hídrico mesmo após 24 horas.

- Através de microscopia ótica é possível acompanhar a substituição da ‘roupa original’ das raízes terrestres (epiderme+exoderme, Figura 1) de E. aureum pelo surgimento da ‘nova roupa’ (Figura 2) em resposta ao ambiente aéreo; em pouco tempo, a 'nova roupa' se desenvolve até constituir o súber esclerificado em múltiplas camadas (Figura 3), que recobre e protege as raízes aéreas da planta; esta arácea plenamente desenvolvida, com suas enormes folhas e longas raízes aéreas pode ser encontrada no arboreto do Jardim Botânico do Rio de Janeiro | Fotos: André Mantovani
O estudo foi desenvolvido integralmente no arboreto e no laboratório de Botânica Estrutural do JBRJ. Mantovani ressalta que foi Yago Groba, bolsista PIBIC-CNPq, quem desenvolveu a principal técnica utilizada na pesquisa. Os resultados que eles obtiveram se somam a outros publicados pelo pesquisador sobre a resistência das raízes aéreas de aráceas lianescentes à desidratação.
“Entre as muitas plantas vasculares que vivem na copa das árvores, talvez as mais importantes em número de espécies sejam bromélias, orquídeas, samambaias e aráceas. Enquanto as três primeiras foram bastante estudadas, as aráceas têm ainda estratégias a serem desvendadas. Este e outros estudos vão ajudar a escrever a história ecológica-evolutiva por trás da conquista da copa das árvores por essa família de plantas”, conclui o pesquisador.
O artigo foi recentemente publicado no periódico internacional Physiologia Plantarum, em número especial dedicado à ecologia de raízes submetidas a estresse.
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