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Entrevista
Conheça a Conselheira do CRSFN
Com mais de quatro décadas de experiência no mercado de capitais brasileiro, Maria Cecília constituiu uma carreira diversificada entre os setores público e privado. Formada e pós-graduada em Administração pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), sempre alimentou sua curiosidade em explorar as múltiplas facetas do mercado. Iniciou sua trajetória na área técnica, passando por corporação, corretora e banco de investimento, antes de assumir posições executivas, nas quais atuou na estruturação de novos produtos e no aprimoramento de infraestruturas. Essa bagagem consolidada levou-a a um convite para a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), onde atuou como Superintendente de Desenvolvimento de Mercado e, posteriormente, como Diretora. Ela ressalta que a experiência na CVM foi única, ampliando sua visão sistêmica e permitindo contribuições significativas para o setor. O desejo de continuar trabalhando com temas complexos e de atuar institucionalmente pelo desenvolvimento do mercado motivou-a a fundar a Interlink Consultoria, com foco em regulação, compliance e governança. Sua participação em conselhos de administração, supervisão e autorregulação contribuiu para sua seleção como Conselheira suplente do CRSFN, representante do Segmento 8 – Investimentos e Mercado de Capitais, o que considera um marco de reconhecimento em sua trajetória.
Ao avaliar a importância do CRSFN para a solidez do Sistema Financeiro Nacional, a Conselheira afirma que, ao longo do mandato, sua admiração pela instituição apenas cresceu. Ao conhecer o Conselho por dentro, percebeu o contraste entre sua estrutura enxuta e o imenso valor entregue à sociedade. Maria Cecília aponta que o CRSFN é movido pelo idealismo de seus membros, que se dedicam a produzir decisões colegiadas, bem fundamentadas e consistentes, fortalecendo a segurança jurídica do mercado. Ela também reconhece a importância do apoio de assessores e servidores extremamente dedicados. Afirma que essa realidade é fruto de uma transformação significativa.
A Conselheira recorda que, no passado, o recurso ao CRSFN era percebido como um caminho para a impunidade, devido à prescrição ou à reversão de decisões, o que alimentava o desrespeito regulatório e prejudicava a concorrência leal. A mudança desse cenário, iniciada em 2012 sob a liderança da então presidente Ana Maria Melo Netto e consolidada na gestão atual da presidente Adriana Teixeira de Toledo, redefiniu o Conselho. A reestruturação de processos, o uso de tecnologia e o estabelecimento de metas permitiram reduzir drasticamente o volume de processos pendentes, sem prejuízo da qualidade. Ela destaca ainda o planejamento para 2026, especialmente a entrega do painel de análise de impedimentos, como exemplo do compromisso contínuo com integridade e transparência. A Conselheira afirma ter grande orgulho em ver como a liderança feminina foi fundamental para virar essa página na história do Conselho.
Sobre seu legado, a Conselheira afirma que sua maior contribuição tem sido aprender e participar ativamente do processo de construção de decisões justas e bem fundamentadas, que fortalecem a confiança no sistema. Explica que, ao iniciar seu mandato, imaginava que poderia oferecer uma visão técnica complementar ao perfil predominantemente jurídico do colegiado, com base em sua experiência em regulação, governança e compliance. No entanto, encontrou um corpo de conselheiros com qualificações e vivências extremamente completas, firmemente apoiado pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), o que tornou a troca de conhecimentos sua maior lição. A profundidade com que cada processo é analisado e a disposição para o debate, incluindo a elaboração de votos divergentes robustos, representam verdadeiras aulas sobre como promover justiça, valorizar o trabalho da primeira instância e compreender os desafios dos jurisdicionados.
Ao analisar os desafios do CRSFN no contexto de evolução do Sistema Financeiro Nacional, a Conselheira afirma que o principal desafio imediato é executar o ambicioso planejamento para 2026, que inclui iniciativas cruciais para acelerar a análise de processos com segurança e aprimorar a comunicação com a comunidade jurídica e a sociedade. No horizonte mais amplo, ela aponta desafios igualmente complexos: o Colegiado precisará manter sua independência e excelência operacional enquanto se adapta a um cenário em constante evolução. Isso inclui preparar-se para julgar casos que envolvam investimentos alternativos oferecidos por fintechs e novas infraestruturas de mercado, bem como estruturas societárias cada vez mais sofisticadas, garantindo que a aplicação da regulação acompanhe o ritmo da transformação digital.
Por fim, ao ser questionada sobre processos marcantes de sua experiência no colegiado, a Conselheira ressalta que uma das práticas mais representativas do CRSFN é a seriedade com que os votos divergentes são tratados. Maria Cecília aponta que, diferente de outros fóruns, onde o dissenso raramente é formalizado, no CRSFN os votos divergentes são comuns, profundos e, por vezes, vencedores. Essa cultura de debate aberto, na qual conselheiros pro bono dedicam tempo para fundamentar suas posições, resulta em decisões mais robustas e com baixo índice de judicialização. No início, a profusão de votos divergentes a surpreendeu. Ela confessa que sua primeira divergência em um processo de sua relatoria a abalou; percebeu que buscava a unanimidade como valor do voto. Hoje, compreende que essa pluralidade de visões enriquece o debate e fortalece o senso de justiça. Aprendeu a valorizar cada contraponto, que sempre adiciona uma nova camada de análise ao processo. Para Maria Cecília, essa jornada de aprendizado foi transformadora: deixou de buscar o consenso a todo custo e passou a celebrar a construção coletiva de decisões verdadeiramente ponderadas.
19/02/2026
