Conversa com Gustavo Caboco
Por José Xêcajcàr Alecrim (Curador da Revista Pihhy)
Parte 2 — Museus por outros caminhos: criação, retorno e agência
Na segunda parte da conversa entre Gustavo Caboco Wapichana e José Alecrim, o diálogo se aprofunda em torno de uma pergunta urgente: como repensar o museu a partir da presença indígena?
Mais do que revisitar a história de acervos e coleções, os interlocutores convocam o museu a ser um espaço de criação, deslocamento e geração de novas relações — um museu descolonizado, que não apenas "abre espaço" para os povos originários, mas é tensionado e transformado por sua ocupação ativa.
Aqui, os museus são pensados como ateliês vivos, lugares onde a imagem retorna — não como fetiche, mas como memória reativada, como presença que fala. A retomada da imagem, expressão central na conversa, se dá como gesto de reexistência: olhar, tocar, nomear, deslocar, recriar.
O museu torna-se então agência e território, em movimento contínuo, gerando mais do que conservando, mais do que expor, fazer nascer relações.
Trata-se de habitar o museu, em vez de visitá-lo.
De fazer com que os objetos — e as narrativas que os envolvem — respirem junto com os corpos indígenas, que não são visitantes, mas continuadores de mundos.
A conversa também traz a dimensão da luta política e poética que atravessa os museus, e a importância de reivindicar uma museologia comprometida com a vida — com os territórios, com as línguas, com os cantos, com os gestos que nunca cessaram, mas foram silenciados.
Este é um convite para pensar o museu como verbo, como ação, como processo — não como vitrine do passado, mas como plano de futuro em disputa.
Esta conversa compõe a proposta da Revista Pihhy, uma publicação comprometida com o pensamento indígena contemporâneo e as epistemologias originárias em suas muitas formas de expressão — sejam elas escritas, orais, visuais ou performáticas.
A revista nasce como espaço de articulação, denúncia, memória e criação, aberta à presença de intelectuais, artistas, educadores e mestres de diferentes povos, em diálogo com pesquisadores aliados, para forjar caminhos outros para a educação, a cultura e o pensamento crítico.
Na Pihhy, imagens viram pensamento e pensamento vira imagem, desafiando os modos coloniais de classificar, aprisionar e silenciar. Aqui, cada número é também um gesto de retomada, de reconexão com saberes que nunca deixaram de pulsar — mesmo diante da violência epistêmica e da expropriação de sentidos.
Assista também a PARTE 1