Makunaimando
Gustavo Caboco em conversa com José Alecrim
PARTE 1
Nesta edição da Revista PIHHY, temos o imenso prazer de apresentar a primeira parte de uma conversa potente e sensível com Gustavo Caboco, artista, ativista e intelectual indígena do povo Wapichana.
Gustavo é uma das grandes vozes da arte e do pensamento indígena no Brasil contemporâneo.
Sua trajetória, marcada pela escuta profunda dos territórios e dos afetos, refaz caminhos de retorno à terra, à memória e à criação.
Esta primeira parte da conversa é guiada pelo artista Mehi-Canela José Alecrim, que propõe uma pergunta central: qual é a dimensão editorial indígena no Brasil hoje?
A partir dessa provocação, Gustavo compartilha suas experiências com a publicação de livros — que, para ele, não é um ato técnico, mas artesanal, ancestral e político.
Ele nos convida a repensar o próprio conceito de livro: mais do que objeto impresso, é criação única, um gesto cuidadoso que tece narrativas com as mãos, com o corpo, com o tempo.
Para Gustavo, cada livro pode ser artesanato — mesmo quando envolve tiragens maiores, não perde seu caráter singular, sua força de gesto. O que importa é o modo como se faz, de onde se parte e a quem se deseja alcançar.
Ele fala sobre a construção do livro O Campo após o fogo, uma resposta indígena ao incêndio do Museu Nacional, onde propõe uma leitura Wapichana da situação.
Essa dimensão artesanal se desdobra também nas formas narrativas.
Nem tudo precisa ser texto escrito.
Gustavo é desenhista, e seus livros muitas vezes são narrativas imagéticas. Ele se apropriou do grafite urbano, já atuou em grandes paredes, e acredita que a palavra pode dançar com o traço, com a cor, com a superfície.
O livro pode ser um tecido bordado de significados, uma miniatura de mundo. Suas obras transitam entre o desenho, a pintura, a performance, o livro de artista — como os minilivros que já criou, objetos íntimos e profundos, que guardam histórias como sementes.
Sua presença em espaços como a Bienal de São Paulo e a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) não é mero prestígio institucional: é conquista simbólica e política de um lugar onde a arte indígena se afirma com voz própria, abrindo frestas no que antes era exclusão.
O convite para a Bienal nasce, justamente, da força poética e política de seu livro mencionado, reafirmando a potência da arte editorial indígena.
Gustavo nos lembra que o campo editorial é, antes de tudo, um lugar político, onde se fortalecem os modos indígenas de existência, criação e ação na sociedade nacional. Publicar é resistir, é fazer circular mundos que a colonialidade tentou apagar.
É abrir caminhos para a palavra que volta, para o conhecimento que retorna à aldeia, ao corpo, ao sonho.
Nesta conversa inaugural, José Alecrim abre espaço para que Gustavo Caboco desenhe com palavras, silêncios e memórias, sua forma de pensar o livro: não como produto, mas como processo — artesanal, coletivo, espiritual.
E, assim, a Revista PIHHY se reafirma como espaço de escuta plural, onde os saberes indígenas não são encaixados, mas respeitados em sua diversidade, espiritualidade e ancestralidade.
Convidamos a todos a acompanharem esse diálogo como quem entra em roda: com humildade, com reverência, com sede de aprender. Que cada página nos leve a pensar em outros modos de narrar, ensinar e existir.
Que cada palavra dita por Gustavo Caboco inspire novas formas de sonhar o presente e o futuro.
Falamos também, com entusiasmo, do lançamento recente de Roteiros para Makunaimar (vol.1): conversa com os netos de Duwid, obra essencial para a reflexão contemporânea, por meio de uma perspectiva indígena e para a discussão editorial brasileira.
Este livro é uma travessia que nos convida a refletir sobre a produção cultural do país, mergulhar nos rios profundos da cultura Wapichana e reconhecer, com respeito, que Makunaimã não é só personagem: é grande avô, é ancião, é sabedoria viva que retorna.
Boa leitura. Boa travessia.