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DANÇA
Encontro da Funarte celebra adesão do Brasil à PID e lançamento da Plataforma Brasil-África de Dança
Foto: Funarte
Brasil celebrou sua adesão à Plataforma Ibero-Americana de Dança (PID) e promoveu o lançamento da Plataforma Brasil-África de Dança (PBAD) na sexta-feira, 30 de outubro, no encerramento do encontro internacional “Dançar: o movimento que ultrapassa fronteiras”, realizado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), vinculada ao Ministério da Cultura (MinC). A cerimônia, no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro (RJ), contou com a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes, do presidente da Funarte, Leonardo Lessa, e do diretor do Centro de Dança da Fundação, Rui Moreira. A programação também incluiu a entrega do Prêmio Ibero-Americano de Dança e conferência da coreógrafa e pesquisadora Léna Blou, de Guadalupe, sobre as danças da diáspora africana.
Realizado entre 27 e 30 de outubro, o evento reuniu representantes de instituições públicas, organismos internacionais, artistas, pesquisadores e agentes culturais de diferentes países da América Latina, Península Ibérica, Caribe e África. Ao longo de quatro dias, as discussões buscaram estabelecer caminhos para a cooperação internacional em dança, com atenção à circulação artística, à formação profissional, à sustentabilidade das iniciativas culturais e à produção e preservação de conhecimentos. As reuniões resultaram em encaminhamentos para a atuação da PID e na organização de três grupos de trabalho que darão continuidade à construção da Plataforma Brasil-África.
A formalização das duas iniciativas representa um avanço em frentes distintas de cooperação. A PID já possui uma estrutura de articulação entre instituições públicas ibero-americanas, à qual o Brasil passou a integrar-se oficialmente. A Plataforma Brasil-África, por sua vez, nasce de uma mobilização da Funarte com parceiros internacionais para estabelecer relações continuadas entre artistas, instituições e redes culturais.
Para Leonardo Lessa, a construção dessas parcerias exige “um diálogo construído com cuidado, atenção e parceria”. Em sua fala, o presidente destacou a importância da cooperação multilateral e chamou a atenção para a confluência entre Ibero-América, África e suas diásporas, especialmente às vésperas do Mês da Consciência Negra. Para ele, o encontro expressa essa aproximação por meio da construção de políticas públicas, em uma articulação que reconhece as relações históricas e culturais entre os diferentes territórios.
Brasil amplia participação na cooperação ibero-americana
Reconhecida em 2018, no âmbito da Conferência Ibero-Americana de Ministros da Cultura, a Plataforma Ibero-Americana de Dança reúne instituições públicas dedicadas ao desenvolvimento de políticas para o setor. Sua atuação envolve a articulação entre países, a criação de iniciativas conjuntas e o intercâmbio de conhecimentos, experiências e recursos para ampliar as condições de desenvolvimento da dança na região.
Com a adesão, o Brasil amplia sua participação nessa agenda multilateral. Durante as reuniões realizadas no Rio de Janeiro, foram discutidos aspectos da governança e da sustentabilidade institucional da plataforma, bem como os avanços do planejamento estratégico estabelecido no encontro anterior, realizado no Panamá, em 2025. O Brasil permanece na coordenação estratégica da PID, ao lado do Chile e do Uruguai.
Um dos pontos centrais foi a necessidade de dar continuidade às experiências de cooperação já existentes, ampliando sua visibilidade e capacidade de articulação. As discussões abordaram a possibilidade de desenvolver um observatório e um repositório de informações sobre a dança ibero-americana, reunindo pesquisas, registros históricos, experiências de intercâmbio e conhecimentos produzidos entre os países. Também foi proposta uma agenda de reuniões periódicas entre a Coordenação Executiva e os integrantes da plataforma.
O Prêmio Ibero-Americano de Dança esteve entre os temas debatidos. Os participantes destacaram a importância de sua continuidade e de uma organização bienal.
Na cerimônia de encerramento, a representante chilena Gabriela Bravo apresentou uma síntese das discussões. Sua exposição destacou que a cooperação cultural também se constrói nas relações cotidianas entre artistas, coletivos, festivais e instituições, muitas vezes anteriores à própria formalização de acordos. Nesse sentido, registrar essas experiências e compartilhar o conhecimento acumulado permite reconhecer o trabalho desenvolvido pelos diferentes países e construir novas ações a partir dele.
Gabriela também ressaltou a importância de considerar as diferenças entre as capacidades institucionais, os recursos e as experiências de cada país, de modo que a participação na plataforma seja sustentada por relações de reciprocidade e pela aproximação com a sociedade civil e as comunidades artísticas.
Plataforma Brasil-África de dança estabelece novas frentes de trabalho
O lançamento da Plataforma Brasil-África de Dança marcou o início de uma nova agenda de cooperação Sul-Sul, construída a partir do diálogo entre representantes de governos, artistas, pesquisadores, gestores culturais e organizações do setor. Na cerimônia de encerramento, representantes da iniciativa participaram da assinatura de um memorando de entendimento, após os dias de debates sobre sua estruturação e seus objetivos.
As discussões partiram de desafios compartilhados pelos diferentes territórios, como a circulação internacional de artistas, o financiamento e a continuidade dos projetos, a formação profissional e a valorização de práticas e conhecimentos tradicionais. A memória das danças afro-diaspóricas e o papel da ancestralidade na criação contemporânea também estiveram entre os temas centrais.
Para avançar na elaboração de propostas, foram constituídos três grupos temáticos de trabalho. O primeiro, dedicado à Cocriação e Residências Artísticas, discutirá intercâmbios, coproduções, processos de criação compartilhada e estratégias para sua continuidade. O segundo, Intercâmbio Institucional, terá como foco as relações entre festivais, universidades, organismos de cooperação e instituições culturais. Já o terceiro, Formação, Difusão e Distribuição, abordará a qualificação artística e técnica, a circulação de obras, a mediação cultural e a ampliação do acesso aos diferentes territórios e públicos.
O presidente da Associação Angolana de Dança, Manuel Vieira, apresentou durante o encerramento um relato dos trabalhos da Plataforma Brasil-África, ressaltando a importância de transformar o diálogo entre os países em possibilidades concretas de atuação conjunta.
A ministra Margareth Menezes, por sua vez, destacou a dimensão cultural e histórica dessas articulações. Também relacionou as iniciativas ao aprofundamento das relações internacionais do Brasil com o continente africano e a América Latina, destacando o trabalho desenvolvido pelo Ministério da Cultura para ampliar os intercâmbios e dar continuidade às parcerias estabelecidas.
Léna Blou aborda a dança da diáspora como resistência e conhecimento
A programação do último dia começou com a conferência “Dançar: gestos que ultrapassam fronteiras”, conduzida por Léna Blou, antropóloga, coreógrafa, dançarina e pesquisadora de Guadalupe, no Caribe. A artista apresentou reflexões sobre as danças afro-diaspóricas como formas de expressão, preservação de conhecimentos e resistência desenvolvidas a partir da experiência histórica da escravidão e da colonização.
Um dos eixos de sua apresentação foi o bigidi, conceito relacionado às danças tradicionais de Guadalupe, especialmente ao gwoka, que parte da instabilidade e do desequilíbrio como elementos fundamentais do movimento. Ao observar gestos presentes em diferentes manifestações afro-diaspóricas, Léna destacou a capacidade dos corpos de oscilar, improvisar, adaptar-se e recuperar o equilíbrio sem cair.
Para a pesquisadora, esses movimentos carregam uma inteligência desenvolvida historicamente diante das condições impostas pela violência colonial. A necessidade de sobreviver, preservar a própria humanidade e encontrar formas de resistência também produziu conhecimentos corporais transmitidos entre gerações. O desequilíbrio, nessa perspectiva, constitui uma estratégia de adaptação e criação que permanece viva nas danças contemporâneas.
A conferencista apresentou ainda aspectos de sua pesquisa artística e da Techni'ka, técnica coreográfica que desenvolveu a partir do estudo das danças tradicionais caribenhas. Com a exibição de registros audiovisuais, abordou as relações entre o corpo e o chão, os sons produzidos pelo movimento e as possibilidades de transformar esse repertório em linguagem de criação contemporânea.
Prêmio Ibero-Americano de Dança reconhece iniciativas de Brasil, Paraguai e Panamá
A cerimônia de encerramento também foi marcada pela entrega do Prêmio Ibero-Americano de Dança 2026, promovido pela PID, pelo Programa Ibercena e pela Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB). Criada no contexto do Ano Ibero-Americano das Artes Cênicas, a premiação reconhece iniciativas coletivas que contribuem de maneira continuada para o desenvolvimento da dança na região, por meio da criação, da gestão, da pesquisa, da circulação e da cooperação entre países. A ministra Margareth Menezes participou da entrega das distinções durante a cerimônia.
A primeira edição recebeu 32 candidaturas de dez países. O resultado concedeu o prêmio principal à associação cultural brasileira Corpo Rastreado. O Festival Crear en Libertad, do Paraguai, recebeu a primeira menção especial. A segunda menção foi concedida ao Prisma Festival Internacional de Dança Contemporânea, do Panamá.
Realizado no âmbito da Política Nacional das Artes e do Programa Funarte Brasil Conexões Internacionais, o encontro “Dançar: o movimento que ultrapassa fronteiras” foi promovido pela Funarte em parceria com a Embaixada da França, a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), a Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB) e o Programa Ibercena. Com a adesão à PID e o lançamento da Plataforma Brasil-África, as discussões realizadas no Rio de Janeiro passam a integrar uma agenda de continuidade da cooperação internacional em dança, envolvendo instituições públicas e agentes culturais de diferentes territórios.