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DEBATE
Cultura, ancestralidade e ciência apontam caminhos para enfrentar a crise climática
Foto: Gabie Pereira
Diferentes formas de compreender, habitar e transformar o planeta. Estes foram alguns dos temas abordados durante o segundo dia do 3º Seminário Internacional Cultura e Mudança do Clima, realizado no dia 5 de agosto, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo. Promovido pelo Ministério da Cultura (MinC), em parceria com o Sesc São Paulo e a Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura no Brasil (OEI), o encontro integrou a programação da São Paulo Climate Week.
As atividades começaram com a apresentação “Algum desses é seu parente?”, do Coletivo Estopô, seguida pelo painel Cosmologias e formas de habitar o planeta, que reuniu Denilson Baniwa, artista da etnia Baníuas; Eduardo Góes Neves, arqueólogo; Keyna Eleison, curadora e pesquisadora; e Leila Borari, ativista socioambiental, com mediação de Lívia Lima.
Ao recorrer à cosmologia Baniwa, Denilson atribuiu à arte a possibilidade de recuperar espaços de descanso e contemplação. “O lazer, o ócio, a observação, a contemplação são necessários nesse nosso tempo”, defendeu. E completou: “A nossa sociedade atual perdeu a noite de novo. Vivemos num eterno dia de labor, com luzes artificiais que nos prejudicam, que prejudicam a nossa saúde, a nossa vida e o meio ambiente”.
O arqueólogo Eduardo Góes Neves apresentou outra perspectiva sobre a relação entre sociedades humanas e natureza. Segundo ele, evidências arqueológicas demonstram a presença indígena na Amazônia há pelo menos 13 mil anos e revelam que o território foi moldado por práticas sofisticadas de manejo e domesticação de espécies.
“Existem formas sofisticadas de produção de natureza por parte dos povos indígenas, que moldaram a Amazônia como ela é hoje”, explicou.
Ao trazer a experiência do povo Borari, Leila Borari abordou a cultura como ferramenta de proteção dos territórios e de mobilização política. Ela apresentou as Suraras do Tapajós, grupo de carimbó formado por mulheres indígenas, e relatou como eventos climáticos extremos já interferem em manifestações tradicionais, como o Sairé, em Alter do Chão (PA).
“Quando você interfere no clima do planeta, naquele território, você também interfere na cultura, no modo de vida, no plantar”, alertou.
A liderança indígena contrapôs ainda a visão de longo prazo dos povos originários à exploração imediata dos recursos naturais. “O processo e o modo de vida dos povos indígenas são pensados em gerações. Não é minha geração que vai colher a castanheira que eu plantei, mas a futura vai”, exemplificou.
Keyna Eleison, por sua vez, tratou das disputas de linguagem, pertencimento e poder presentes tanto na sociedade quanto nas instituições culturais. A curadora questionou abordagens que incorporam produções negras e indígenas sem transformar as estruturas responsáveis pelas decisões e pela circulação da arte.
“Defendo a defesa da complexidade, muito mais do que a defesa da diversidade”, sintetizou.
Ecologias culturais da transformação
No período da tarde, o painel Ecologias culturais da transformação reuniu o diretor da Casa do Povo, Benjamin Seroussi; o presidente do Instituto Terra, Juliano Salgado; a rapper e ativista indígena Katú Mirim; e o professor e cientista Paulo Artaxo. A conversa, mediada por Roberta Martins, secretária de Articulação Federativa e Comitês de Cultura do Ministério da Cultura, buscou aproximar criação artística, ciência, regeneração ambiental e mobilização social.
Ao introduzir o debate, Roberta argumentou que a dimensão ambiental precisa ser incorporada de maneira estruturada às políticas culturais por já fazer parte das experiências, identidades e perspectivas de futuro construídas pela sociedade.
“A transformação climática não acontece apenas nas salas de negociação ou nas políticas públicas. Ela ganha corpo nos espaços onde as pessoas atribuem sentido ao mundo, compartilham valores, constroem identidades, imaginam futuros comuns”, observou.
Benjamin Seroussi levou à mesa uma reflexão sobre o papel das instituições culturais diante da emergência climática. O curador questionou se a arte tem conseguido modificar efetivamente relações e estruturas de produção ou se, em determinados contextos, atua apenas para amenizar as angústias provocadas pela crise. “A solidariedade não é um substantivo, é um verbo”, definiu.
Ao mencionar experiências desenvolvidas pela Casa do Povo em colaboração com povos Guarani Mbyá e Tikmũ’ũn/Maxakali, Benjamin sustentou que a cultura deve produzir relações concretas e ampliar a autonomia dos grupos envolvidos. Para ele, não basta incorporar referências indígenas a exposições e instituições se essa presença não for acompanhada de transformações políticas e territoriais.
Juliano Salgado apresentou a experiência do Instituto Terra, fundado por Lélia e Sebastião Salgado em 1998, em uma propriedade profundamente degradada no Vale do Rio Doce. Desde então, o projeto promoveu a recuperação da Mata Atlântica, com o plantio de centenas de espécies e ações voltadas à restauração de nascentes.
Juliano relatou que iniciativas realizadas na região de Pocrane (MG) recuperaram cerca de 200 nascentes e estimularam agricultores a incorporar práticas como agrofloresta e agricultura regenerativa.
“O mais importante é que o que está acontecendo lá é uma mudança na visão de mundo dessas populações, das populações do Rio Doce. É uma mudança cultural”, avaliou.
Paulo Artaxo apresentou dados científicos para dimensionar a urgência da transformação. O professor alertou que as emissões globais continuam em níveis incompatíveis com as metas climáticas e que o Brasil pode sofrer aumento de temperatura superior à média mundial.
“O aumento de quatro graus de temperatura em Cuiabá ou em Palmas tem um impacto muito maior na população do que o aumento de quatro graus em Estocolmo, em Paris ou em Montevidéu”, comparou.
Artaxo lembrou que o Brasil já enfrenta alterações nos padrões de chuva e períodos mais secos no Centro-Oeste, Nordeste e Amazônia. Apesar do cenário, ressaltou que as soluções tecnológicas para reduzir significativamente as emissões já estão disponíveis.
“Já temos todas as tecnologias para reduzir as emissões de gases de efeito estufa pela metade até 2030. Basta a gente ter políticas públicas para implementar essas receitinhas”, sustentou.
Katú Mirim encerrou as contribuições trazendo a experiência da música indígena contemporânea e sua capacidade de alcançar públicos que muitas vezes permanecem distantes do debate climático. A rapper contou que encontrou na produção artística um caminho para denunciar o racismo ambiental e dar visibilidade aos indígenas que vivem em áreas urbanas e periféricas.
A artista também mencionou a colaboração com Anitta e Brown MCs na música Okê como uma oportunidade de levar nomes de diferentes povos indígenas para audiências mais amplas e enfrentar estereótipos sobre as identidades originárias. “A nossa racialidade sempre vem junto da nossa música”, pontuou.
Calma Urgente discute papel da cultura na resposta à crise climática
A programação desta quarta-feira (5) foi encerrada com a gravação de um episódio especial do podcast Calma Urgente, apresentado por seus âncoras, a economista Alessandra Orofino e o jornalista Bruno Torturra. Com o mote “O show tem que continuar”, a conversa refletiu sobre como a cultura influencia a relação da sociedade com a natureza, participa da construção de valores e pode transformar a percepção sobre a emergência climática.
Torturra definiu a cultura como um dos principais recursos desenvolvidos pela humanidade para superar suas limitações biológicas e pensar além das necessidades imediatas. Ao mesmo tempo, observou que determinadas construções culturais contribuíram para afastar o ser humano da natureza. “Foi a cultura que nos permitiu criar uma civilização, a ciência, as artes, elaborar os nossos ressentimentos e criar outra estrutura de pensamento. Mas, irônica e tragicamente, algum tipo de software cultural fez com que a gente esquecesse completamente que a natureza ainda é soberana”, afirmou.
Para Orofino, o enfrentamento da crise climática passa também pela disputa de imaginários. Ela destacou que a cultura não deve ser compreendida apenas como um conjunto de manifestações artísticas, mas como um campo capaz de influenciar identidades, comportamentos e formas de compreender o mundo.
A discussão abordou ainda as transformações provocadas pelas plataformas digitais e pelas novas formas de circulação de conteúdos. Segundo Torturra, atualmente, a influência cultural não está somente nas mensagens transmitidas, mas também na infraestrutura utilizada para distribuí-las e na maneira como as pessoas interagem com elas. “Hoje, o grande segredo da incidência cultural não está simplesmente na superfície do conteúdo midiático ou do produto final. Está na distribuição desse conteúdo, na infraestrutura midiática e na maneira como as pessoas interagem com a cultura”, pontuou.
Na avaliação do jornalista, o consumo acelerado de informações e os formatos cada vez mais curtos favorecem uma cultura concentrada no presente, enquanto o enfrentamento da emergência climática exige capacidade de pensar em processos de médio e longo prazo. Para ele, esse cenário afeta não apenas o consumo de produções artísticas, mas também a construção das identidades e das relações sociais.
Orofino encerrou a conversa destacando a responsabilidade de quem, por meio da arte, consegue expressar sentimentos, inquietações e formas de enxergar o mundo que nem sempre podem ser traduzidas por argumentos ou dados. “Tem gente que tem o dom de tocar os outros, de expressar coisas difíceis e trazer à superfície sentimentos, revoltas e formas de ver. Isso é um enorme presente, e existe uma responsabilidade que vem com ele, sobretudo na circunstância em que estamos”, concluiu.