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CULTURA E CLIMA
3º Seminário Internacional Cultura e Mudança do Clima pauta governança climática e transformação social
Foto: Gabie Pereira
A cultura como força transformadora de imaginários, comportamentos e políticas públicas esteve no centro dos debates do primeiro dia do 3º Seminário Internacional Cultura e Mudança do Clima, realizado nesta terça-feira, 4 de agosto, no Sesc 24 de Maio, em São Paulo. Promovido pelo Ministério da Cultura (MinC), em parceria com o Sesc São Paulo e a Organização de Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura no Brasil (OEI), o encontro, que foi lançado pela ministra Margareth Menezes, integra a programação oficial da São Paulo Climate Week.
A primeira sessão, “Pontos de inflexão positivos: como a cultura acelera mudanças em larga escala?”, reuniu a economista e ativista Alessandra Orofino; o jornalista e coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima, Cláudio Ângelo; o artista urbano e ativista Mundano; e a escritora, psicóloga e ativista indígena guarani Geni Núñez, com mediação da secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, Márcia Rollemberg. Na sequência, a sessão “Da COP 30 à implementação: governança para a cultura e a ação climática” teve a participação de Dan Ioschpe, Diosmar Filho, Favianna Rodriguez e Flávia Bellaguarda.
Ao abrir a primeira sessão, Márcia Rollemberg destacou o papel da 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura pela Justiça Climática, realizada em Aracruz (ES), e da carta de compromissos construída pela rede. “O Cultura Viva é uma política que trabalha a perspectiva da intersetorialidade, de pensar a cultura como uma amálgama e como ela se soma e fortalece o conjunto das políticas públicas, a partir da efetivação dos direitos culturais”, destacou.
Segundo ela, os pontos de inflexão positivos acontecem quando uma nova prática se dissemina e passa a influenciar comportamentos, expectativas sociais, políticas públicas e investimentos. “A pergunta não é apenas como a cultura comunica melhor a crise climática. Ela é mais profunda: como a cultura pode criar as condições para que essa transformação social e ecológica ganhe impulso próprio?”, provocou.
O jornalista Cláudio Ângelo refletiu sobre os limites da comunicação científica, defendeu a cultura como uma força capaz de aproximar da sociedade riscos de longo prazo. “A gente precisa fazer uma espécie de overwrite manual na nossa biologia e fazer isso por meio da cultura”, disse.
“Existe uma diferença entre convencer alguém de um argumento e fazer com que o argumento nem precise ser apresentado, porque ele já é aceito como premissa”, explicou a ativista Alessandra Orofino. Ela tratou da influência da cultura na construção de visões de mundo que passam a ser aceitas como premissas. Orofino usou a percepção social sobre o agronegócio como exemplo de como investimentos contínuos em comunicação e indústria cultural podem consolidar imaginários e produzir efeitos concretos nas decisões políticas.
Para o artista urbano Mundano, a cultura e o clima fazem parte da vida cotidiana. “Cultura é clima, e clima é cultura. A cultura é o nosso modo de viver, está na nossa alimentação e nas nossas escolhas”, afirmou. Ele menciona que a repetição de estatísticas sobre queimadas, desmatamento e eventos extremos pode normalizar a emergência climática e fazer com que a destruição “vire paisagem”.
Ao apresentar sua atuação como artivista, Mundano contou que utiliza materiais ligados a desastres socioambientais em suas obras, como lama tóxica do rompimento em Brumadinho, cinzas de queimadas da Amazônia, do Pantanal e do Cerrado e óleo derramado no litoral do Nordeste. “A cultura e a arte têm um lugar de levar a informação de outra forma, que possa fazer a pessoa sentir a emergência climática, refletir e ser tocada de outro jeito. Só os números não estão funcionando”, avaliou.
A pesquisadora indígena Geni Núñez levou ao debate as contribuições das ciências e das cosmogonias indígenas para a construção de outras relações com o planeta. Ela ressaltou que o papel dos povos indígenas na proteção da biodiversidade está relacionado a modos de vida que não colocam o ser humano no centro de todas as coisas. “Nossas cosmogonias não colocam o humano como o começo e o fim de tudo e nem acreditam nessa hierarquia que dá sustentação à exploração dos demais seres”.
Para Geni, a colonização opera por meio de monoculturas da fé, da língua, dos costumes e dos modos de vida. Em contraste, a floresta expressa a potência da diversidade e da convivência. “Se um rio é olhado a partir da ideia de que é um recurso, um objeto, ou se é entendido como um avô, isso configura uma relação ética diferente com esse ser. Precisamos pensar não apenas a mudança na ponta das práticas, mas também a ideologia que inspira essas práticas”, destacou.
Da negociação à implementação
Na sequência, a sessão Da COP 30 à implementação: governança para a cultura e a ação climática reuniu o Campeão Climático de Alto Nível da COP 30, Dan Ioschpe; o geógrafo e pesquisador Diosmar Filho; Flávia Bellaguarda; e a artista visual e ativista norte-americana Favianna Rodriguez, com mediação da coordenadora-geral da Agenda de Ação da Presidência da COP 30, Bruna Cerqueira. O debate abordou os caminhos para transformar os compromissos firmados nas negociações internacionais em políticas, instituições, redes de colaboração e ações concretas nos territórios.
Ao introduzir a conversa, Bruna Cerqueira ressaltou que a COP 30 marcou uma transição da negociação para uma etapa voltada à implementação dos compromissos climáticos. Nesse contexto, a cultura passou a integrar a estrutura da Agenda Global de Ação Climática como uma das dimensões capazes de mobilizar diferentes setores da sociedade e contribuir para que as decisões internacionais alcancem as cidades e comunidades.
Dan Ioschpe apresentou a arquitetura construída pela Presidência da COP 30 em conjunto com as Nações Unidas para organizar essa nova etapa da ação climática. O modelo reúne 482 iniciativas globais conectadas a 30 grupos de ativação e a 30 objetivos-chave, distribuídos em seis eixos temáticos. Entre eles está o desenvolvimento humano e social, no qual a cultura ganhou espaço específico.
“Foram organizadas 482 iniciativas globais, registradas num sistema que qualquer um pode acessar. Essas iniciativas foram conectadas a 30 grupos de ativação que conversam com 30 objetivos-chave da COP 30, um deles, o tema da cultura”, detalhou.
A estrutura também conta com 120 Planos de Aceleração de Soluções, voltados a ampliar iniciativas de mitigação e adaptação já existentes e fortalecer sua implementação nos próximos anos. Para Ioschpe, o desafio passa agora pela capacidade de articulação entre governos, sociedade civil, empresas, instituições e demais atores envolvidos na agenda climática.
“Precisamos do chamado espírito do mutirão, que foi trazido pela liderança brasileira para os ciclos das COPs”, salientou. Ao defender o engajamento nos mecanismos criados, acrescentou: “O que está sendo oferecido são os meios de participação. Se nós não participarmos, alguém irá participar”.
Flávia Bellaguarda concentrou sua análise no desafio de fazer com que decisões construídas no âmbito multilateral cheguem às políticas nacionais, estaduais e municipais. Ela citou as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e instrumentos brasileiros como o Plano Clima, o AdaptaCidades e o Indica Cidades como ferramentas para aproximar os compromissos internacionais das diferentes realidades do país.
“Quando a gente chega nos territórios, cada território tem a sua dor específica. E isso precisa ser olhado com cuidado. O papel do Estado é garantir esses elementos certos nas mãos dos municípios, nas mãos do Estado”, ponderou.
Ela chamou atenção ainda para o reconhecimento dos conhecimentos dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais nas discussões internacionais sobre o clima. Para Flávia, a incorporação dessas perspectivas representa um avanço na construção de políticas de adaptação mais conectadas às experiências e necessidades dos territórios.
O desafio para os próximos anos, segundo a debatedora, é estabelecer pontes entre essas manifestações culturais e os processos institucionais que levarão ao próximo ciclo do Balanço Global do Acordo de Paris.
Diosmar Filho trouxe ao painel outra compreensão sobre o tempo e o desenvolvimento. O pesquisador contrapôs a aceleração associada à industrialização dos últimos séculos ao conceito africano de Sankofa, que propõe uma relação em que passado e presente permanecem conectados e em diálogo.
Na avaliação dele, enfrentar a mudança do clima exige questionar modelos de desenvolvimento que desconsideraram as características naturais e culturais dos territórios. Ele apontou que processos de adaptação podem encontrar respostas em conhecimentos desenvolvidos historicamente pelas próprias populações, como ocorre no Semiárido brasileiro.
Ao trazer a perspectiva das artes para o debate, Favianna Rodriguez defendeu que a implementação da agenda climática depende também da capacidade de comunicar seus desafios de uma maneira que dialogue com a experiência cotidiana das pessoas. Para a artista e ativista, a predominância de uma linguagem técnica pode distanciar a sociedade das discussões internacionais.
Favianna argumentou que artistas podem funcionar como pontes entre a complexidade científica e política da crise climática e a mobilização da sociedade. “Quando digo ‘temos cem estratégias de mitigação’, isso toca seu coração? Usamos uma linguagem que não move as pessoas”, provocou.
Ao encerrar o painel, Bruna Cerqueira ressaltou que a inclusão da cultura na estrutura da Agenda de Ação abre uma janela de atuação que se estende para além das conferências anuais do clima. “Na prática, isso significa que, no eixo cinco da agenda de ação sobre desenvolvimento humano e social, a gente tem um grupo inteiramente focado em cultura”, explicou.
A coordenadora convocou os participantes a ocupar os espaços de governança e colaboração abertos a partir da COP 30 e deixou como reflexão o desafio de transformar o reconhecimento conquistado pelo setor em resultados concretos nos próximos anos.