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Pesquisador brasileiro descobre nova subfamília de vaga-lumes

Artigo publicado na revista científica Insect Systematics and Diversity, em novembro, revela a descoberta de um grupo novo, ou subfamília, de vaga-lumes não bioluminescentes. Esses insetos, incapazes de produzir e de emitir luz, são besouros da família Lampyridae.
Publicado em 29/12/2020 11h12

Artigo publicado na revista científica Insect Systematics and Diversity, em novembro, revela a descoberta de um grupo novo, ou subfamília, de vaga-lumes não bioluminescentes. Esses insetos, incapazes de produzir e de emitir luz, são  besouros da família Lampyridae. O novo grupo descrito no artigo que tem como primeiro autor o ex-bolsista de doutorado no exterior do CNPq, Vinícius de Souza Ferreira, teve sua existência confirmada por meio de análises de DNA e de anatomia e morfologia comparadas. O pesquisador descobriu que esses besouros são afetados por um processo biológico conhecido como pedomorfia, pelo qual características das formas juvenis estão presentes nas formas adultas desses animais. Por se tratar de insetos coletados no México, as espécies do novo grupo foram nomeadas como gênero Chespirito e subfamilia Chespiritoinae, em homenagem ao Roberto Bolaños, o conhecido intérprete dos personagens Chaves. Segundo Vinícius Ferreira, a deferência se deve ao carisma de Bolaños  na América Latina e é um gesto para chamar a atenção para esse tipo de pesquisa. Além da subfamília e do gênero, três espécies novas são descritas no artigo: Chespirito zaragozaiChespirito ballantyneae e Chespirito lloydi. As espécies homenageiam pesquisadores que dedicaram suas vidas ao estudo dos vaga-lumes.

Chespirito lloydi Ferreira, Keller e Branham 2020. Uma das três novas espécies descritas no trabalho. Crédito da foto: Vinicius Ferreira.

De acordo com Vinícius Ferreira, embora nem todos os Lampyridae sejam pedomórficos, a subfamília Chespiritoinae e seus membros (o gênero e as três espécies) possuem particularidades que indicam pedomorfia, como redução na morfologia e venação alar, bem como corpo menos esclerosado, ou seja, mais mole. A descoberta da nova subfamília de vaga-lumes é considerada algo incomum, mesmo no mundo dos insetos. O grupo descrito no artigo possui anatomia diferente de tudo o que os pesquisadores conheciam até então, apresentando características morfológicas incomuns aos vaga-lumes. Os  adultos machos são insetos alados, que possuem as características de um besouro. No caso, asas modificadas em uma estrutura membranosa  chamada de élitro, peças bucais do tipo mastigadoras e antenas divididas em 11 partes. Ao que tudo indica, as fêmeas adultas dos Chespiritoinae, ainda desconhecidas, podem ser parecidas com larvas, o que os pesquisadores chamam de fêmeas laviformes. Essa conclusão foi baseada no conhecimento de outros grupos de besouros com morfologia e anatomia similares aos dos machos Chespiritoinae.

Vinicius Ferreira (esquerda) e Michael A. Ivie (direita) estudando besouros da família Lycidae na Montana State University. Instituição onde a pesquisa foi desenvolvida e financiada pelo CNPq. Crédito da foto: Adrian Sanchez-Gonzalez.

O artigo é parte da pesquisa de doutorado de Vinícius Ferreira, em que ele estuda também besouros da família Lycidae, afetados, do mesmo modo, pelo processo de pedomorfia. O pesquisador se encontra em estágio final de doutorado na Montana State University, Estados Unidos, sob a supervisão do professor  Michael A. Ivie. Os exemplares utilizados no estudo estavam depositados em coleções científicas há mais de 50 anos, sem nunca terem sido descobertos até a pesquisa de Vinícius Ferreira. Muitas das espécies analisadas haviam sido coletadas há anos, em lugares que não existem mais devido à ação humana.