Notícias
Debate
Vencedoras do Prêmio Mulheres e Ciência falam sobre luta por afirmação em ambientes dominados por homens
- Foto: Foto: Marcelo Gondim
Como parte das comemorações pelo Dia da Mulher, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) vem promovendo, desde 11 de fevereiro, uma série de debates sobre o papel das mulheres na ciência. No dia 11 de março, a roda de conversa foi com as vencedoras do 1º Prêmio Mulheres e Ciência. Machismo na ciência, políticas de incentivo para as novas cientistas e como conciliar profissão e vida pessoal foram alguns dos assuntos abordados.
A diretora de Cooperação Institucional, Internacional e Inovação do CNPq, Dalila Andrade Oliveira, começou a roda destacando o papel central do governo na promoção da equidade de gênero. Ela relembrou o enfraquecimento desse tipo de política a partir de 2016: “A descontinuidade de um programa de equidade de gênero não é algo aleatório. Representa o descompromisso daquele grupo político [com o tema]”. Por isso mesmo, a diretora considera o 1º Prêmio Mulheres e Ciência de caráter simbólico nessa retomada. “Nós temos obrigação de pensar políticas públicas voltadas à equidade de gênero na nossa matéria”, diz.
Assista à Roda de Conversa na íntegra:
"Não merecedoras"
Patrícia Takako Endo, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Computação da Universidade de Pernambuco (UPE) agraciada na categoria Estímulo (para pesquisadoras de até 45 anos de idade), falou que passou a vida inteira em um ambiente majoritariamente masculino. “Nos sentimos incapazes, não merecedoras. Por isso que eu acho que esse prêmio é tão importante para a gente consolidar esse papel de mulher pesquisadora”, diz. Para ela, além das dificuldades em ser mulher, ainda há os obstáculos regionais já que ela não trabalha nas grandes metrópoles.
Pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq, Camila Cherem Ribas, agraciada na categoria Trajetória (para cientistas com idade a partir de 46 anos), partilha a mesma leitura. Ela afirma que o prêmio vem para mostrar a importância de se valorizar o conhecimento produzido fora dos grandes centros. E salienta a importância de se mudar a sociedade, hoje machista, para que minorias não precisem instituir políticas, dias e premiações. “As relações dentro das casas, nas ruas, têm de mudar para que não precisemos mais de prêmios exclusivos”, desabafa.
Além do preconceito de gênero, a pesquisadora titular do Instituto Nacional do Câncer (Inca), Mariana Emerenciano de Sá, que é uma mulher negra e recebeu o prêmio na categoria Estímulo, teve de superar o racismo para chegar onde chegou. Ela conta que, em locais onde atuou, via pessoas da sua cor apenas fazendo faxina ou servindo café, mas não em sua posição. Segundo a pesuisadora, é importante repensar as tarefas de cuidado, para que mulheres possam ter direito a ocupar espaços. Um exercício proposto pela pesquisadora é fazer aos homens a mesma pergunta que se fazem as mulheres: “Qual desafio você enfrentou por ser homem?”. Dessa forma, ela acredita que seja mais fácil refletir sobre a desigualdade.
Políticas de permanência
No debate, as representantes das instituições premiadas na categoria Mérito Institucional falaram sobre as políticas que estão sendo adotadas para que mulheres possam continuar investindo em suas carreiras.
Segundo Paula Land Curi, da Universidade Federal Fluminense (UFF), a equipe trabalha no fortalecimento de espaços para que as mães possam levar as crianças para a universidade, como salas de amamentação e acolhimento. “Vai contribuir para que meninas vejam que podem fazer ciência”, disse.
Flávia Santos, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), destacou que ações adotadas por lá como adoção do nome social, banheiros universais, projeto de dignidade menstrual, inclusão de fraldários e salas de amamentação “ Esse reconhecimento é fundamental porque outras instituições vão se enxergar na gente. Tenham acesso [a esse conhecimento] e consigam reproduzir”.
O mês da Mulher na Ciência do CNPq realizará ainda dois debates: "As mulheres na Agenda da Inovação", previsto para o dia 18/03; e "A História das Políticas para as Mulheres nas Ciências no Brasil: Passado e Futuro", a ser transmitido no dia 25/03, pelo Canal do CNPq.