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Observatório Nacional explica o que é um alinhamento planetário e desmistifica boatos
Diante do grande interesse da população acerca do alinhamento planetário, o Observatório Nacional (ON/MCTI), cumprindo sua missão de divulgação da ciência e combate à desinformação, explica o que é o fenômeno. Para tal, conta com a colaboração do Dr. Gabriel Hickel, astrônomo, professor da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI) e parceiro do ON no programa “O Céu em Sua Casa”.
O que é um alinhamento planetário
É um fenômeno que ocorre quando três ou mais planetas estão quase que espacialmente alinhados em um sistema planetário (Figura 1). As órbitas dos planetas do Sistema Solar estão mais ou menos em um mesmo plano. Como os planetas têm períodos orbitais diferentes e determinados pela gravitação (quanto mais próximos do Sol, mais rápidos), é relativamente comum que três ou mais planetas alinhem-se de vez em quando. Se for do ponto de vista observacional, a Terra tem que ser, necessariamente, um deles.

“Quando vemos um alinhamento planetário aqui da Terra, não os veremos formando uma linha reta, mas sim mais ou menos próximos entre si, em um mesmo pedacinho do céu, já que nós, na Terra, estamos sobre a linha. É como observar uma fila de pessoas ou de carros, estando nela”, explicou o Dr. Gabriel Hickel.
A verdade sobre o que de fato vai ocorrer
Entre 18 e 28 de fevereiro, o que se verá nada tem a ver com alinhamentos planetários autênticos (Figuras 2 e 3). Como dito acima, os planetas do Sistema Solar estão mais ou menos sobre um mesmo plano. Isso significa que, daqui da Terra, eles são observados projetados em uma faixa estreita do céu, que corresponde ao plano geral do Sistema Solar. Esta faixa foi nomeada faixa zodiacal pela antiga civilização helênica e os planetas sempre estarão nela, que cobre 360 graus no nosso céu (Figura 4). Então, não é correto chamar a disposição dos planetas ao longo dessa faixa de "alinhamento planetário".

- Figura 2: Mostra a distribuição dos planetas dos planetas Mercúrio, Vênus, Terra e Marte no dia 21 de Fevereiro de 2026. O Sol e os planetas não estão em escala, mas as órbitas, sim. As linhas tracejadas marcam as direções de visada de cada planeta, a partir da Terra. É fácil de notar que os planetas não estão alinhados. Terra, Mercúrio e Vênus irão traçar mais ou menos uma reta, pelo dia 25 de Fevereiro, mas será bem difícil vê-los no horizonte oeste, logo após o Sol se pôr. Fonte: TheSky.com.

- Figura 3: Como a anterior, mas para os planetas exteriores, mais afastados do Sol. As linhas em tracejado branco são as mesmas da Figura 1. As linhas em tracejado laranja marcam as direções de visada de cada planeta exterior, a partir da Terra. Nesse caso, é fácil ver que Terra, Saturno e Netuno estão quase alinhados. Mas Netuno não é visível a olho nu, a partir da Terra. Já Urano (também não visível) e Júpiter, não participam de qualquer alinhamento. Fonte: TheSky.com.

- Figura 4: O plano do Sistema Solar, com a distribuição dos planetas (fora de escala) em 20 de Fevereiro de 2026. Embaixo, a faixa do céu conhecida como zodíaco, com a projeção do plano geral do Sistema Solar e como enxergamos esta distribuição aqui da Terra. Todos os planetas, o Sol e a Lua ocupam esta faixa. Quando distribuída no céu, a faixa do zodíaco cobre 360 graus (metade acima do horizonte) e a disposição dos planetas ao longo dessa faixa NÃO caracteriza alinhamento.
O que de fato está ocorrendo entre 18 e 28 de fevereiro é que Lua e mais 4 planetas (Vênus, Mercúrio, Saturno e Júpiter) estarão no céu simultaneamente. Pouco depois do pôr do Sol. Netuno e Urano também estarão por alí, mas não serão visíveis a olho nu. Ocorre que Mercúrio e Vênus estarão aparentemente muito próximos do Sol e é quase impossível vê-los. A palavra “aparentemente” refere-se à nossa visão do céu e não à disposição dos planetas em suas órbitas no Sistema Solar.
Esta configuração não tem local privilegiado, mas está acontecendo em todo o Brasil: assim que o Sol desaparece no horizonte oeste e fica escuro o suficiente para que os planetas e a Lua possam aparecer, ainda na luz tênue do crepúsculo (Figuras 5 e 6).

- Figura 5: Mostra o céu visível (como veríamos, deitados, com a cabeça para o ponto cardeal Sul), em 21 de fevereiro de 2026. Os planetas Vênus, Mercúrio e Saturno, ainda imersos na luz do crepúsculo, são difíceis de notar. A Lua, mais alta no céu, é fácil e pode ser utilizada como referência. Mais próximo do meridiano local (linha Norte-Sul), na porção nordeste do céu, estará um brilhante e inconfundível astro, o planeta Júpiter. Fonte: Stellarium 24.2.

- Figura 6: Detalhe do horizonte oeste, por volta das 19h deste sábado, dia 21 de Fevereiro de 2026. Para conseguir observar Vênus e Mercúrio, será necessário um horizonte oeste livre de nuvens e de obstáculos em solo, como edificações, morros e árvores; pois tanto Vênus, quanto Mercúrio, estarão muito baixos, junto ao horizonte. Serão apenas cerca de 10 minutos para vê-los antes de desaparecerem no horizonte oeste. Saturno e Lua, mais altos, são de fácil identificação, com cerca de uma hora de observação. Fonte: Stellarium 24.2.
Uma configuração planetária como essa não é rara, pois costuma ocorrer em quase todos os anos. Para apreciá-la será preciso ir para um local onde tenha um horizonte oeste desimpedido, sem edificações, morros ou árvores na sua linha de visada. (Lembre-se de que o Sol se põe a oeste.) Por volta das 19h, já estará escuro o suficiente para se observarem os planetas. Vênus estará muito junto ao horizonte e será bem difícil notá-lo. O mesmo vale para Mercúrio. Esta dupla poderá ser vista por 10 minutos ou menos, dependendo da localização do observador.
Um pouco mais alto em relação ao horizonte oeste, estará Saturno, que poderá ser visto até às 20h. Muito junto a Saturno estará Netuno, mas este planeta não é visível a olho nu da Terra, por estar muito distante de nós. Entre Saturno e Júpiter, estará Urano, mas também inacessível a olho. Bem mais alto no céu, perto de passar pelo meridiano local, estará o rei das noites deste verão, o planeta Júpiter, o astro mais brilhante do céu atual, depois da Lua.
Para se localizar e achar os planetas, é altamente recomendável que as pessoas façam uso de um aplicativo de celular que simule o céu. O Stellarium é um bom exemplo, gratuito e multiplataforma.
Mais sobre os alinhamentos planetários: frequência, consequências e a visão científica
Configurações planetárias como a deste final de fevereiro ocorrem praticamente todos os anos. Alinhamentos planetários, também, se considerarmos apenas os planetas mais internos do Sistema Solar (Mercúrio, Vênus, Terra e Marte), pois os períodos orbitais deles são curtos.
Se incluirmos planetas gigantes gasosos exteriores, a raridade aumenta. Por exemplo, em 20 de fevereiro houve um alinhamento quase perfeito entre Terra, Saturno e Netuno, que ocorre a cada 35,5 anos (se a ordem da sequência importar) ou a cada 18 anos, se a ordem não importar. Caso se considerem todos os oito planetas do Sistema Solar, haverá um alinhamento quase perfeito a cada 85,7 anos, se a ordem de alinhamento não importar.
Alinhamentos planetários não têm nenhuma influência significativa na Terra, além de proporcionar um espetáculo visual no céu. A influência gravitacional dos planetas sobre a Terra é pequena, causando pequenas alterações cíclicas na órbita da Terra e na inclinação do eixo de rotação do planeta, ao longo de milênios.
No entanto, isso é um efeito contínuo, que não depende de alinhamentos ou configurações planetárias. Mesmo um alinhamento real e perfeito entre os planetas do Sistema Solar, provocaria um efeito mínimo nas marés oceânicas da Terra, de apenas 2 centímetros, o que é muito pouco ante a influência da Lua e do Sol, cujos efeitos diários são 100 vezes maiores.
Nos séculos XVII e XVIII, alguns alinhamentos planetários eram utilizados para se estimar a distância aos planetas, pela técnica de paralaxe (deslocamento aparente do objeto por conta da mudança de vista do observador).
Hoje em dia, para a Astronomia observacional, não há mais importância. Mas ainda há quem os estude. O planejamento de exploração espacial de algumas sondas robóticas leva em conta os alinhamentos planetários para um melhor desempenho. Isso foi efetuado com as missões Voyager 1 e 2, por exemplo, no início dos anos 80 do século passado, para aproveitar o alinhamento dos gigantes gasosos (Júpiter, Saturno, Urano e Netuno) do Sistema Solar.
O uso das manobras chamadas "assistências planetárias", que servem tanto para ganhar ou perder velocidade, como para criar desvios, sem gastar combustível, pode levar em consideração os alinhamentos. Outro campo que também pode necessitar de análise de alinhamentos planetários é a História. Alguns registros de conjunções planetárias brilhantes são retratados ou descritos em obras ou documentos que não possuem datas. E esse tipo de registro é passível de ser analisado, para o passado, permitindo a datação.