A Tenda Multiétnica no FICA 2025: território de resistência e autoria indígena
por José Xêcajcàr Alecrim (Curador da Revista Pihhy)
Entre os dias 11 e 14 de junho de 2025, aconteceu a 7ª edição da Tenda Multiétnica, realizada na Praça do Chafariz, na cidade histórica de Goiás, antiga capital do estado. Este importante espaço de resistência indígena acontece simultaneamente ao Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA).
Tenda Multiétnica
A Tenda Multiétnica é promovida pela Universidade Estadual de Goiás (UEG), em parceria com a Secretaria de Estado da Educação (SEDUC), a Secretaria de Desenvolvimento Social de Goiás (SEDS) e, neste ano, também com a Fiocruz.
Sua proposta central é proporcionar ao público uma aproximação e imersão nos saberes ancestrais e contemporâneos de diferentes povos e culturas, entre indígenas, quilombolas e camponeses.
A cada ano, a Tenda tem ampliado a presença indígena em sua programação. Inicialmente, contava apenas com representantes de comunidades com terras demarcadas em Goiás: os Tapuia do Carretão (Nova América-GO), os Iny-Karajá (Aruanã-GO) e os Avá-Canoeiro (Minaçu-GO).
Nesta sétima edição, o evento recebeu também representantes dos povos Kaingang, Guarani e Kaiowá, Kariri-Xocó, Kalapalo, Mẽmõrtumré-Canela, Apanyekrá-Kanela, Xacriabá, Boe-Bororo, A'uwẽ Uptabi – Xavante, Yanomami e Krenak.
Diferentemente de outras experiências na região Centro-Oeste, a proposta da Tenda Multiétnica não se sustenta em vivências comerciais — aquelas em que se cobram valores abusivos por supostas “vivências completas”, muitas vezes esvaziadas de sentido e desconectadas das populações indígenas.
Em muitos desses casos, o que se observa é a reprodução de práticas exóticas voltadas ao entretenimento de consumidores urbanos, que enriquecem empresários e novamente colonizam — agora sob a máscara do turismo vivencial.
A Tenda vai na contramão disso: é construída de forma orgânica, em diálogo direto com as populações indígenas, quilombolas e do campo. Sua programação inclui apresentações culturais, feira multiétnica com pintura corporal e arte indígena, rodas de conversa, oficinas, mesas de debate e exposições — tudo voltado à celebração da multidiversidade epistemológica dos povos participantes.
Entre os momentos mais marcantes desta edição, destacam-se a presença de Davi Kopenawa, liderança Yanomami que recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela UEG; o retorno de Ailton Krenak, escritor, filósofo e membro da Academia Brasileira de Letras; e a presença de Fernanda Kaingang, diretora do Museu Nacional dos Povos Indígenas, que vem fortalecendo, ano após ano, a inserção das pautas indígenas na programação oficial do FICA e da própria Tenda.
Neste ano, a Revista Pihhy também integrou a Tenda, reafirmando-se como espaço democrático e pedagógico das lutas e saberes indígenas. Sua participação foi compartilhada em parceria com o Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte e o Instituto de Pesquisa e Estudo em Arte e Educação (IPEARTES), ambos da SEDUC-GO, dentro da área de Arte/Educação e Educação Socioambiental.
Juntas, essas instituições promoveram encontros com estudantes e visitantes de diversas regiões de Goiás e do Brasil. Durante a atividade, foi distribuído o livro Wyty: Música e Conhecimento, de autoria de José Krikati, liderança do povo Krikati (MA), além da exposição de ferramentas e canais de comunicação e autoria indígena acessíveis por meio da plataforma da PIHHY.
As rodas de conversa desta edição colocaram em foco a importância da autoria indígena como prática de resistência e decolonização. A presença de um dos curadores da revista, José Xêcajcàr Alecrim, reforçou o compromisso da PIHHY como território de escuta, visibilidade e afirmação das vozes e imagens indígenas, consolidando-se como uma ferramenta de fortalecimento democrático e epistemológico para os povos originários.
A expectativa é que a revista PIHHY inspire outros projetos semelhantes em âmbito nacional, ampliando seu impacto e consolidando uma rede colaborativa de autoria indígena. Além disso, a revista busca expandir sua atuação, incentivando a participação de um número crescente de autoras e autores indígenas, ampliando assim a pluralidade de narrativas e saberes compartilhados.
Fotos: Professora Mara Veloso – SEDUC-GO
Davi Kopenawa e José Xêcajcàr Alecrim. Momento de diálogo e apresentação da revista PIHHY, acompanhada por uma ilustração criada especialmente para o livro de Fernanda Kaingang, que dedica um de seus capítulos sobre a liderança de Davi Kopenawa.
Oficina de desenho e pintura, com distribuição do livro Wyty: Música e Conhecimento, de autoria de José Krikati, para jovens estudantes da Rede Estadual de Ensino de Goiás.
Distribuição do livro Wyty: Música e Conhecimento, de autoria de José Krikati, para jovens estudantes da Rede Estadual de Ensino de Goiás. Este livro foi produzido como parte dos projetos de livros impressos da Revista Pihhy.
Durante a 7ª Tenda Multiétnica, realizada na histórica Cidade de Goiás, José Xêcajcàr Alecrim foi convidado a participar de uma das apresentações do Povo Kariri-Xocó de Alagoas. Este momento exemplifica um dos objetivos centrais tanto da Tenda quanto da revista PIHHY: ser um espaço de voz indígena, feito com e por pessoas indígenas. Nesta foto: Naran Kariri-Xocó, Sulivan Kariri-Xocó, Kaawiran Pires Kariri-Xocó, Tupya Fulni-ô e demais lideranças.