“NÓS, MULHERES INDÍGENAS, SOMOS TERRA”: PROTAGONISMO DE UMA MULHER KARIPUNA
Simone Vidal da Silva
Historicamente alijadas dos espaços de liderança, as mulheres indígenas têm conquistado, nas últimas décadas, crescente visibilidade nas esferas da política indígena e indigenista.
É o caso de Simone Karipuna, uma das mais proeminentes lideranças do Amapá e do Norte do Pará, cuja trajetória rompe com os papéis tradicionais atribuídos às mulheres indígenas, afirmando-se como referência política nas pautas relativas aos direitos nas aldeias, territórios e comunidades do Oiapoque. Desde 2023, está à frente da coordenação regional do Distrito Sanitário Especial Indígena do Amapá e Norte do Pará (DISEI), sendo que sua atuação reafirma a importância do protagonismo feminino na definição dos rumos presentes e futuros dos povos indígenas no Brasil e na América Latina.
Em 2022 apresentou o estudo “Nós, mulheres indígenas, somos terra”: protagonismo feminino Karipuna e trajetórias de resistência no movimento indígena do Amapá e Norte do Pará”, no Curso de Especialização em Estudos de Cultura e Política na Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), que analisa o protagonismo feminino indígena a partir de sua trajetória de vida. Sua autoetnografia como metodologia de investigação evidencia as conquistas e os desafios enfrentados por mulheres indígenas em contextos comunitários e institucionais, bem como os processos de luta por reconhecimento, direitos territoriais e políticas públicas diferenciadas. Simone é uma das cofundadoras da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), sua história se entrecruza com a afirmação do movimento indígena das últimas décadas, tendo atuado na gestão da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e na esferea do movimento indígena regional à frente da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (APOIANP), construindo, tanto ao nível local como nacional, um percurso de resistência que reafirma o papel político das mulheres indígenas na atualidade.
Ao longo da história, a presença das mulheres muitas vezes ficou restrita a alguns espaços pontuais, sobretudo aos familiares, em seus papéis de mãe e de esposa. Nos últimos séculos e décadas, a visibilidade feminina ultrapassou esses espaços tradicionais e alcançou lugares de projeção, poder e de atuação política. Em seu território indígena, a Terra Indígena Juminã (Amapá, Brasil), as mulheres têm uma presença singular e fundamental, e isso está na base de sua pesquisa.
Autoetnografia de uma mulher Karipuna!
Sou Simone Vidal da Silva, ou, simplesmente, Simone Karipuna. Meu povo é conhecido como Karipuna do Amapá e nasci em uma localidade chamada Taparabo, em 06 de agosto de 1977. Foi lá que meu umbigo foi enterrado. Naquela época, não havia escola na minha aldeia, meus pais eram obrigados a sair até essa localidade, Taparabo, para levar alimentos para as minhas irmãs, como farinha, tapioca, frutas, peixes e caças, que ficavam nas casas de conhecidos dos meus pais para poder estudar. Nesse período, não tínhamos barco com motor de popa, então, o transporte era a remo e durante uma dessas viagens minha mãe foi obrigada a dar à luz ao meu nascimento nessa localidade. Só voltamos para a minha Aldeia no Juminã depois do período do resguardo. Naquele período, nossa Terra – nosso território –, que fica situada na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, ainda não estava demarcada e homologada.
Cresci em uma família muito empoderada, muito forte, e com um papel político importantíssimo na região do Rio Oiapoque. Meu avô, Dário Vidal, conhecia outras regiões da Terra Indígena Uaçá. Minha avó, Maria Clara Forte, era da Aldeia Espírito Santo. Assim, tínhamos essa ligação com os outros parentes, mas não havia participação nas discussões das outras regiões. Meu avô foi um grande líder do Juminã, e passou a representar no contexto indígena regional as reivindicações de nossa comunidade nas Assembleias dos Povos de Oiapoque. Dário Vidal contou com o convite e apoio do cacique Manoel Floriano Macial, da Aldeia Tukay, para então participar das Assembleias Indígenas regionais, e, por conseguinte, teve o apoio de outras lideranças também. Todos os meus parentes, sejam eles avós, tios, pai, mãe e irmãos, juntavam forças para apoiar meu avô, garantindo sempre a participação dele nas reuniões e assembleias, pois o objetivo era de proteger o nosso território e garantir políticas públicas voltadas às comunidades. Recordo-me que o cacique Dário Vidal precisou sair do território e ir para reuniões e agendas fora da comunidade. Meus tios e meu pai ajudavam nesse deslocamento, e o cacique sempre ia acompanhado de seu conselho e, inclusive, com a gente – família – junto. O vovô era aposentado, sustento que dava suporte para muita coisa, mas, às vezes, não era possível viajar, faltava dinheiro. Então, a comunidade fazia a coleta para auxiliar no cumprimento das agendas fora da aldeia. Lembro que a gente preparava farinha, tucupi e outros alimentos mais básicos e que tinham um poder de conservação maior para que meu avô pudesse levar junto e se alimentar.
Assim, foi nesse cenário de luta que fui vendo e participando de muitas reuniões dentro do território indígena, sejam de planejamento ou de acordos, mas sempre com muita dificuldade de ver mulheres na frente das discussões falando e propondo. Com o tempo, isso foi sendo transformado no meu território, porque as mulheres foram trazidas pela minha avó. Meu avô era o cacique e o pajé, Dario Vidal, e ele sempre teve responsabilidade e respeito com a minha avó, Maria Clara Forte, sobretudo na hora de tomar decisões, ocasião em que ela sempre podia se manifestar. Em alguns momentos, inclusive, meu avô falava considerando a voz dela. Desde então, a mulher passou a exercer um papel importante no meu território como orientadora dos homens, paulatinamente, elas – nós – também passaram desse espaço de orientadora para ocupar de forma ativa e altiva um espaço de voz própria enquanto lugar de fala, expondo posicionamentos e questionamentos. Assim, o papel das mulheres tem crescido cada vez mais e vem se consolidando enquanto protagonismo sociopolítico.
Ao longo do tempo, é perceptível o empoderamento das mulheres indígenas no território da região de onde eu venho. Percebi que as mulheres começaram a caminhar em um novo campo – sociopolítico – visando contribuir para além dos bastidores e dos aconselhamentos dos maridos, dos filhos e dos tios. Nessa trajetória, buscamos estar sentadas na mesa de discussão, e isso foi acontecendo gradativamente para nós, mulheres, inclusive comigo. Apesar do medo de errar na escolha das palavras e no tom de fala que deveria ser apropriado para não parecer agressivo, tivemos que ser, em muitos momentos, incisivas em nossos pronunciamentos, recorrendo a uma fala afirmativa, de forma significativa e empoderada, que mostrasse que era necessária nossa participação enquanto mulheres, não somente em uma discussão restrita e pontual, mas também no planejamento para monitorar o nosso território, para fazer a fiscalização, entre tantos outros assuntos. Aos poucos, saímos da limitada instância de atuação onde éramos responsáveis por fazer a alimentação para a tomada de ações políticas em nosso território.
Nos últimos anos, venho acompanhando esse movimento político que, aos poucos, começou a ter a incidência crescente das mulheres nas reuniões comunitárias, nas reuniões de região, nas assembleias gerais, mesmo que timidamente. Nos momentos de discussão de lideranças, víamos, na grande maioria das vezes, os homens na centralidade das mesas, nas plenárias das grandes reuniões e, sobretudo, conduzindo as assembleias. De onde eu venho, conseguimos construir um novo lugar das mulheres Karipuna nas discussões, consigo perceber esse fenômeno também ocorrendo entre os outros povos, pois, apesar das limitações, as mulheres estão se inserindo nas agendas políticas de suas comunidades. As mulheres enquanto lideranças vêm se fortalecendo em suas bases, possibilitando a criação de um elo de empatia e solidariedade. O empoderamento das mulheres foi fortalecido com a presença do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) através dos diversos cursos que ofertava, como de corte e costura; lembro claramente o que vivenciei acompanhando a minha mãe Joaquina Vidal, naqueles momentos de interação de mulheres de todas as regiões indígenas de Oiapoque. Esse movimento ajudou a manifestação do envolvimento e consequentemente na autonomia feminina.
Compreendo a gênese desse processo crescente de protagonismo feminino indígena a partir de muitas influências. Tivemos o apoio do CIMI, instituição que nos ajudou a chegar nesse momento de fortalecimento das mulheres nos debates e assuntos comunitários, claro, essa inserção sempre foi ao nosso modo. No princípio, tais discussões surgiam de forma mais restrita, ainda não eram abertas e com vários públicos. Na época, se dizia “fam que fam”, que é em nossa língua Kheuol justamente uma conversa, uma discussão de “mulheres com mulheres”, de mulheres falando para mulheres. Esses momentos oportunizados pelo fam que fam contribuíram para se confluir à efetivação de uma representatividade política, como é o caso da Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM). Essa caminhada de construção, de diálogo e de conversas para além das plenárias, conversas estabelecidas nos intervalos, a partir da troca de experiências, possibilitaram o surgimento de um outro olhar e reflexão sobre de que forma poderíamos contribuir com o fortalecimento e o empoderamento da mulher de nosso território.
O fam que fam começou há muito tempo atrás, com o apoio direto da irmã Rebecca Spires e do Padre Nello Ruffaldi, ambos do CIMI. De início, havia a participação de mulheres e homens, inclusive, com a participação de professores do Mobral, mas, aos poucos, o fam que fam se tornou um momento destinado para a interação de mulher para mulher. Havia um espaço para abrigar esses encontros, que chamávamos de “abrigo e se localizava na Paróquia da Igreja da cidade de Oiapoque. O abrigo possibilitava receber e hospedar nós mulheres, junto com nossos filhos. Nessas oportunidades, ficávamos dias fazendo intercâmbio, dialogando e fazendo cursos destinados a atender nossas necessidades. O fam que fam nos fortaleceu enquanto frente de mulheres.
Sou grata nessa experiência de vida por ter a oportunidade de acompanhar esses momentos únicos. Ser mulher e ser indígena é algo muito importante e desafiador. Ser mulher e ser indígena é também nossa identidade e nossa defesa, temos que provar constantemente nosso potencial, que podemos ser protagonistas de nossas histórias e interesses, e construir na coletividade, em espaços de disputa e de poder onde está o machismo. Enquanto mulher e indígena, encaramos a intolerância e o preconceito no cotidiano, precisamos o tempo todo provar nossa força, mostrar nosso discernimento para além do que esperam. Afirmar que é possível também atentar para além do que está posto nas discussões e decisões. Essa atuação nos requer habilidade, contudo, para avançar, é necessário trilhar um caminho muito, mas muito árduo, um percurso sempre de superação, evidenciando a importância da coletividade, do envolvimento de mais pessoas, buscando sempre ouvir as lideranças que estão nas nossas bases. Apesar dos avanços, ao longo dessa trajetória, ainda encontramos muitas mulheres limitadas e que evitam estar à frente de posições políticas e da construção de proposições, restringindo-se aos bastidores do movimento indígena de seus territórios, com pouco empoderamento na tomada de decisões.
A atuação política das mulheres indígenas fora dos territórios é muito complicada. Se dentro de nossas comunidades a defesa dos interesses junto às outras lideranças é difícil, no mundo externo, no mundo não indígena, nosso protagonismo é pesaroso. Existe uma cobrança – invisível – e muito forte sobre o entendimento das coisas, exigindo de nós falas com sabedoria. Nesses espaços, as formas de preconceito são variadas, desde aquelas que se referem aos adornos que usamos – nossa apresentação, nossa identidade – até o nosso posicionamento enquanto liderança, indígena e mulher. São múltiplos os espaços políticos fora da realidade indígena, como o político partidário, que demonstram nem sempre pensar na coletividade. São espaços políticos que tentam, a todo momento, desmerecer a nossa condição de liderança, de indígena e de mulher. Impor respeito, exigir que sejamos ouvidas e que sejamos reconhecidas como representantes de nossas regiões, enquanto mulheres lideranças indígenas, com poder de decisão à frente das discussões, não é um protagonismo fácil. É muito complexo estar nesses espaços e romper tais entraves requer fortalecimento e apoio constante advindo de nossas bases. Somente com isso poderemos justamente alcançar os interesses de todos e contribuir ao debate.
Para que uma mulher indígena esteja inserida no diálogo político, dentro de espaços de construção e resolução da agenda de interesses de nossos povos, requer-se muita dedicação. Repito, não é fácil. Temos que estar sempre muito sintonizadas e acompanhando os diálogos internos de nosso território, ser uma parceira da comunidade, tentar contribuir no que é necessário, sempre ouvir as mulheres mais idosas e os líderes, estar apta e pronta para colaborar, sem medir esforços para poder se doar na luta pelo seu povo. Esse cenário de dedicação plena é muito complicado porque acaba consumindo um tempo de vida considerável, quando, muitas vezes, deixamos de lado nossa família nuclear, uma vez que as atividades fora do território requerem isso da mulher indígena e liderança do território. Nossa atuação requer sacrifício dentro do seu próprio lar, sacrifício dentro do seu “eu” enquanto pessoa. Então, é muito árduo o nosso trabalho e nossa luta enquanto mulher e liderança, uma vez que sempre temos que pensar primeiro na coletividade, em contribuir com aquelas mulheres que não têm o mesmo conhecimento, a mesma forma de pensar ou de esclarecimento sobre a realidade que nos cerca. A mulher indígena liderança que se destaca dentro do território é aquela que se doa por completo para ajudar as famílias do seu território, aquela que não mede esforços para apoiar o seu cacique, o seu conselho dentro da aldeia e está sempre pronta e envolvida nas atividades diárias da comunidade. Esse conjunto complexo de ação e atuação da mulher indígena liderança é a nossa força, lugar de onde extraímos nossas raízes, porque a gente sabe que nós, mulheres, somos terra.
O objetivo geral de meu estudo foi analisar o protagonismo feminino no movimento indígena a partir da trajetória de vida de uma mulher Karipuna do Amapá e Norte do Pará, com vistas a visibilizar a presença de lideranças femininas, bem como os desafios enfrentados pelas mulheres em contextos de representação sociopolítica, na luta e resistência por seus povos e territórios. Dentre os objetivos específicos desta pesquisa, destacam-se compreender a atuação das mulheres no movimento indígena contemporâneo, narrar e autoetnografar a trajetória de vida de uma liderança Karipuna do Amapá e Norte do Pará no movimento indígena contemporâneo e, por fim, visibilizar percursos, desafios, conquistas, lutas e resistências enfrentadas por uma liderança feminina Karipuna no movimento indígena.
Em minha trajetória de vida tive muita dificuldade em avançar nos estudos, foi muito difícil sobreviver às adversidades existentes fora da aldeia. Fui mãe aos 18 anos e sai da aldeia para poder estudar. Quando, então, fui morar na cidade de Oiapoque. Iniciei minha vida no movimento indígena trabalhando na Fundação Nacional do Índio/Funai em 2003, aos 22 anos, atendendo diretamente indígenas mulheres, idosos e crianças. Em virtude de minha atuação, recebi um convite para trabalhar na Associação dos Povos Indígenas de Oiapoque (APIO), em 2004, e isso foi um marco muito importante no início da minha caminhada de liderança. Recordo que a primeira mulher a ocupar um espaço político dentro da APIO foi Estela Karipuna, indígena da Aldeia Santa Isabel, Terra Indígena Uaçá, que me relatou como eram as tratativas enfrentadas pela Associação, sobretudo na condição de mulher.
A história conta que os espaços de representação e ocupação das mulheres indígenas nas políticas públicas eram diminutos. Posteriormente, pude desenvolver atividades e políticas indigenistas como a primeira mulher indígena de Oiapoque a trabalhar na estrutura da Coordenação Regional da Funai do Amapá e Norte do Pará. Fui também a primeira mulher indígena a participar da Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI) representando os Povos Indígenas do Amapá e Norte do Pará, e a segunda mulher indígena a assumir a gestão do órgão indigenista na Coordenação Regional da Funai do Amapá e Norte Pará. Nessa trajetória nas políticas públicas dedicada aos povos indígenas, tornei-me Coordenadora-Executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (APOIANP), que foi criada em 2016 na cidade de Macapá, no Estado Amapá. A APOIANP tem a presença de outras mulheres coordenadoras regionais e coordenadoras locais, que representam as nossas divisões dentro do território. Na APOIANP temos espaços representativos com a presença feminina tanto na Coordenação-Executiva onde atuei, até 2022, como na articulação regional e local. Atualmente, a APOIANP é coordenada por outra importante mulher do meu povo: Luene Karipuna. As coordenações regionais e locais são a base de frente da luta e origem de nossas raízes.
Todas essas experiências pessoais adquiridas se somam para garantir e avançar na caminhada e conquista de nossos povos. Lutamos pela garantia dos territórios, pela permanência dos direitos conquistados e pelo acesso às políticas públicas diferenciadas e que atendam às especificidades de cada povo e região, elementos fundamentais e que evidenciam o significado do movimento indígena para a (re)existência dos povos indígenas. Dessa forma, em face de minha trajetória no movimento indígena desde 2003 em Oiapoque – enquanto liderança mulher – e das lutas históricas que travamos, reafirmo a importância de refletir sobre caminhadas como essa que, embora particular e situada, visibiliza a presença cada vez mais potente das mulheres indígenas atuando na defesa, luta e resistência por nossas Terras, nossos territórios e pela participação ativa da mulher na cena política que envolve nossos povos.
Para encerrar essa autonarrativa, quero pontuar brevemente sobre a construção de um espaço importante na cena política contemporânea brasileira, a constituição da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Amniga) enquanto um processo recente e que evidencia a força da mulher indígena na atualidade. Sou integrante e cofundadora da AMNIGA, que surgiu no contexto do Acampamento Terra Livre em Brasília, em 2019, como um processo de articulação, encontros e intercâmbios de muitas mulheres e amigas.
Há muitos anos que participo do ATL em Brasília, e estou sempre à frente liderando a delegação dos povos indígenas do Amapá e Norte do Pará. Durante a ATL ocorrem pequenas reuniões, sobretudo à noite, quando não há nada na plenária principal. Nessas oportunidades, nós, mulheres, passamos a nos reunir para discutir o tema “mulher”, pauta que, dentre tantas, não consiste em uma prioridade da ATL. Nas pequenas reuniões de mulheres que fizemos durante a ATL, voltávamos o interesse em nós mesmas enquanto uma pauta central. Essa articulação e movimentação foi criando volume, então, marcamos um encontro em Brasília para pensar na execução de uma “marcha das mulheres”. Desde o princípio, estive presente como uma das representantes do Amapá e Norte do Pará nestas reuniões.
Discutimos a primeira “marcha das mulheres” e conseguimos realizá-la no mesmo ano, entre 9 a 14 de agosto de 2019, com o tema “Território: nosso corpo, nosso espírito”. Bem sucedida, a marcha contou com a participação de 2.500 mulheres representando 130 povos. Após essa primeira experiência, o diálogo continuou entre nós e em nossas bases, fortalecendo as frentes de mulheres e de comunicação. Passamos então a construir o movimento e nos organizamos para criar um corpo maior de integrantes, a Anmiga. Como sócia cofundadora dessa articulação, estamos na frente de luta, envidando esforços para fortalecer a unidade que objetiva agenciar o empoderamento da mulher e de nossos territórios. Uma liderança indígena nunca para de atuar, não encerra suas atividades e não se permite ser vencida pelas adversidades encontradas. Esse é o nosso movimento de resistência, contínua. Em 2023, assumi o desafio de gestar o DISEI no meu território e, como assistente social, tenho a convicção das fragilidades da saúde indígena, embora, com perseverança, ouso lutar para que possamos ajudar nossas mulheres e parentes nas aldeias.
Palavras finais de uma guerreira da ancestralidade
Uma liderança luta para fazer a diferença, luta para garantir direitos, luta justamente para quebrar todas as imposições feitas por quem não nos respeita e não compreende a diversidade e especificidade de cada povo. As histórias e memórias brevemente apontadas aqui e no meu estudo, de forma mais incisiva, problematizam, ainda que particularmente, os desafios e dificuldades enfrentados por nós mulheres indígenas dentro e fora de nossos territórios. O percurso de sair do território é muito dolorido. São trajetórias árduas, mas necessárias, que nos tornam resistentes e que devem servir de exemplo aos nossos parentes, pois lutamos para deixar de sermos invisibilizados.
Aos poucos, nós mulheres estamos assumindo papéis políticos de relevância dentro das nossas comunidades. É importante dizer que, ao descrever meu percurso e constituição enquanto uma liderança nesse estudo, eu não escolhi apontar as pedras encontradas no caminho, pois sinto que não sou a única dona de mim, não caminho sozinha, tenho, sobretudo, os encantados ao meu lado. As mulheres da família Vidal e da família Forte, de onde eu pertenço, não são forjadas por homens.
Por vivermos em nossos territórios, demarcados e homologados, nós, povos indígenas, não devemos ser percebidos como povos isolados, sem contato e relações com os outros. Temos a consciência da necessidade de sair de nossas comunidades para prosseguir os estudos fora da aldeia. A cidade nos coloca em situações de vulnerabilidade, quando saímos para estudar, ficamos expostos a situações sensíveis, como a dificuldade na comunicação da língua e na nova vivência cotidiana. Na aldeia temos uma rede de proteção, na cidade ninguém nos conhece e não temos o apoio de que precisamos. Nem sempre encontramos uma mão amiga fora de nosso território. Nós, lideranças, agimos exatamente para poder amenizar essas experiências, lutamos para garantir a conquista de melhorias para nossas comunidades, na saúde, na educação, na economia, para termos internet, energia. Sabemos que conseguimos conquistar muitas coisas nos últimos anos em termos de políticas públicas, como escola dentro da aldeia, o posto de saúde, mas a manutenção desses espaços vitais e a constante necessidade de melhoria não se encerram, pelo contrário, permanentemente, nós, lideranças, reivindicamos atenção por parte dos governos.