Imedu-Aredu / Boe Ejíwu
A força da pintura e da presença
"Somos Imedu-Aredu.Somos travessia.Somos sabedoria.Nosso lugar é aqui: no centro da aldeia, no centro da cultura, no centro da história".
Nas festas, nos encontros culturais e nos rituais tradicionais do povo Boe, há sempre algo que chama a atenção e marca a identidade: a pintura corporal e facial.
Essa prática ancestral segue viva, reinventada a cada geração — e nela, as Imedu-Aredu, jovens que assumem a arte do grafismo com sabedoria, sensibilidade e coragem, têm papel fundamental.
Imedu-Aredu
Desde criança, cresci na aldeia Meruri, em General Carneiro (MT), um lugar onde a presença de visitantes não indígenas sempre trouxe curiosidade — e também desafios. Era comum ver pessoas pedindo para serem pintadas com os grafismos do nosso povo, como forma de se sentirem próximas da cultura.
Nesses momentos, as Imedu-Aredu estavam sempre presentes, com habilidade e disposição, levando adiante uma missão que vai além da estética: elas são levantes da cultura, raízes que se renovam para manter vivo o que nos faz ser quem somos.
Pintar é mais que enfeitar!
É ensinar, é sustentar, é lembrar ao corpo e à alma que pertencemos à terra e que dela vem o que nos cura e nos protege. O barro, o jenipapo, o urucum, tudo isso são dons da natureza que, transformados pelas mãos das jovens, se tornam resistência e beleza.
Minha formação em Design e Antropologia só ampliou meu olhar para essa prática tão rica. Em cada traço está inscrita uma história, uma cosmovisão, uma forma de existir. E é com esse olhar que também percebo as contradições e violências que ainda atravessam nossos corpos.
Lembro de quando, em 2015, nos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, em Palmas, disseram que atletas Boe não poderiam ser brancos, gordos, de cabelo enrolado ou homossexuais. A dor que senti foi combustível.
Quis me movimentar por nós — por todos que são parte do povo, mas ainda assim têm sua existência questionada.
Foi esse desejo de visibilidade e reconhecimento que me levou, em 2024, a Brasília. Ali, participei do Festival Internacional de Dança em Paisagem Urbana – Marco Zero. Minha performance se chamou "Imedu/Aredu em TRANSito".
A proposta era simples e profunda: pintar quem aceitasse com um grafismo e uma pergunta – “Você faria grafismo com uma indígena trans?”.
Ali, debaixo de uma árvore, com meu cartaz, meu corpo e minha voz, vivi o que chamo de um ato de presença. Fui vista, fui negada, fui acolhida.
Muitos se afastaram, outros se aproximaram. Mas, acima de tudo, fui fiel a mim mesma, como indígena, como travesti, como artista. Porque nossa arte não é adorno: é afirmação, é política, é vida.
Acredito na força do conceito de contra-colonialismo, como nos ensina Nego Bispo.
A gente não está aqui para aceitar calada a colonização. A gente está aqui para dizer não, para resistir, para existir com alegria e coragem. Essa performance foi só um passo nesse caminho, mostrando que não ser cisgênero e não ser branco não nos tira nada — ao contrário, nos dá potência.
Ainda estou em processo de pesquisa e de escuta. Mas já sei que esse caminho que trilho, feito de grafismos, palavras e presença, é também um caminho de transformação.
Quero seguir valorizando quem somos, dando visibilidade às vozes que, como a minha, às vezes foram silenciadas, mas nunca deixaram de pintar o mundo com esperança, verdade e pertencimento.
Imedu-Aredu: o lugar da travessia e da sabedoria no povo Bóe
Quero falar do lugar que ocupamos.
Nós, Imedu-Aredu — Homem-Mulher — dentro da sociedade do povo Bóe (Bororo). Falar desse lugar é falar de resistência, de presença e, principalmente, de pertencimento.
Durante muito tempo, disseram que nossos corpos não pertenciam à cultura tradicional. Disseram que estávamos à margem, que éramos uma ameaça ao que chamam de “costumes”.
Mas é justamente a partir da perspectiva contra-colonial que afirmamos: não somos ausência — somos raiz, somos continuidade.
Um dos maiores exemplos disso é o da cacica Majur Traitowu, liderança do povo Boe. Mulher trans, filha de um sábio tradicional, e, ao mesmo tempo, figura atuante no diálogo entre o mundo indígena e o não indígena.
Majur é liderança, autoridade, ponte.
Ela rompe com a ideia de que há apenas um tipo de corpo ou identidade possível para ocupar espaços de poder entre os nossos. E sua existência nos ensina: nos querem como objeto de estudo, mas nós queremos — e podemos — ser as pesquisadoras, as produtoras, as portadoras do saber.
Cresci na aldeia Meruri, no município de General Carneiro (MT), cercada pela beleza e força das pinturas corporais.
Na infância, observava os corpos sendo grafados com urucum, jenipapo, carvão, e mesmo sem entender tudo, já sentia que aquilo era mais que enfeite — era memória, era identidade, era ensinamento.
Com o tempo, compreendi que a pintura diferencia clãs, expressa emoções, marca rituais.
Ela organiza a vida e a alma do povo Bóe.
Foi essa vivência que me levou ao curso de Design, onde desenvolvi minha monografia sobre os grafismos do meu povo. E, depois, no mestrado em Antropologia Social, segui nesse caminho: pesquisando, escrevendo, buscando compreender e valorizar aquilo que por tanto tempo foi observado somente de fora.
Mas hoje estamos aqui. Indígenas pesquisando indígenas. Imedu-Aredu escrevendo sobre Imedu-Aredu. Mulheres trans ocupando a liderança. Corpos dissidentes gerando ciência.
Para mim, a Antropologia é uma ferramenta. Com ela, quero mostrar ao meu povo — e ao mundo — que também sabemos fazer ciência. Que nossa cultura não é passada: é presente, é viva, é pulsante. Como diz Gersem Baniwa, os povos indígenas sempre estiveram presentes na Antropologia. A diferença agora é que estamos deixando de ser fonte e nos tornando voz.
A luta é por reconhecimento, mas também por liberdade.
Liberdade de ser quem somos dentro da nossa cultura. Liberdade de ensinar e aprender com dignidade. Liberdade de ocupar todos os espaços com a beleza que carregamos na pele, nas palavras e nas ações.