Respeito Boe
AREDU JORUDURE TU, TUMEATORU BOKUWA KOIA
Me chamo Claudineia, sou do povo Boe, denominado Bororo.
Sou do estado de Mato Grosso, da cidade de Rondonópolis.
Moro na aldeia Pobore, localizada na Terra Indígena Tadarimana.
Escolhi essa narrativa porque ela faz parte da minha vivência como mãe Boe.
Sou mãe de quatro filhos. Minha mãe sempre esteve presente nas questões cosmológicas. Ela sempre deu muita importância a elas.
Ouvi essa narrativa da melhor historiadora que conheço: minha avó, a eterna Irene Borobo.
Não tem como eu não me emocionar ao lembrar desse enredo, dessa narrativa. Conheço essa história desde a infância.
Mesmo assim, fiz questão de pesquisar novamente com minha mãe, Iraci, para lembrar de todos os detalhes. Também busquei ajuda com minha tia Cleide.
Vou tentar explicar em português um pouco dessa história. Espero ser clara.
Todos os nossos ancestrais – digo, nos tempos dos nossos ancestrais – sempre fomos um povo unido, que usava a coletividade a seu favor.
Usávamos a caça, a pesca e, principalmente, essa união para proteger a nossa comunidade.
Nossas narrativas são bens preciosos em nossa vivência. Todas são baseadas em fatos, que realmente aconteceram na história do povo Boe.
A história que vou contar trata de uma mulher que foi teimosa e ignorou nossas crenças.
Tudo começou quando foi comunicado à comunidade que haveria um evento cultural em outra aldeia. Iriam fazer um ritual de cantos, onde todos se reúnem para cantar a noite inteira.
Logo pela manhã, todos começaram a se preparar para a viagem. Foi então que uma mulher se recusou a ir.
Ela tinha um filho de colo e dizia que não estava bem, que estava indisposta. Sua família ficou preocupada ao perceber que ela não iria.
Inconformados, insistiram: “Você não vai? Vai ficar sozinha por aqui?” Tentaram convencê-la, mas não adiantou. Ela dizia que ficaria tudo bem. E então todos partiram.
Entardeceu e o sol começou a baixar, e logo anoiteceu. Foi quando o mal – que seria o espírito da noite – começou a andar pela aldeia. Dizem que, quando as pessoas saem da aldeia, ele começa a entrar de casa em casa. Foi o que fez.
Chegou à casa daquela mulher, percebeu que ela estava só com o filho de colo, e quis aproveitar para roubar a alma da criança, já que ela estava desprotegida.
Começou a fazer barulhos estranhos ao redor da casa. Barulhos assustadores!
A mulher, assustada, procurou os pertences do filho. Mas o espírito da noite já havia se adiantado: roubou todos os objetos do menino. Ela procurava por toda parte, mas não encontrava.
Um pouco distante dali, havia um último viajante. Ele viu uma luz no céu, uma estrela que faiscava e depois se apagava. Antes que ela desaparecesse por completo, ele atirou em direção à luz.
Quando chegou ao chão, ouviu um barulho, como se algo tivesse caído carregando uma bagagem. O homem correu e viu, espalhados pelo chão, os pertences da criança: brinquedos, objetos, tudo em um cesto.
Para nós, ver isso não é por acaso: é sinal de que um espírito se adiantou para roubar uma alma.
Dizem serem mesmo os objetos daquela criança.
Por isso, quando acontece um evento em outra aldeia, recomenda-se que todos possam ir juntos – principalmente as crianças. Dizem que nenhuma criança deve ficar para trás.
Só os grandes sábios podem permanecer, pois conhecem os saberes e proteções com fumaças e ervas medicinais.
Devemos sempre evitar que uma criança chore à noite. Não devemos sair com crianças pequenas, de colo, para beira de rio no fim da tarde. Elas são frágeis. O espírito do mal se aproveita disso.
A noite é o momento de acolher os filhos no colo, para não chorarem. Também não devemos deixar brinquedos espalhados fora de casa, porque o espírito da noite se aproveita disso para tirar vantagem.
Agora vou contar na língua materna, como aprendi [...]
AREDU JORUDURE TU, TUMEATORU BOKUWA KOIA (A MULHER QUE PASSOU O QUE NÃO DEVIA PELA SUA TEIMOSIA)
Boe eguguduiure pui, boe koriboe kae, marenaru koriboe kae…
Duuu… Boe etuiure roia kae, nono boe eroie tači je. Boe kare ia aredu pemega kae, nono makomode tumedage ei:
— Tudumodukaie, tubemegakae tumeruwo. Mare naregedure, kodu kimore mai, ieduiure ji todoto. Metage egoie:
— Kočare atumodukare, amugumode akinoigodu. Metage etogiaie mugumode duji.
Enogitowamode ji koduwo. mare meatoru čvkae, akomode:
— Boe pegareu kae, tumugumoduie rugadu. Boe kae čare merirekoduie, boečodure, čnono awu monogodu aregodumode bato, uiure turemo ji, ji, nowu bai bioro boeto.
kodumoduie če bakuaji taregodui nowu aredu uwai kae. Nono jetumoduie pa ji tanaregedurogu apo. Čare umoduie turirigo pudui tui biaruru butui ji du tabo. nono nowu aredu biagorogoduie, jemaru moduie tonaregedu oroe bogai, jorudumodukaie ji, nowu naregedurogu oroe rugadu akuwaie.
Ia imedu kodumoduie boigodu tumedage eregodaji, aiwomode baruto, jorudumode aroe kodure duji nono itogodumode atagajeje, oroe romoduie ja je nono utumodode nowu rugu rekodaji jetumoduie pa ainore boe tore enoroe padie motoji akigu, boura, akigu, kiogawaro,boe tore enore epaduie moto ukuwaji. Nowu aredu naregedu oroe raboduie. Marebe iwoguraboduie naregeduji.
Dukodi Boe emugukae bai bioro tada bai bioro koriboe kae. Dukodi Boe tumoduie roia kae ia uredu boe kaeboe herói tači je, Boe emugu kigodu pu uiageje.
Joruduareu re mugure mare tuiorubo tabo tui redududo tuiogi du tabo. Ainore ure…