Confluências amefricanas
A Revista Pihhy inaugura com entusiasmo a seção Confluências amefricanas, inspirada nas potentes obras de Antonio Bispo e de Lélia Gonzalez, que nos desafiam a confluir, nomeando e reconhecendo a presença viva de outras epistemologias, na resistência à violência colonial e para as transformações necessárias na constituição da América Latina.
Este espaço nasce como uma encruzilhada de saberes, onde mestres e mestras das comunidades indígenas, negras, quilombolas, ribeirinhas, de terreiro; compartilham reflexões, práticas, memórias e modos de sustentar a vida.
Confluências
O diálogo segue ancestral — ecoa as vozes de quem sempre soube, mas por tanto tempo foi silenciado.
Inauguramos essa iniciativa inspirados no admirável e potente Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais (MESPT), da Universidade de Brasília (UnB), um programa absolutamente necessário que demonstra como a universidade pode, sim, se transformar ao ouvir e aprender com os povos tradicionais.
Abrimos esta seção com a contribuição do Mestre Wendell, do Quilombo Buriti do Meio, em Minas Gerais, estudante do referido curso.
Sua fala apresenta um trecho de sua trajetória e parte da rica tradição da cerâmica quilombola — técnica, arte e resistência forjada no barro e na memória.
Wendell compartilha o modo como as cerâmicas são moldadas pelas mãos dos e das mestres e mestras da sua comunidade e das vizinhas, revelando um conhecimento transmitido entre gerações que dialoga com o corpo, o tempo e o chão.
A seção Confluências é, portanto, um território de celebração. Que aqui os saberes dos povos afrodescendentes possam circular, ecoar e continuar reafirmando a dignidade de existir com raiz, beleza e força política.
A Escrita da Terra: Grafia, Memória e Ancestralidade nas Pinturas Quilombolas do Buriti do Meio
Por Wendell Marcelino de Lima – Mestre Artesão e Guardião da Tradição Quilombola
A ESCRITA DO BARRO
(Cordel por Mestre Wendell Marcelino de Lima)
I. CHEGADA AO BARRO
Olha pro chão, meu irmão,
O barro é livro aberto
Quem tem olho de quilombo
Lê a lição do tempo certo
A terra fala sem pressa
No ritmo do sol e chuva
Quem escuta com as mãos
Aprende a escrita sua
II. O TRABALHO DO MESTRE
Primeiro é secar no sol
Depois quebrar, peneirar
Amassar com água e história
Pra memória não acabar
O rolete vai girando
Como espiral no terreiro
Cada volta é um verso
Do nosso livro inteiro
A LINGUAGEM DOS TRAÇOS
Desenho linha ondulada
Que é rio, estrada e corda
Ponto que vira estrela
Guia da noite remota
Mas a rainha é espiral
Que nunca tem fim marcado
É o mapa do quilombo
No barro transformado
O FORNO ANCESTRAL
O fogo não é castigo
É abraço de transformação
O pote cru vira estrela
Na forja da criação
Cinza vira pele dura
Barro vira resistência
Assim foi nosso povo
Na fornalha da existência
HERANÇA PRA MOÇADA
Menino pergunta ao véio:
"Que mistério tem esse pote?"
E o mestre entrega o barro:
"Escreve aí teu verso forte"
Porque a espiral não para
E o canto não se cala
Enquanto tiver terra
A história se renova
MORAL DA HISTÓRIA:
"O barro é página eterna
O quilombo é autor
E a espiral da resistência
Não tem ponto final, não, senhor!"
Autor Mestre Wendell Marcelino de Lima.
A Linguagem Silenciosa da Terra
A terra fala.
Suas palavras não são feitas de letras, mas de texturas, cores, cheiros e formas
que se revelam aos olhos e mãos daqueles que sabem escutar.
Na comunidade quilombola Buriti do Meio, no norte de Minas Gerais, essa comunicação ancestral se manifesta na cerâmica, nos grafismos espirais e nos potes que carregam, há séculos, a história de um povo que resiste e se reconstrói através do barro.
Este artigo busca mergulhar na profundidade dessa escrita milenar, explorando não apenas as técnicas artesanais, mas a filosofia de vida que sustenta essa prática. A cerâmica quilombola não é apenas um objeto utilitário ou decorativo; é um documento vivo, uma narrativa moldada pelas mãos de mestres que aprenderam a ler os sinais da terra e a traduzi-los em arte.
O Barro como Página Viva – O Processo de Escrita Ancestral
O trabalho com o barro é um ritual que exige paciência, respeito e atenção. Cada etapa do
processo é uma lição sobre ciclos, transformação e diálogo com a natureza.
A Escolha da Matéria-Prima: Ouvindo a Terra
Antes mesmo de começar a moldar, é preciso saber de onde virá o barro. Nem toda terra
serve; algumas são muito arenosas, outras muito pesadas. O mestre artesão aprende a
reconhecer o barro ideal pelo tato, pelo cheiro e até pelo som que ele faz quando é batido.
Essa seleção não é apenas técnica, mas intuitiva, um conhecimento transmitido oralmente através de gerações.
O Preparo: Purificação e Transformação
O barro não chega pronto às mãos do artesão. Ele precisa ser:
Seco ao sol– A espera faz parte do processo, ensinando que tudo tem seu tempo.
Quebrado e peneirado– Separar o que é útil do que é impureza, assim como a vida exige discernimento.
Amassado com água– A união dos elementos (terra e água) simboliza a harmonia
necessária para a criação.
Esse preparo é uma metáfora do próprio caminho quilombola: uma história de resistência, reconstrução e ressignificação.
A Moldagem: Dar Forma à Memória
Quando o barro está pronto, ele é modelado em potes, panelas e utensílios que carregam funções cotidianas, mas também simbólicas. As mãos do artesão não criam apenas objetos; elas dão forma a histórias. A técnica do rolete (cordões de barro sobrepostos) é uma herança africana, uma prova da resistência cultural mesmo sob a opressão colonial.
A Grafia da Resistência – Os Símbolos que Contam Nossa História
Os grafismos que adornam as peças do Buriti do Meio não são meros enfeites; são uma linguagem cifrada, um código ancestral que conecta o passado ao presente.
A Espiral: O Símbolo da Eternidade Quilombola
O desenho em espiral é um dos mais recorrentes na cerâmica do Buriti do Meio. Sua
simbologia é múltipla:
Representa o movimento da vida – assim como a espiral não tem fim, a luta quilombola é contínua.
Faz ponte entre mundos – aparece em culturas africanas, indígenas e até celtas, como se fosse uma linguagem universal da ancestralidade.
Simboliza o retorno às origens – lembra que, mesmo na jornada, nunca devemos esquecer de onde viemos.
Outros Grafismos: Linhas, Pontos e Zigue-Zagues
Além da espiral, outros símbolos compõem a escrita da terra:
-Linhas onduladas – representam os rios, caminhos de sobrevivência e fuga dos ancestrais.
- Pontos e traços– podem simbolizar constelações, uma forma de orientação noturna usada nos quilombos.
- Padrões geométricos – guardam semelhança com os adornos de povos Bantu e Yorubá, reforçando a diáspora africana.
Esses grafismos não são aleatórios; cada um carrega uma intenção, uma mensagem deixada pelos antigos para os que ainda estão por vir.
Transmissão e Futuro – A Arte de Não Deixar a Voz da Terra se Calar
A cerâmica quilombola não é apenas sobre o passado; é um ato de futuro. Seu maior desafio hoje é a transmissão desse saber para as novas gerações.
O Papel dos Mestres Artesãos
Os mais velhos são guardiões desse conhecimento. Sua missão vai além de ensinar
técnicas:
-Preservar a memória – contando as histórias por trás de cada símbolo.
- Incentivar a criatividade – permitindo que os jovens tragam novas interpretações, sem
perder a essência.
-Fortalecer a identidade – mostrando que a arte quilombola é um ato de orgulho e
resistência.
Cerâmica na Atualidade: Entre a Tradição e a Inovação
Hoje, as peças do Buriti do Meio não servem apenas ao uso doméstico; são também objetos de arte, vendidos em feiras e exposições. Esse novo olhar traz oportunidades, mas também riscos:
- Comercialização ou Autenticidade – como vender sem descaracterizar?
- Técnicas Modernas x Métodos Tradicionais – o uso de tornos e tintas industriais pode acelerar a produção, mas também apagar marcas ancestrais.
O equilíbrio está em entender que a tradição não é estática; ela se reinventa, mas sem perder sua raiz.
A Escrita da Terra no Século XXI
Em um mundo digitalizado, a cerâmica quilombola surge como um contraponto. Ela lembra que há saberes que não podem ser armazenados em nuvens, mas apenas repassados de mão em mão, de geração em geração.
A Terra Segue Escrevendo, Nossa Missão é Ler
A escrita da terra não desapareceu. Ela está ali, no barro que se transforma, nos grafismos que contam histórias, nas mãos que moldam o futuro. A cerâmica quilombola do Buriti do Meio é mais que arte: é um ato político, espiritual e cultural.
Cada pote queimado, cada espiral desenhada, é uma afirmação:
"Estamos aqui, resistimos e criamos, seguindo a voz da terra que nunca se calou."
Que essa escrita continue sendo lida, interpretada e, acima de tudo, vivida. Porque, enquanto houver barro, mãos dispostas a moldá-lo e mentes abertas para aprender, a ancestralidade quilombola seguirá ecoando.