Conversas com Intelectuais que transformam
Rosani Kaingang
Nesta primeira parte de nossa Conversa com Intelectuais que transformam, a Revista Pihhy tem a honra de dialogar com uma referência no pensamento indígena contemporâneo: a professora Rosani Kaingang — primeira mulher indígena a integrar o corpo docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Sua trajetória é marcada por força, lucidez e compromisso coletivo.
Intelectual de grande sensibilidade e rigor, ela compartilha conosco reflexões potentes sobre sua caminhada acadêmica, construída em diferentes regiões do Brasil, onde atuou como pesquisadora, educadora e articuladora de redes de fortalecimento dos saberes indígenas.
A professora fala, com coragem e clareza, sobre o racismo institucional e epistêmico que persiste nas universidades brasileiras.
Denuncia como esses espaços ainda funcionam majoritariamente a partir de lógicas monoculturais e monoepistêmicas — que centralizam, valorizam e legitimam apenas um modo de conhecer e ser no mundo, invisibilizando e desqualificando as epistemologias indígenas.
Ela questiona, com firmeza, a estrutura das instituições que insistem em manter barreiras à entrada, permanência e valorização dos povos originários.
Para Rosani, a abertura das universidades às epistemologias indígenas não é um favor ou concessão, mas uma necessidade urgente e fundamental para a transformação social, ética e cognitiva do país.
É preciso escutar outras vozes, acolher outros modos de produzir conhecimento e construir caminhos verdadeiramente interculturais.
A sua própria presença como docente em uma instituição federal é, em si, uma ruptura e um convite: para que as universidades se tornem espaços plurais, vivos, comprometidos com a justiça e com a escuta verdadeira.
Em suas palavras, ensinar e pesquisar não são atos solitários ou isolados, mas formas de seguir caminhando com o coletivo, com os encantados, com os que vieram antes e com os que virão.
Esta conversa é apenas o início de um diálogo profundo que se desdobrará nas próximas edições, inspirando educadoras e educadores indígenas e não indígenas a repensarem o papel da universidade e da produção de conhecimento em nosso tempo.
A Revista Pihhy reafirma seu compromisso com a escuta atenta e a valorização dos saberes indígenas em todas as suas expressões — e reconhece, com orgulho, o trabalho fundamental de nossas intelectuais originárias.